quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Dos brasões e de seus usos

Um conhecido meu, rapaz de caráter irrepreensível, casado de pouco e planejando ter filhos, mostrou-me, dias atrás, uma carta heráldica pela qual, confessou, pagara um bom dinheiro, e que trazia o brasão “nobiliárquico” de sua família – cujo nome, ao seu pedido, não revelarei. Mostrou-me aquele diploma com um riso irônico nos lábios. Disse-me que aquele “atestado” – em pergaminho, ricamente emoldurado, e assim expedido, pelos contratados para aquele serviço por um “pequeno adicional nos custos” – fora um pedido de sua mulher, que, segundo ele, parecia amá-lo na mesma medida que ao seu nome de família. Por este motivo, encomendou o “documento”, que veio acompanhado de uma relação, anexa, trazendo os “grandes nomes de sua família”. Rimos até mais não poder, porque, como ele me dissera noutra ocasião, o pai de seu bisavô fora escravo e seu sobrenome era de empréstimo: era o dos amos e padrinhos de batismo daquele seu antepassado, que seguiam uma prática comum em tempos, aliás, não tão remotos. Fato do qual ele não se envergonha, como não tem por que se envergonhar. E, assim, rimos, mais uma vez, dos embustes que circulam sob os nomes de Genealogia e Heráldica, áreas do saber tão maltratadas, tão vítimas do escárnio, graças à má-fé de uns e da excessiva credulidade – ou esnobismo, ou desejo de ser algo mais do que é – de tantos outros.
Pois a Heráldica, ao contrário do que muita gente pensa, e do que parece ter sugerido acima, é, de fato, uma ciência auxiliar da História. Mas, ao mesmo tempo, ela é uma arte. Pois não só estuda a composição dos escudos de famílias, cidades, estados, países, monarcas e dignitários, como também os compõe, os desenha. Cabe, assim, aos heraldistas dizerem o que entra ou não num brasão, e o porquê disto.
Suas regras não são das mais difíceis. Os termos empregados são eruditos, raros, um tanto quanto pomposos, mas, com um pouco de esforço, é possível dominá-los. Não descerei, aqui, a minúcias, mas para dar um exemplo destas preciosidades que estão embutidas em suas normas, convém mencionar que as cores, por exemplo, as mesmíssimas cores que encontramos em toda parte, são nomeadas de maneira diferente. Em primeiro lugar, não são cores, mas, sim, esmaltes, e nem todas aquelas que conhecemos situam-se nesta categoria. Assim, o azul é blau, o vermelho, goles, o verde, sinople, o magenta é púrpura, o bege é carnação e o preto é sable .Isto porque outras cores merecem o nome de metais: de modo que o branco é prata, e o amarelo, ouro. Até aí nada de mais. A linguagem poética chama vermelho de fulvo, amarelo de glauco, cor de marfim vira ebúrneo, dourado converte-se em áureo – os exemplos são inúmeros. Todavia, reconheçamos, estes últimos termos são bem menos exóticos. Quem nunca ouviu algum deles numa aula de literatura do Ensino Médio, ou no curso de Catecismo, num hino patriótico decorado à marra, ou naqueles poetas do passado de que gostamos? Volto a repetir: não são estranhas estas formas cultas, mesmo com um certo quê de arcaicas. Mas daí a “decorar” novos termos para nomes bem conhecidos, vai uma longa distância. E, por tal motivo, parece bobagem, perda de tempo, afetação, etc. Declaro que respeito a sua tradição, verdadeira, aliás, mas daí a me embrenhar em suas selvas de termos tão próprios, nem pensar. Quem sabe, na aposentadoria. E olhe lá.
Uma prova de que as regras da Heráldica não são assim tão incompreensíveis manifesta-se em dois casos, dentre muitos. Em primeiro lugar, não se sobrepõem metais a metais, nem esmaltes a esmaltes. Quando a sobreposição é necessária, diz-se que as cores são cosidas. Vê-se, portanto, que a prática não é proibida: no máximo, censurável, mas tolerada. Outro ponto é que qualquer objeto pode ser colocado nos campos do brasão: no do Visconde de Mauá, por exemplo, o célebre empreendedor brasileiro do Segundo Império, figuram um barco a vapor e uma locomotiva. E há dezenas de brasões nobiliárquicos daqueles tempos que trazem os objetos e personagens mais exóticos, que motivariam o riso de qualquer heraldista europeu. E até mesmo o nosso, leigo que somos no assunto. Como também nos de cidades, e de Estados, em todos os rincões do mundo. O brasão de Leme, até onde pude verificar, é irrepreensível. Mas há outros, da região, que beiram o bizarro. E quanto mais novo o município, mais esdrúxulos eles parecem ser. Mas não só os das cidades. As novas unidades da Federação seguem pelo mesmo caminho: seus escudos, verificamos num simples olhar, não são obras de peritos do assunto, mas composições de algum artista gráfico de agência de propaganda, a mesma que foi contratada para sugerir a “necessidade” da criação de um novo Estado ou município.
Voltando ao cânone da Heráldica, há certas práticas, entretanto, que são interditas. Uma delas é alguém mandar colocar algum símbolo, em seu brasão, que já pertença a uma outra família, cujos “direitos” de tal imagem ela detêm. Todavia, é o que mais tem sido feito. Basta alguém gostar de algum emblema que tenha visto nalgum brasão de casa real, e vem um “profissional” pintar águias, leões e unicórnios, “como manda o freguês”.
Confesso que nunca me interessei muito pela Heráldica. Talvez porque a maior parte dos especialistas da área parecia ser composta tão somente de solteirões idosos e excêntricos, geralmente de alguma antiga família arruinada: gente de muito passado e nenhum futuro, vivendo num presente medíocre, desencavando glórias e símbolos de uma época extinta, os quais talvez ainda lhes pertencesse por herança, mas não por mérito. Ela, a Heráldica, tem seu valor, é fato, assim como a Genealogia. Tanto que até me sinto inclinado a voltar a este assunto, para melhores esclarecimentos. Mas o motivo desta crônica é informar aos leitores, em geral, e alertar alguns outros mais interessados no assunto, que há centenas de supostos heraldistas oferecendo-se no mercado para confeccionar o “brasão de família” para quem quer que esteja disposto a pagar por ele: bastaria apenas fornecer o sobrenome e pagar pelo serviço. Assim, faz-se de um descendente de um camponês de Pádua um nobre Padovano, o de um carpinteiro bragantino, um membro da Casa de Bragança, e por aí vai. Veja-se o caso do meu conhecido. Quem quiser, que aceite o logro. Mas que não queira passá-lo aos outros. É feio e é ridículo; é ofensivo à Heráldica, à Genealogia e à História; é injusto à memória dos antepassados, em sua maioria gente honesta, os quais, sem direito à defesa, acabam sendo privados, usurpados, de seus verdadeiros nomes e origens, por um vão desejo de glórias, falseadas por seus herdeiros.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de abril de 2008].

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