quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um embate que nada tem de celestial

Comentei, há pouco tempo, aquele triste episódio ocorrido em Assis, Itália, em que um prefeito amalucado e insensível quis banir a mendicância das proximidades das relíquias de São Francisco de Assis, o pobrezinho, e mendicante ele próprio. Mas é claro que tais distorções, se ocorrem na douta Europa, também se repetem, em menor escala, na inculta América. Ainda mais na nossa. Pois vejamos o que ocorreu, esta semana, no Rio de Janeiro.
Ali, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça decidiu pela penhora da igreja de Nossa Senhora do Rosário, pertencente à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, em razão de supostas dívidas desta confraria religiosa, cobradas por uma empreiteira. A origem da contenda seria um acordo descumprido pelos irmãos do Rosário com a tal construtora — Hórus é o seu nome, o mesmo do caolho deus egípcio do céu. Pois, segundo a empresa, responsável pela construção de um cemitério a ser explorado pela Irmandade, de acordo com o estabelecido há décadas, teria exclusividade na venda de lotes, o que, no entanto, foi descumprido pelos congregados.
É claro que os irmãos do Rosário reagiram de pronto. Seu procurador não só se prontificou a pagar a dívida, como na mesma moeda: vendendo parte dos lotes que ainda lhes pertencia no dito cemitério. Aliás, até sem muito questionar a curiosíssima atualização da dívida: avaliada em cerca de R$ 650.000, 00 em 2005, foi o valor corrigido neste meio tempo de maneira a perfazer, hoje, o montante de R$ 10.500.000,00 (é isto mesmo, leitor, dez milhões e meio), isto, em meros três anos. Entretanto, o que o dito procurador não aceita, e com razão, é a penhora da igreja. Pois, segundo ele, o próprio imóvel é tombado, o que o torna impenhorável.
E argumentos não lhe faltam. A igreja foi construída entre 1701 e 1737. Foi Catedral do Rio de Janeiro daquele ano até 1808. Foi ali, inclusive, que o então príncipe regente D. João oficialmente agradeceu, em preces, o sucesso da viagem ao Brasil, há duzentos anos, episódio tão celebrado justamente neste ano! É ou não é um contra-senso, para não dizer uma tremenda grosseria? Ou cegueira?
A igreja foi em grande parte reformada nos anos 1860, e um pavoroso incêndio destruiu seu interior, em 1967, privando-a de toda decoração em talha, pinturas, etc. Mas seu aspecto ainda é o de um belo templo com elementos barrocos e neoclássicos, além de possuir uma valiosíssima portada de pedra, no estilo maneirista (anterior ao barroco), uma das poucas que ainda restam no Brasil.
Mas a Justiça, que é cega, não viu nada disso, está claro. Aliás, nem deve ter lido muito bem os argumentos dos confrades do Rosário, pois quando eles alegam ser “impossível a penhora em razão do templo ser um patrimônio histórico”, respondeu um dos juízes que “a natureza religiosa do bem não impede a penhora”. Alto lá, Meritíssimo! Estão falando de um monumento, e não de uma simples casa de oração erguida ontem, de um galpão ou cinema improvisado em templo, estes, sim, passíveis de serem avaliados pelo mercado e convertidos em dinheiro. Uma igreja, um forte, ou até uma tapera, de 270 anos, não têm preço!
Aliás, é interessante pensar o que a empreiteira faria com a Igreja do Rosário... Será que a converteria numa casa de espetáculos? Num salão de festas? No “Espaço Cultural Hórus”? Ou será que a poria abaixo e venderia o terreno limpo, ou construiria um mega-empreendimento ali? Por que, afinal, que valor ela teria como negócio? Quem, afinal, compraria uma igreja?
Nesta batalha que nada tem de celestial entre Hórus e os irmãos devotos da Rainha dos Céus, não parece um absurdo que o único árbitro use uma venda? Não seria necessário que outros, com diversas visões, também participassem? Mas, como dissemos, os absurdos estão em toda parte, em Assis, no Rio de Janeiro, aqui e ali...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de maio de 2008].

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