quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Outros bichos

Não faz muito tempo tratei, neste espaço, da invasão de certos animais selvagens, ou quase, no meio urbano. Hoje gostaria de comentar algumas coisas que ouvi, recentemente, quanto aos animais ditos domésticos.
Declaro, de antemão, que nunca fui um aficcionado por animais de estimação. Gosto deles, preocupo-me com o bem-estar deles, mas faço minhas as palavras de uma jornalista americana, que dizia que seu animal predileto era o bife. Não só o bife, acrescentaria, mas, também, o pernil de carneiro, o camarão empanado, os mariscos ao vinagrete e a costela – assada – de boi. Exagero, é claro. No fundo sou um vegetariano em potencial. Sei dos horrores que os bichos passam até chegarem às nossas mesas. Mas enquanto eu usar sapatos, cintos e carteiras de couro, dormir em travesseiros de penas ou plumas, acho que não há nada demais quanto a comer outros pedaços dos bichinhos. Aliás, seria até um ato hipócrita usar certas partes dos mesmos e rejeitar as outras, como fazem tantos “defensores dos animais”, que enjeitam uma costelinha, mas não se negam a espalhar pelo corpo todo tipo de “produtos de beleza”, ou perfumes, obtidos à custa de toda sorte de bichos. Tenho até certas simpatias pelos veganos (vegetarianos radicais) que põem em prática o modelo de coerência que acima sustento. Há alguns que até morrem por ele: mesmo doentes, permanecem se tratando com mesinhas, chás, fitoterápicos e que tais – quem não tem cão caça com gato. Mas a maioria, na hora em que a vaca vai para o brejo, não quer nem saber se seus remédios foram testados em chimpanzés, porcos ou porquinhos-da-índia. Prevalece o Homem. Se, como dizem os clássicos, “o homem é o lobo do homem” (homo hominis lupus), na hora da onça beber água, que se lasquem seus confrades de quatro patas...
Voltando à vaca fria, ou seja, aos amimais de estimação, nosso tema primeiro, ouvi, nestes meses de campanha política, as propostas mais curiosas (algumas, aparentemente impossíveis, outras, totalmente) de toda a sorte de candidatos, sobretudo a vereador, em pelo menos três estados. Vários pregavam a castração sistemática de todos os cachorros e gatos vadios. Como seriam identificados os animais de rua frente aos que, com donos, casa, domicílio próprio e que saíram apenas para “dar uma voltinha”, foi uma questão que ficou em aberto. Tal medida, apesar de complexa, tem minha simpatia, por motivos que, em breve, exporei. Outros, extrapolando seus poderes, pregavam o fim da criação indiscriminada, para a venda ou “doação” de cães e gatos. Assim, os mesmos só poderiam ser criados por estabelecimentos credenciados para tal (como se faz com os criadores de espécies da natureza, como tucanos, certos passarinhos, etc): apenas estes poderiam vendê-los e os bichos já viriam castrados. A idéia, apesar de parecer um tanto drástica e de estar além da esfera dos vereadores, no fundo seria boa. Quem já viu aqueles tristes animais em gaiolas de petshops, feiras, mercados e postos de gasolina, morrendo de sede, solidão e calor, quem já viu aquelas tristes cadelas perseguidas por matilhas em plena rua, ou dando cria em praça pública, quem já viu tantas ninhadas de gatos lançadas nas águas de um rio ou pisoteadas por crianças não hão de discordar de tais medidas. Seria um basta contra aqueles que querem cruzar o cachorro da vizinha com a cadela da vizinha – para ver no que é que dá – sem pensarem no transtorno de que as fêmeas e sua cria padecerão. Como, também, um fim àquela mania besta de dar um filhote a uma criança, que vai se divertir um pouco com ele, enquanto este não cresce, e que, mais tarde, enjoada do “brinquedo” barato, trata-o como uma velharia: isto quando os “diligentes pais” não acabam por soltar os mimos de outrora no meio do mato.
Conheço muita gente direita que defende tais idéias polêmicas, e que, na minha opinião, são muito razoáveis. Mas, é claro, os que possuem cães ferozes são contrários a isto. Estes donos de feras acreditam que a castração tornaria seus “guardiões” mais dóceis. Pois que eles se tornem! A proteção do patrimônio nunca pode estar acima da proteção do indivíduo, qualquer indivíduo. Os pais e mães de tantas crianças mortas e mutiladas por pitbulls e congêneres que o digam. E façamos coro a elas!
Porém, antes que me acusem de ser um Herodes dos gatos de rua, cães vadios ou de raças bestiais, penso que a colocação é cabível e acertada. Pensem bem. Quem já não está farto de ver animais atropelados, mutilados, sacrificados inutilmente, ou sacrificando outras pessoas sem motivo algum? E tudo por um mero capricho de alguns? Ora, se há tanta ênfase no planejamento familiar do bicho-homem (racional e senhor de seus direitos) por que o mesmo não pode haver para o bicho-bicho?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de outubro de 2008].

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