Dentre os muitos possíveis ramos de estudo da História, tenho como o meu predileto a História da Arte. Há quem diga, aliás, que ela, na verdade, seria um campo de conhecimento acessório da História, como a Arqueologia (que se debruça sobre os vestígios materiais humanos do Passado), a Numismática (cujo objeto é a identificação e correta datação de antigas moedas) e a Paleografia, (voltada para a análise de velhos documentos e para as suas “traduções”), dentre várias outras.
Todavia, discordo dessa afirmação. Pois ela se refere a uma modalidade da História da Arte um tanto quanto datada, específica, mais ligada à técnica, aos materiais, ao estilo, do que propriamente à História. Ela, preferencialmente, cuidava – e ainda cuida, não está morta, não – de aspectos como as tintas empregadas, a luz, as cores, as influências artísticas sofridas por este ou aquele pintor, escultor ou arquiteto, a maneira como cada um pintava, esculpia ou desenhava (largas pinceladas, intensidade dos golpes na pedra, etc.) e, não raro, aproximando as obras a algum momento registrado na vida do artista: se uma pintura, por exemplo, parecia sombria, fora porque seu autor, naqueles dias, estava melancólico; se algo se assemelha a um esboço, em lugar de uma peça acabada, seria porque o artista que a produziu precisava urgentemente de dinheiro; e coisas do gênero.
O que, na verdade, pratico, é algo bem diferente. É claro que certas questões acima levantadas estão no meu horizonte quotidiano. As referências artísticas, por exemplo, são indispensáveis, pois ao contrário do que a imensa maioria das pessoas acredita, a “originalidade” na Arte é coisa bem recente: até o início do século XIX, pintava-se, esculpia-se, construía-se sempre “à maneira de Fulano”, “depois de Beltrano”, num permanente “debate” com os antecessores. Este é um dos motivos porque vemos tantas obras aparentemente tão semelhantes umas às outras. Vez ou outra havia inovações radicais, é fato. Mas sempre em resposta a obras anteriores. Por isto temos, por exemplo, várias obras que ilustram a deposição do Corpo de Cristo, da Cruz, que repetem os mesmos elementos, ângulos, “linhas de força” (retas e diagonais que fazem com que vislumbremos formas geométricas na composição: por exemplo, um triângulo, envolvendo toda a famosa Pietà, de Michelangelo), e por aí vai.
Mas há outros fatores numa obra de arte que vão além dos já citados. Esta é a diferença, no campo da análise, do que se fazia no passado e do que, desde o início do século XX, mais ou menos, vem sendo feito. Porque um quadro, uma escultura, um prédio não se resolvem apenas nos seus aspectos formais, “de dentro para fora”. Entram, também, nas suas composições, o sentido, os interesses e as influências de quem contratou o “serviço”, a cultura geral e material da época. Para além das representações consagradas – como se representava um rei, ou um burguês, um general ou um santo –, há também certos aspectos, aparentemente comezinhos, mas cruciais. Uma igreja ricamente decorada, em sua capela-mor, e meio asséptica na nave, significa o quê? Que os gostos mudaram? Que os artistas eram diferentes, e que um era menos hábil que o outro? Ou, ainda, que acabou o dinheiro? Por que a imagem do Cristo Sofredor foi, em determinada época, substituída pelo Cristo Salvador? Por que o “estilo” e os interesses mudaram? Baseados em quê? Por que numa determinada pintura histórica um índio, nela retratado, parece um clone de Arnold Schwarzenegger, e, numa outra, quase que um anão? O que os artistas liam, no que eles acreditavam? E seus patronos, para que tal resultado assim se produzisse? Se o antigo deus grego Hermes, o Mercúrio dos romanos, é representado, em demasia, numa cidade italiana, o que podemos pensar? Que o comércio é a principal atividade dali. Se vemos uma sucessão de imagens de Santa Ifigênia, São Benedito e Santo Antônio do Noto numa igreja, a que conclusão nos inclinamos? Nossa inclinação é concluir que tal templo é freqüentado, tradicionalmente, por um número muito maior de negros, ou afro-descendentes, do que de brancos.
Embarquei nesta Grande Armada, que é a História da Arte, numa pequena embarcação. Não alistei-me no grande galeão do Barroco europeu, nem na galeota, impávida e magistral, do Renascimento. Matriculei-me, pois este é o termo, numa espécie de navio de faz-de-conta, qual aquele que Chica da Silva tinha em seu lago, um mar de fantasia, na antiga Comarca do Serro, Distrito Diamantino, das velhas Minas Gerais. Sigo pelo mar da História da Arte, singrando o Oceano da História Cultural. Não sei a que porto chegarei, mas, sou incapaz de negar, carrego as lembranças de onde parti. É muito? Ou é pouco? Não interessa: o horizonte é sempre mais adiante.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de março de 2008].
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