quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Brincando com a Estética

Decidido que estava a arrumar uns papéis, acabei relendo algumas anotações das quais pouco me lembrava. Uma delas referia-se ao aspecto físico do célebre artista do Renascimento Michelangelo Buonarroti. (1475-1564). Segundo Giorgio Vasari (1511-1574), um dos primeiros biógrafos da história moderna, o genial pintor do forro da Capela Sistina não só era muito feio, como chegara até mesmo a se desculpar por sua feiúra num soneto – vejam só, além de talentosíssimo pintor, escultor e arquiteto, Michelangelo deixou também um livro de poemas, por sinal, excelente. O fato está lá no livro de Vasari, Le Vite delle più eccellenti pittori, scultori, ed architettori, uma obra capital da História da Arte, uma ótima análise dos personagens e das obras do período e a primeira a estampar o termo Renascimento. Mas é claro que este livro nunca foi publicado no Brasil.
Voltando ao tema, àquelas anotações e seu conteúdo, quis checar se correspondiam à verdade, e para minha tristeza verifiquei que os dois volumes citados, os quais tenho, estão em qualquer lugar possível que não ao alcance da minha mão. Fique, pois, dado como certo o fato. Em vista do que li, comentei o assunto com alguns amigos, e todos fomos unânimes em considerar a ironia de uma pessoa alegadamente tão feia produzir uma obra tão bela, tão sublime. Seria um caso de tentativa de reparação, ou “sublimação”, como dizem na psicanálise? A procura pela beleza como uma espécie de compensação pela própria feiúra? Não sei. Não creio que as teorias psicanalíticas funcionem quando aplicadas a um passado remoto. Se elas são, como o próprio Freud (1856-1939) as entendia — e lembremos que ele é o pai da “criança”— formas de análise válidas para uma sociedade industrial e para uma família centrada na figura de um pai mantenedor, utilizar tais ferramentas numa época pré-industrial, e com formações familiares diferentes, não deve dar muito certo.
Mas, teorias à parte, o fato é que aquela oposição entre fealdade física e beleza artística intrigou nosso pequeno grupo. E procuramos recordar, por alto, se encontrávamos outros exemplos. Logo de início, lembramos do caso de Rembrandt (1606-1669), o genial artista holandês; basta conferir seus auto-retratos, todos eles belos artisticamente, humanos, mas tendo um modelo muito feio como base. E, ao mesmo tempo, que obras sublimes ele deixou! Seguimos, então, aleatoriamente por épocas, escolas e países, ao sabor das lembranças. O Aleijadinho, por exemplo, não entraria no rol por sua doença, o que seria cruel, mas a única descrição de sua aparência é bem desabonadora e a testemunha foi sua própria nora, mulata, como ele: logo, não é um caso de preconceito “racial”, mas constatação. Caravaggio (1571-1610) pode até ter sido belo na juventude, mas depois da idade madura, sua época mais produtiva, francamente... Vejam-se os auto-retratos em que se fazia passar por Golias, decapitado por Davi. O mesmo, em boa medida, se aplica a Leonardo da Vinci (1452-1519). Corre uma lenda de que ele fora bonito na juventude; entretanto, seu célebre auto-retrato, na velhice, deixa no ar certas dúvidas. E aqui, faz-se necessário um aparte. Não considero que o simples processo de envelhecimento seja sinônimo de perda de beleza. Há quem envelheça mal, é verdade. Mas quem um dia foi belo, traz no rosto, e na lembrança daqueles que os conhecem de anos mais primaveris, os vestígios e a fama da beleza, ainda que remota. E tenho, desde há muito tempo, aliás, o maior respeito e apreço por uma máxima bíblica que diz que “A força é o ornato dos jovens, como os cabelos brancos são o ornamento dos anciãos” (Provérbios 20:29). A cada um, o seu tempo e seu aspecto, sem reprovações.
No curso de nossa conversa informal, outros exemplos foram lembrados. Rafael (1483-1520) tinha boa aparência e nos deixou um legado sublime. E Rubens (1577-1640), como Velásquez (1599-1660), talvez não fizessem muito sucesso hoje entre as fãs de Brad Pitt e Leonardo di Caprio, mas eram, em seu tempo, bem aprumados. E vejam as gloriosas pinturas que deixaram.
Quase ao fim da conversa, um dos de nosso grupo lançou, à queima-roupa, a pergunta: “E os feios que produzem obras consideradas feias”? Perguntinha complicada aquela, porque remetia a dois pontos polêmicos. O primeiro deles recordava um célebre artigo intitulado Paranóia ou Mistificação?, do ótimo Monteiro Lobato (1882-1948), um admirador da pintura acadêmica, e realista, no qual ele desancava as pinturas da modernista Anita Malfatti (1889-1964), expostas em 1917, em São Paulo. Nele, o escritor taubateano indagava se as inovações modernistas da pintora, as quais deplorou, não seriam fruto de algum distúrbio psicológico da artista, agravado por sua deformação física – tinha ela um braço um pouco atrofiado, mas, de uma maneira geral, era uma mulher de boa aparência. O comentário foi devastador para ela, apesar da inflamada defesa de sua obra por Mário de Andrade (1893-1945). E entrou para a história como uma nódoa na vida de Lobato e por resultar no seu quase esquecimento pelos estudos literários acadêmicos, dirigidos por seguidores de Mário de Andrade ou por seus discípulos. O segundo ponto de polêmica resvala pelo conceito de “arte degenerada”, cunhado por Hitler (1889-1945?) num célebre discurso e incrementado ao longo dos anos por suas críticas anti-semitas. Dizia ele, em suma, que quem pintava um prado de azul e uma nuvem de verde, digamos, além de retratar gente feia, deveria ser um desequilibrado mental ou alguém de notória feiúra, características as quais ele reputava como típicas das, como ele dizia, “raças inferiores”: judeus, mediterrâneos, negros, latino-americanos, eslavos, etc. É claro que Hitler, como crítico de arte, tem tanta relevância quanto, digamos o “nosso” ex-general-presidente Emílio Médici, o Garrastazu, ou o “Presidente do radinho-de-pilha”, teria enquanto crítico musical: ou seja, nenhuma. Mas a censura que impuseram, e o seu sectarismo, são, ainda hoje, além de arbitrários, provas de suas colossais ignorâncias.
Mas o pior da pergunta de meu amigo, e à luz das referências acima, é que, para uma mente preguiçosa, ela até pode parecer válida. Uma análise da aparência física dos pintores ditos “modernos”, e de sua “demolição do belo clássico”, sugeriria uma hipótese, equivocada, sem dúvida, de que um bando de gente “feia” perpetrava um monte de barbaridades e chamava aquilo de arte. Feios, de fato, boa parte deles era. Picasso (1881-1953) parecia um sapinho; Vlaminck (1876-1958), um sapo-boi”; Diego Rivera (1886-1957) foi apelidado de “O ogro”. A lista é infindável, como vemos. E o impasse se instalou em nossa discussão. Até que um dos nossos rompeu o véu de incertezas: “Querem saber? O fato é que, feios ou bonitos, produziram coisas maravilhosas. Chega de brincarmos com a Estética e com fofocas. Um viva a todos eles e, garçom, mais uma rodada”.
E a paz se refez, incontestavelmente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de março de 2008].

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