Antes que o leitor se pergunte o que quero dizer com o presente título, devo explicar-me, já que ambos são de minha modesta autoria. Porém, acho necessário repassar dois conceitos. Moralismo, como todo mundo sabe, é o excesso de zelo quanto à moral, ignorando a própria realidade, e beirando as raias da irracional. Já Moralidade é o justo cumprimento da moral, á luz dos costumes de seu tempo e pautada pela racionalidade. Por exemplo: uma moça de biquíni, ainda que bem reduzido, tomando banho de sol na praia, é um grave problema para os moralistas, mas algo absolutamente comum do ponto de vista moral — desde que o biquíni também não seja microscópico, convenhamos. Já a mesma moça, com a mesma reduzida vestimenta do primeiro caso, usando-a no seu local de trabalho, digamos, um escritório contábil, tal já fere a moralidade. E para os moralistas, então, vocês podem imaginar... É verdade que, por vezes, ambas as correntes possam concordar entre si. Um noivo que queira se casar, ao pé do altar, de camiseta e bermuda, vai contra o moralismo e a moralidade. O mesmo noivo, ao fim da festa, à beira de uma piscina, que troque seu terno pela camiseta e a bermuda, juntamente com seus convidados mais próximos, incomoda tão somente aos moralistas, porque de acordo com a moralidade, não há nada de errado.
Por moralidade gastronômica, portanto, compreendo certos hábitos alimentares e também certos pratos que tenham os seus sentidos intrínsecos, que não seja exagerados ou absurdos. A pessoa que come uma lauta feijoada, com tudo o que tem direito, e após a sobremesa toma um café com adoçante, vai contra a moralidade gastronômica. Da mesma maneira quem mistura, no mesmo prato, nos “por quilos” da vida, sushi, torresmo, lasanha de ricota, feijão tropeiro, e um bife coberto de presunto e queijo. Francamente! Tudo que está ali pode ser muito bom, só que de maneira isolada. Mas, ao mesmo tempo, não resulta em nada que não numa tremenda confusão. Usando outro exemplo tomado de empréstimo da indumentária: uma pessoa pode ter uma linda gravata de seda importada; ótimos sapatos de finíssimo couro; o agasalho esportivo da marca mais cara; mas esta pessoa jamais poderá usá-los ao mesmo tempo, uns sobre os outros, não concordam? A mesma regra deveria valer para o “rodízio”, o “bufê”. E não vale. Vejamos outro caso de moralidade gastronômica.
Márcio Alemão, colunista da revista Carta Capital, que se orgulha de ser, como diz, um defensor da pizza e do camarão quanto a possíveis invencionices que estes possam vir a sofrer, move uma verdadeira cruzada, em suas linhas, contra a criação de pratos ou sabores de produtos completamente estapafúrdios. Segundo ele, tais “novidades” seriam invenções do Júnior, nome que dá aos presumíveis herdeiros de restaurantes ou fábricas de alimentos que viram as costas para as tradicionais fórmulas de sucesso e partem para o delírio, para uma má-viagem gastronômica. É o caso do fabricante de batatas fritas que , por exemplo, ao invés de fritá-las com um óleo melhor, menos danoso à saúde, mais enxutas, abre mão de tudo isto e lança uma linha de batatas “sabor bacon”, “ sabor peito de peru”, etc. Ou da fábrica de maionese que lança “a maionese sabor queijo”... Ora, quem quer bacon, que coma bacon, quem quer batata frita, batata frita, e assim por diante. Do contrário, onde vamos parar? No brigadeiro “sabor morango”? Na bolacha maisena “sabor chocolate”? Ou ainda, num caso, que já vi, o de uma horrenda pizza “aos cinco queijos”, sendo um deles, a própria massa: uma “bolacha” de provolone... Estão vendo que, moralidade, é bom senso?
É claro que não existe Júnior nenhum por trás de tais coisas. Tais regalos são fruto de pesquisas realizadas por grandes empresas junto ao público e que tiveram sua origem nos EUA, país que idolatra o conceito do “mais” (more) há décadas. Lá, e agora aqui, partindo de uma idéia, falsa, de “democracia do gosto”, as pessoas podem comer tudo o que quiserem, tudo deve sempre trazer algo mais (more) do que tradicionalmente traziam, que deve ser encontrado em toda parte. Alguém pode dizer que isto está absolutamente certo. Que as pessoas têm o direito de comerem o que bem entenderem, desde rato frito a feijão com leite condensado. Estão certas, é fato. Mas que não queiram que os outros digam que tais gororobas sejam boas. Nem as empresas devem abrir mão de pesquisas úteis — bons ingredientes, saudáveis e agradáveis ao paladar, em prol destas invencionices repletas de química de laboratório e de gosto duvidoso. Tais práticas, seriam, na verdade, uma verdadeira imoralidade gastronômica, da qual um dia trataremos com mais vagar.
Na outra ponta, há o moralismo gastronômico. Que concorda com as linhas acima, mais vai ainda mais longe, embora praticado por alguns poucos, na sua modalidade mais rígida. Na modalidade mais maleável, ou burra, na qual se situa a imensa maioria, encontramos, por exemplo, aqueles que, por comerem, há décadas, a insossa lasanha feita pela nonna, rejeitam toda e qualquer outra que não a que não for idêntica à da nonna. Da mesma categoria fazem parte aqueles que juram, de pés juntos, que nenhum hambúrguer se compara ao da carrocinha da esquina, e considera o x-tudo o supra-sumo da culinária mundial.
Já na mais rígida, ou exibicionista, cresce o número de seus adeptos vertiginosamente. São aqueles basbaques que só aceitam como presunto de Parma, o vindo daquela cidade italiana, os devotos da “designação de origem controlada”, um termo muito esperto cunhado pelo capitalismo mundial, que exalta a globalização mas que, por vezes, se ressente de seus efeitos, daí aceitam certa diversidade, que buscam controlar em suas mãos. Um tema que, aliás, vale uma crônica. Mas, voltando ao nosso caso, trata-se de gente para quem nada importa se há ótimos presuntos crus de outros locais. Como são puristas, qualquer variação cheira à blasfêmia. E aferram-se fanaticamente a determinados ingredientes, rituais na hora de servir, preciosismos que caberiam bem na corte de Luís XIV, mas que são completamente ridículos nos dias atuais e ofensivos frente aos milhões de famintos do mundo todo e às múltiplas possibilidades de combinações saborosas com novos elementos. Provincianismo, travestido de cosmopolitismo, é o que praticam estes novos “burgueses fidalgos”, sem a graça de um Molière para retratá-los — mas também porque não possuem graça alguma. E em seu moralismo, muitas vezes descambam, por sua vez, no outro lado do espectro da imoralidade gastronômica. Fica, aqui, algo a se refletir...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de abril de 2008].
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