O célebre escritor russo Feódor Dostoiévsky (1821-1881), naquele seu grande romance que foi Os Irmãos Karamazov (1880), criou uma magnífica parábola, ainda que duríssima. Num episódio conhecido como “O Grande Inquisidor” (na verdade, uma história contada em meio à trama), e ambientado no século XVI, o autor inventa um retorno do Cristo à Terra e de faz considerações de como Ele seria, em razão de sua vida e de seus ensinamentos, mais uma vez condenado à morte, tais os vícios, sede de poder e hipocrisia daqueles tempos. Mas Dostoiévsky usava aquele período como mero mote de sua crítica. Pois, na verdade, ele visava a sua época. E, desde então, muitos consideram sua interpretação de uma sagacidade espantosa e certamente verificável até os dias atuais. Não tenho dúvidas de que com a volta do Salvador, hoje, predicando, mais uma vez, a simplicidade e o desapego material, ao invés dos fariseus e potentados a pedirem sua cabeça, teríamos os publicitários e alguns grandes empresários com a mesma sanha assassina, querendo amordaçá-lo a qualquer custo, coisa que nem Pilatos nem o Sinédrio chegaram a tentar.
Um exemplo da mentalidade deturpada dos dias em que vivemos, e que a suposição de Dostoiévsky permanece ainda válida, pôde ser verificado, recentemente, na cidade italiana de Assis. Berço e sepultura de São Francisco (1181-1226), chamado ainda em vida de il poverello (“o pobrezinho’), eis que seu atual prefeito, Claudio Ricci (que pertence ao mesmo partido do premier italiano, o famigerado Silvio Berlusconi) proibiu a mendicância “a menos de 500 metros de igrejas, lugares de culto, monumentos, praças e edifícios públicos”. O motivo alegado pelo mandante da ordem seria a necessidade de garantir a segurança, resguardar os lugares de culto e “a decência”. E, por meio da mesma lei, o sindaco de Assis impede os visitantes da cidade de “tombarem ou sentarem no chão, perto de locais de culto, edifícios públicos e sob pórticos”, como fazem muitos turistas e fiéis.
Francisco de Assis, de todos os santos da Igreja, é, indiscutivelmente, um dos mais complexos, instigantes, perturbadores, adoráveis, fabulosos, e o que mais se queira dizer nos campos do fantástico e, ao mesmo tempo, do humano. Tudo indica que foi vaidoso e um tanto quanto farrista na juventude — ainda que menos que Santo Agostinho. Por outro lado, graças à Revelação, tornou-se um dos maiores exemplos de santidade da história cristã: quase que uma verdadeira unanimidade quanto ao que deve ser o comportamento de um santo. E qual era sua principal bandeira? Defender os pobres, os marginalizados, os leprosos (cúmulo da decadência moral, segundo a mentalidade de sua época, que os via como pecadores sem direito à salvação), revelar ao mundo que eram eles filhos do Senhor da mesma maneira que os príncipes, os burgueses, os sãos. Ao mesmo tempo, pregava ele a necessidade visceral de que a cristandade seguisse os desígnios e o exemplo de seu Pai: humildade, renúncia aos bens mundanos, contemplação do Sublime e caridade. Caridade! Não deu ele, ainda em sua juventude, todas as suas roupas a um pobre mendigo nu? E os trajes que seu pai vendia, aos mais necessitados? E, por conta disso, e por seguir, ele e seus irmãos, pelas estradas, só com seu hábitos e bordões, como Cristo e seus apóstolos o fizeram, porque de nada mais necessitavam que não a caridade, não chegou Francisco, o Patriarca Seráfico, até a receber as mesmas chagas do Salvador?
Se Francisco voltasse a Assis, hoje, não seria acolhido em triunfo, como o fora às vésperas de sua morte. Com seu hábito remendado, com sua aparência desnutrida, com seu amor pela terra e pela natureza que o fazia deitar-se no chão, como se buscasse abraçar o solo, uma síntese da criação divina, e ainda antes que pedisse um pedaço de pão para um seu irmão mais cansado, ou um gole d’água para outro que o acompanhasse, seria ele impedido, banido, interditado de chegar até a basílica — principal fonte de recursos da cidade, em razão do turismo — que sobre seu corpo foi erguida, que graças ao seu nome é conhecida no mundo todo.
“Mendigar não é um delito. Ainda que algumas pessoas se aproveitem, ajudar as pessoas é sempre uma coisa boa”, defende o presidente do Conselho Pontifical Justiça e Paz, Renato Martino, crítico da medida do prefeito de Assis. E todas as grandes religiões monoteístas lhe fazem coro. Pedir — por necessidade, ou mesmo por malícia, e aí a culpa é de quem age assim — e dar esmolas — mesmo que por vaidade de se dizer que elas são dadas, por caridade ou por ignorância quanto ao seus fins — são práticas humanas que envolvem a honra e a piedade. De Buda a Moisés, de Cristo a Maomé, de Lutero a Calvino, todos concordam com sua necessidade, ante aos nossos olhos e ante aos olhos do Senhor, seja Ele qual for. E acho preferível seguir as idéias destes guias religiosas, visto que estamos diante de um raro momento de acordo entre eles, do que a de algum burocrata ou líder de seita exótica. Mas quem sou eu, afinal, para defender tais idéias? Se o próprio São Francisco, hoje, seria impedido de entrar em sua cidade para pregar, com muito mais talento, e verdade, as mesmas coisas?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de maio de 2008].
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