quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Que semana!

Creio já ter contado aos leitores que envio minhas crônicas para A Notícia às quintas-feiras. Portanto, a minha semana, diferentemente da dos demais, não se inicia nas segundas-feiras, nem se encerra aos domingos: submete-se a uma curiosa datação, compreendida entre quintas-feiras. O que, aliás, é muito bom, às vezes, porque os fatos do mundo não se prendem às vontades do calendário oficial. Aliás, muito antes pelo contrário, como diria um bom mineiro: os acontecimentos não se prendem a qualquer cronologia estipulada de antemão, como o sabe qualquer historiador e como o reconhece o senso comum. Por tal motivo, se fala num “breve século vinte”, e por aí afora. Mas a verdade é que, para um cronista, a última semana foi de tal forma repleta de acontecimentos, que chega a tirar o fôlego de qualquer um.
Da Ásia, por exemplo, vieram graves notícias, mas, também, outras esperançosas. Comecemos pelo pior, caso a caso. Na China, uma epidemia de causa desconhecida matou, segundo fontes oficiais, duas dezenas de crianças, contaminando algumas outras milhares. Como naquele país tudo é superlativo, dada a sua população, e como ele está sujeito a uma férrea ditadura, não é de se duvidar que, para além de uma vintena de meninas e meninos mortos, possam existir, na verdade, milhares, e contar-se em dezenas de milhares os infectados. Por outro lado, soubemos que aquela sociedade não é o “bloco monolítico” que se diz, já que pudemos ver muitos chineses defendendo o Tibete (e, claro, apanhando barbaramente por conta disso). E, ao mesmo tempo, graças a tal episódio, precedido de outros, em todas as partes do mundo, eis que se pôde verificar, pela primeira vez na história dos jogos olímpicos modernos, que os povos de inúmeros locais do globo ao invés de aceitarem passivamente a propaganda das Olimpíadas, aproveitaram-se dela para expor suas idéias, gritarem suas reivindicações e, de uma maneira madura, souberam revelar a política que existe por trás da hipócrita pax olimpica.
Do mesmo continente, assistimos, estarrecidos, ao ciclone que varreu a antiga Birmânia, atual Mianmar. E ouvimos, ao mesmo tempo, uma ótima resposta vinda da França, quanto à ajuda que prestaria diante daquele flagelo: mandarão mais voluntários para o socorro do que dinheiro, já que a nação francesa duvida, com toda razão, dos ditadores que dominam aquele país. Perfeito. Raras vezes se vê uma ditadura “enquadrada” – termo caro a elas – com tanta justiça e ocasião. E por falar em descaminho de dinheiro, há até um presidente africano propondo a extinção da FAO, a agência de alimentação da ONU. Mas não porque seu país não precise dos serviços de tal entidade, e sim porque ela gasta, segundo aquele chefe-de-estado, mais com sua manutenção institucional do que com projetos sociais. E por fomentar, com seus recursos, um círculo vicioso e danoso à África, sustentado pelos corruptos que desestimulam a produção de alimentos para cevarem-se dos auxílios mundiais. Relação perversa já identificada por muitos intelectuais africanos sérios.
Pulando para a Europa, eis que soubemos dos pormenores – pavorosos, todos eles – relativos àquele crime monstruoso perpetrado por um austríaco contra sua filha durante vinte e quatro anos. E dos descalabros impostos aos seus filhos/netos (a aberração de tal circunstância, ainda não tem, felizmente, em idioma algum, termo próprio capaz de nomeá-la). Episódio que, por sua crueldade, nos remete ao brutal assassinato de uma menina brasileira que agora começa a se encaminhar para seu desfecho legal, jurídico, depois de ter se tornado um exemplo cabal do quanto a imprensa nacional é sensacionalista, vindicativa, desonesta e ávida por sangue: um “teatro de horrores” (grand guignol, como o chamam os franceses), transcrito num papel que, se espremido, verteria sangue.
Os assuntos da semana passada foram inúmeros. Caberia mencionar, ainda, o plebiscito boliviano, o ciclone que arrasou o Rio Grande do Sul – situação que, segundo os especialistas, pode se repetir em qualquer área litorânea do país e que, pelo que sabemos, poderá ser muito mais devastador noutras regiões, a começar pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sazonalmente incapazes de acudir o povo de suas orlas depois de reles temporais, previstos em razão de suas próprias condições geográficas, políticas e sociais e que, no entanto, ano após ano, parecem pegar as autoridades de calças curtas. Por que será?
Mas depois de tantas tragédias, estranhezas, bizarrices, nada melhor do que rir um pouco, ainda que o tema seja grotesco. Pois não é que um ex-ídolo da juventude caiu de quatro nesta semana? Aliás, nunca soube como ele se tornou um ídolo, porque suas palavras e práticas, para além das desportivas, e olhe lá, nunca comunicaram nenhum valor ou gesto realmente digno de tal idolatria. Mas, voltando ao tema, de que piada mais grossa tal atleta foi capaz de ser autor! Andam dizendo por aí, aliás, que ele deixará de ser chamado “Fenômeno” e, doravante, será conhecido pelo apelido de “Estrogênio”: tal a sua capacidade de atrair a atenção masculina...
Que semana!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de maio de 2008].

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