quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Angústia do saber

Antes de iniciar esta crônica, tinha eu em mente tratar de um outro assunto. Entretanto, como, para abordar o tema previamente escolhido, necessitava de algumas referências então indisponíveis – estava em viagem, longe, portanto, de meus livros, e sujeitado a um escasso acesso a alguma rede de computadores –, eis que acabei por declinar da questão que inicialmente me interessara. Não pense os leitores, por outro lado, que o texto que ora lêem seja uma segunda escolha improvisada, um resultado da marota aplicação dos princípios dos ditados que dizem “não tem tu, vai tu mesmo”, ou “quem não tem cão, caça com gato”. Ele é, sim, um produto de uma consideração feita por mim durante a própria feitura da outra crônica, que ainda não houve, e que prometo para breve. Mas, em suma, o que quero dizer é o seguinte, a partir de minhas próprias dúvidas quando do desenvolver daquele motivo postergado: será que não somos excessivamente dependentes de certas informações, será que não estamos sofrendo de uma abusiva, e inata, angústia por um saber descontrolado? Sim, descontrolado, pois a busca pelo saber “desmedido” pertence à outra esfera de coisas, cujas origens poderiam ser situadas na transgressão de Adão e Eva, nos excessos de Fausto; e que, por outro lado, também permitiram as especulações da Teologia e a própria razão das pesquisas científicas. Concluindo: será que não estamos perdendo a medida das coisas, na ânsia de adquirir informações em demasia?
Pois vejamos: qual a necessidade que temos de saber, em nossa vida prática, de um terremoto na China, da previsão do clima de Los Angeles no próximo fim-de-semana, ou dos meandros jurídicos pelos quais navegam os advogados e promotores deste verdadeiro espetáculo que se tornou a morte de uma criança? Terremotos não se dão em toda parte? No quê as chuvas de, digamos, Singapura, influem no nosso quotidiano? E por quê um pobre órfão, morto por imperícia ou desleixo, sob os “cuidados” do poder municipal de uma cidade mineira, merece menos destaque do que um outro caso abraçado pela imprensa? São perguntas que podemos nos fazer. Como, igualmente, o porquê de precisarmos de tais informações.
No século XVI, muitas pessoas ligadas à leitura e ao conhecimento tinham suas dúvidas quanto às benesses da impressão dos livros. Argumentavam que, graças à fácil reprodutibilidade dos volumes, e do alargamento do público, logo o mundo todo se veria inundado não por livros de Filosofia ou Teologia, e, sim, de vulgares descrições de aparecimentos de monstros, manifestações de idéias bizarras ou toda a sorte de estranhezas que alguém quisesse pôr no papel. Vário deles se lamentaram, aliás, pelo fato de que, naqueles tempos, publicavam-se “mais livros do que melhores livros”. Entretanto, angustiavam-se por não possuí-los, ainda que os difamassem em público.
Esta mesma tônica perdurou até fins do século XVII e início do XVIII, época máxima de sua ebulição, numa polêmica que ficou conhecida como a “Querela dos Modernos”, nascida na Academia de Ciências da França e que dispôs em lados opostos os defensores dos autores antigos como a máxima e superior referência e os que pleiteavam, noutro campo, o acatamento das novas descobertas, dos novos métodos de pesquisa. Tal guerra concluiu-se por meio de uma espécie de armistício: ninguém refutou completamente suas opiniões –, os defensores dos “antigos” passaram a ler também os “modernos”, da mesma maneira que os advogados desta causa continuaram a consultarem os textos clássicos. Podemos dizer que os últimos venceram. Uma prova disto é facilmente verificada, por exemplo, quando vamos ao dentista: no caso de uma extração de um dente, hoje, somos anestesiados. Caso os defensores dos “antigos” houvessem triunfado, levaríamos um bofetão no rosto e padeceríamos de todas as dores possíveis, “boas para se afugentar a moléstia”, como eles diriam.
Nos dias atuais vejo, por exemplo, o inequívoco olhar de angústia que muitas pessoas revelam frente às estantes de uma grande livraria, manifestando seu desejo de tudo possuir, de tudo querer abarcar. Confesso que eu mesmo, certas vezes, padeço do mesmo mal, sobretudo nos últimos tempos, quando tantos títulos, sobre os mais diversos assuntos, finalmente vêm à luz. Sinto, também, por vezes, tal sentimento de incapacidade, exacerbada por uma sensação de cobrança, diante de algumas pesquisas que faço pela Internet: são tantos sítios, tantos textos jamais traduzidos ou inencontráveis ali dispostos, que quase chego a cair prostrado e consternado frente ao computador. E fico imaginando, ainda, o que devem sofrer as pessoas que, para além de seus interesses profissionais – que requerem uma atualização constante – se preocupam com o saldo de gols de seu time em relação aos seus oponentes, ou o estado do joelho de um jogador contundido, ou ainda da gravidez da modelo Fulana de Tal, “aquela, que faz uma novela”.Certamente trata-se de uma espécie de inferno, no qual cada um, segundo seu gosto, inscreve-se no círculo que lhe convier. Um inferno cujos fogos, vez ou outra, eu mesmo vislumbro, com outras lentes, é fato, mas que não me impedem, de maneira alguma, de sentir seu calor.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de maio de 2008].

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