Os chineses, durante séculos, foram conhecidos por sua sutileza, sofisticação e amor aos pormenores. Veja-se, por exemplo, a arte chinesa, sobretudo as chamadas “artes decorativas”, que encantam o mundo inteiro até hoje. Países como o Japão, e as Coréias, são em grande parte herdeiros da escrita, da caligrafia, da cerâmica e porcelana, da pintura e da literatura chinesas. Os processos de estamparia, notáveis naquelas nações, também vieram de lá, bem como o uso da seda, que passou para o Ocidente, ainda nos tempos do Império Romano, bem como os gostos pelas especiarias — pimentas e outros temperos exóticos, corantes, incensos, perfumes variados, etc.
Ainda hoje, sempre que compramos algum objeto de porcelana branca com elementos decorativos azuis, prestamos nossa admiração àquela cultura do Oriente, pois foi graças a ela que tal combinação de materiais — a porcelana branca — e a cor contrastante, a qual, aliás, ficou conhecida como azul-da-china — tornou-se um padrão universal de elegância. E a tal ponto que chegou a ser “pirateada” na Holanda, copiada em Portugal, imitada da Letônia ao Marrocos, da França à Áustria, do Sul da Alemanha à Inglaterra. E, de certa maneira, até mesmo em Monte Sião, Minas Gerais, Brasil.
E poderíamos continuar com os mais variados exemplos da influência chinesa no mundo tudo, da pólvora ao macarrão, dos primórdios da imprensa ao papel-moeda, da própria cunhagem monetária baseada em valores matemáticos e não no peso ou qualidade do metal, e por aí adiante. Sem falar na bússola — invenção cuja proveniência, aqueles poucos, hoje em dia, que leram “O Livro das Maravilhas”, de Marco Polo, já a conhecem há muito tempo. Por isso, não me alongarei mais. Quem quer que possua algum objeto de laca, figura de porcelana numa estante, vaso cor-de-vinho num canto da sala, sabe, ou, se não, que doravante saiba, que deve estes regalos aos chineses. Bem como o desenvolvimento do papel. Portanto, você, leitor, que segura as páginas deste jornal onde minha crônica está impressa, lembre-se que devemos às conquistas imemoriais da China, o papel, a imprensa e a opinião quanto aos dias que correm: a própria crônica, em suma.
Depois de louvarmos a sutileza dos chineses em determinadas áreas, e sua excepcional primazia em muitas invenções, é de bom tom comentar como esta mesma sutileza e sofisticação podem possuir o seu lado reverso. A expressão “tortura chinesa”, por exemplo, é amplamente conhecida, como algo extremamente sutil e altamente doloroso. Mas o mesmo poderia ser dito dos métodos praticados pela República de Veneza, igualmente sofisticada, senhora de uma diplomacia impecável, e crudelíssima, como todos os Estados já o foram, um dia.
Por outro lado, que certas nações, ou partes delas, comportem-se assim, nos dias atuais, ainda que seja um fato notório, tal circunstância só exacerba as suas ilegitimidades. Não é a prática do horror que justifica a paz e a ordem, mas, sim, a prática da Justiça, da Justiça de fato, para além dos códigos e das conveniências políticas da hora. Mas quantos países podem contar com isto, com uma verdadeira prática? Sabemos que, para muitos dos índios brasileiros, missionários católicos nas “fronteiras agrícolas”, sem-terras, semi-escravos andinos trabalhando em São Paulo, menores de idade submetidos a jornadas de trabalho desumanas, o aparato jurisdicional tem feito jus à velha expressão que diz que “ a Justiça é cega” e, completaria alguém, “insensível”. O mesmo se aplica à pirataria e à prostituição infantil, passíveis de serem observadas por qualquer pessoa, desde que as mesmas não se sintam cansadas em caminhar um pouco nas ruas de uma grande cidade.
Mas, para concluir, quero justificar o título desta crônica, não à luz dos temas variados acima dispostos, mas inspirando-me neles, e diante de uma realidade que nada tem de sofisticada ou sutil: é, antes, uma realidade torpe, isto sim, na qual vivemos, sem perceber. Um estado de coisas, de mal-funcionamento, descoberto pelos chineses, há muito tempo: não foi à toa que eles, antes de todos os povos, criaram o concurso público para o ingresso no Estado, a meritocracia e a estabilidade no cargo, para coibir os excessos que tão bem conhecemos.
Há uma antiga maldição chinesa lançada de pessoa para pessoa. Ela se resume nos seguintes termos: “que você viva tempos interessantes”. O célebre historiador inglês Eric Hobsbawn, aliás, serve-se de tal expressão, ou maldição, para nomear um livro seu, e justifica o empréstimo, dando razão à fórmula original: tempos interessantes são compostos de momentos conturbados, tragédias, mistérios, infortúnios e desgraças. Está aí mais uma contribuição da cultura chinesa: uma lição que nos permite entender nossos horrores, quer por sua variedade, quer por sua velocidade.
De fato, nós, brasileiros e, sobretudo, paulistas, temos vivido tempos “muito mais do que interessantes”. Assistimos a crimes mal-solucionados, ao desmanche do ensino público, ao superfaturamento de obras públicas que resulta em buracos, tragando gente, carros, moradias. E, agora, até mesmo um terremoto entrou para o rol das mazelas paulistas. Já disse, noutras ocasiões, da urucubaca que cerca um dos maiores próceres da política paulista. Portanto, frente à possibilidade de que tal insigne tribuno galgue — um poleiro por vez, mas com uma velocidade acintosa —outras posições de relevo, sobretudo nacionais, temos de nos precaver. Pois azar tem nome. E, no caso, nome e sobrenome — seu raio de atuação mostrou-se, mais uma vez, bastante claro. De modo que, para que não tenhamos que viver “dias interessantes”, o melhor é torcer, mais uma vez, pelo menos ruim, para que não tenhamos que enfrentar o péssimo: fujamos do franco-favorito de uma corrida de cavalos que é, na verdade, a súmula do azar e do desencanto, não só para aqueles que não apostaram num cavalo feio, mas, também, e principalmente, para o público em geral, mero espectador de uma corrida viciada.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de abril de 2008].
A vaca estradeira
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