quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Música para todos

Acredito que o conhecimento de certos “legados artísticos nacionais” seja bastante amplo. Estudamos, oficialmente, e desde a infância, os movimentos e escolas literárias com relativo método – maior, se pretendemos cursar uma faculdade. De modo que nomes como Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Guimarães Rosa, dentre muitos, bem como seus personagens e trechos de suas obras, não são desconhecidos por quem passou pelos bancos escolares. É claro que ainda existem lacunas. Não falo dos muitos injustamente esquecidos pela crítica, autores estudados hoje apenas por especialistas e que tiveram e ainda têm muito a dizer. Penso no caso, por exemplo, de um Bento Teixeira, que aprendemos ser “o fundador” da literatura nacional, com seu poema épico Prosopopéia (1601), sempre nomeado e nunca citado – hoje o poema pode ser lido em versão digital, mas a única edição dele que conheço, encontrei-a no Recife, há quatro anos, por uma pequena editora local: ou seja, é o “fundador da literatura nacional” e praticamente ninguém conhece sequer meia dúzia de versos de sua autoria; e olhem que são bons. O mesmo também se aplica a obras como Vila Rica (1773), de Cláudio Manuel da Costa, e O Filho do Pescador (1843), de Teixeira e Sousa: ambas consideradas marcos literários em suas épocas, hoje são conhecidas por poucos, na sua integralidade (a primeira, antes da cara edição A Poesia dos Inconfidentes, Editora Nova Aguilar, 1996, não era publicada desde 1906; a segunda, foi reimpressa por uma pequena e quase desconhecida editora, Artium, em 1997, depois de décadas esgotada). E este é um campo que julgamos conhecer bem.
Das artes plásticas, em geral, também se divulga alguma coisa, na maioria das vezes de forma indireta. Os livros didáticos de História, ou mesmo de Geografia ou Português/Literatura, costumam conter várias ilustrações relativas aos assuntos ou épocas abordadas. Não há quem tenha passado pela escola e que não possa ter visto, nalguma página de livro, uma fotografia da Igreja de S. Francisco de Assis, de Ouro Preto, ou dos profetas do Aleijadinho em Congonhas do Campo, ou do O Último Tamoio (1883), de Rodolfo Amoedo, ou O Grito do Ipiranga (1888), de Pedro Américo, ou ainda alguma pintura de Tarsila do Amaral, escultura de Vitor Brecheret ou prédio de Oscar Niemayer. Estão sempre lá, ao lado de reproduções de gravuras de Debret e Rugendas retratando escravos. E esta sucessão de imagens acaba sendo uma espécie de lição geral quanto às artes visuais no Brasil.
No que diz respeito ao teatro, o conhecimento é mais restrito. É verdade que, do teatro profissional ao menor dos menores grupos amadores, encenam-se, principalmente, peças nacionais. Não há, no meio, quem não tenha se envolvido, uma vez que seja, com o Auto da Compadecida (1956), de Ariano Suassuna, e Vestido de Noiva (1943), de Nélson Rodrigues. Aliás, daria para se fazer uma relação, extensa, por sinal, dos grupos amadores que parecem ter nascido e vivido somente para encenarem estas duas peças, e apenas elas: a primeira, porque chama público; a segunda, porque é “clássica”, mas que acaba por ser a pá-de-cal da trajetória do grupo.Quanto ao mais, tudo permanece ignorado, salvo quando alguém se lembra de Martins Pena, ou d’A Moratória (1955) ou de Pedreira das Almas (1958), de Jorge Andrade, e do indefectível Pluft, o Fantasminha (1955), de Maria Clara Machado. Não que sejam más peças, pelo contrário. Mas não são, evidentemente, as únicas do repertório nacional. O problema é que, parece, só elas que são encenadas pelo país afora. Sempre e sempre, em todos os lugares.
Mas o que é, de fato, completamente ignorado, do “legado cultural brasileiro”, por incrível que pareça, é a música. É fato que, de uns tempos para cá, um certo resgate vem sido feito, sobretudo quanto ao samba e aos cantos e cantares tradicionais do Brasil. Cirandas, reisados, sambas das “Velhas Guardas”, maracatus, etc., tem sido recolhidos, classificados, gravados até por grandes nomes da música. Por outro lado, todo um vastíssimo material de qualidade, permanece ainda ignorado, mofando e empoeirando ao sabor do tempo e do descaso. Trata-se da chamada música “erudita”, composta no Brasil em abundância desde os tempos coloniais, em franca atividade até meados do século XX, e da qual ninguém mais fala ou escuta. Música que era produzida para salões e teatros, mas também para as igrejas e coretos de praça. Que circulava, que era conhecida, que influenciou e emocionou muitas pessoas, e que foram banidas, maliciosamente, por pessoas que nelas nada reconheciam de “nacional”: segundo elas, não passavam de cópias, caipiras, de ritmos europeus, e sem valor, portanto. Ora, como praticamente tudo que fazemos não passa de uma cópia de costumes e valores europeus – do Catolicismo às imagens do Candomblé, do uso de calças e talheres à mecânica dos automóveis, do idioma ao ordenamento jurídico, do pão de trigo ao sistema métrico, qual é o problema com a música erudita? Não é nossa também? Vá lá que seja adaptada, talvez – e, muitas vezes, com um altíssimo grau de brilhantismo. E só por isso ela não merece ser conhecida?
“Ah”, diria alguém, “mas é um gênero musical muito elitista. Depois, não se pode comparar algum compositor mineiro obscuro do século XVIII a Mozart; um Alberto Nepomuceno a Verdi; ou quem quer que seja daqui com alguém de lá. Sairíamos perdendo. Bom, mesmo, é o que fazemos de ‘diferente’, de popular”.
Acredito que alguma coisa boa só pode ser reconhecida como tal desde que submetida a uma prova. E a única maneira de realizá-la pressupõe, em primeiro lugar, o próprio conhecimento da matéria em questão. E, por acaso, nós a conhecemos? Não, de maneira nenhuma. Fico imaginando a quantidade de compositores desconhecidos pelo grande público que deve ter existido no Brasil, cujas partituras envelhecem nalgum porão ou que são de conhecimento de umas poucas bandas de música do interior. Composições que foram uma referência para gerações e que hoje padecem no limbo da ignorância. Creio que já passa da hora de retirá-los, uns e outros, do esquecimento, do silêncio. Darmos a eles, novamente, voz. E que nós lhes emprestemos nossos ouvidos. E que os julguemos pelo que são, não pelo que dizem deles. Já passa da hora. Mãos à obra!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de março de 2008].

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