Poucas pessoas se recordam hoje em dia, mas, há onze anos, foi promulgada a emenda da reeleição, favorecendo, naquela época, o presidente de turno, assim como governadores e prefeitos. Foi um escândalo, então, e não só por se suspeitar que alguns deputados federais foram comprados para votarem naquela novidade legal. Diziam, uns, que tal medida fora criada para manter Lula mais quatro anos longe do poder. Diziam outros que, independentemente de quem estivesse no cargo, em qualquer cargo, a criação de tal direito traria consigo graves riscos à democracia. Pensava-se no perigo de criarmos, entre nós, algo como um Porfírio Díaz, Presidente do México que ocupou o poder de 1884 a 1911, reelegendo-se sucessivamente. Ou um Stroessner, Presidente do Paraguai de 1954 a 1989, a custas de reeleições fraudulentas. Curiosamente, ninguém lembrou da possibilidade de que surgisse por aqui um Franklin Delano Roosevelt, eleito presidente dos EUA, em quatro mandatos sucessivos, a partir de 1933. Os motivos de tal esquecimento, ainda que rasos, nos parecem, entretanto, e ainda hoje, bastante óbvios...
Confesso que sou favorável à reeleição desde aquele tempo – o da promulgação da Emenda, não o de Díaz, Stroessner ou Roosevelt, bem entendido. E não porque nutrisse uma grande simpatia pelo ex-presidente FHC – que, como pessoa, é extremamente afável, mas cujo legado político e econômico não foi à toa chamado de “herança maldita”: basta lermos os jornais de hoje, inclusive. Acredito na reeleição porque em quatro anos de governo não é possível fazer absolutamente nada ou garantir o estabelecimento de coisa alguma. Pois, vejamos. Qualquer governo perde quase um ano para conhecer o verdadeiro funcionamento da casa: onde estão as goteiras, os vazamentos, as infiltrações, os danos estruturais. O segundo ano é quase perdido tentando persuadir as Câmaras ou Assembléias para que estas aprovem as políticas do Executivo: como um marido tentando convencer a sua mulher de que a casa precisa ser reformada, não raro se valendo, nesta sedução, de presenteá-la com certos mimos, ou ceder a alguns de seus caprichos. É a fase dos consertos pontuais, de troca de parte da mobília, quando se compram alguns enfeites, anunciando o que virá depois. Entra o terceiro ano e, finalmente, as obras têm início. Quebra-se aqui, ergue-se ali, constrói-se um anexo, arruma-se o jardim: e a casa vai tomando outros ares. Mas – ai! – nem bem os moradores e as visitas se acostumam com a casa nova, eis que novos inquilinos vêm ocupá-la! E o ciclo recomeça, e o desperdício de dinheiro não tem fim...
Lembremos de alguns bons exemplos, de um passado recente, que comprovam tal condição. Franco Montoro foi um notável governador. Fez coisas excelentes por nosso Estado e para o nosso Estado. Mas, em seu tempo, não havia reeleição. Seguiu-lhe o Quércia. E o Fleury. Acho que podemos abrir mãos de outros comentários... Outro caso: Luiza Erundina, uma formidável administradora que reformulou a capital em tão grande medida que atraiu a ira de seus rivais e a inveja de seus aliados, a ponto deles inviabilizarem a conclusão de suas reformas. Mas como foi feliz a capital durante o seu governo! Sem a reeleição, veio Maluf e seu rolo-compressor. E Pitta. Aqui, também, não cabem mais comentários: os nomes citados falam por si próprios...Entretanto, veio, em seguida a eles, Marta Suplicy, uma senhorinha arrogante e ranheta, mas, como disse uma amiga, fazendo coro ao pensamento de muitos paulistanos, “uma boa dona de casa”. Em sua pressa em fazer uma faxina, redecorar a sala, aplainar o terreno, e arrumar o quintal, cometeu alguns excessos. Alardeou demais a limpeza, e, na sua fúria por resultados, deixou de varrer alguns cantos. Mas que não se negue a saudade que os paulistanos sentem dela, como comprovam suas intenções de voto. Marta não foi reeleita, é verdade: por outro lado, está sendo, agora, praticamente aclamada. Sem falar em Lula: ele pode não ser o Presidente dos nossos sonhos, mas está muito longe de ser o dos nossos pesadelos. Bonachão, inculto e boquirroto, tem feito mais por nosso país do que muitos austeros doutores, que desfiam sua erudição em frases agradáveis e polidas.
A reeleição também traz problemas. Nosso Estado, sob as asas agourentas de um pássaro de mau-feitio, bem sabe do que estou falando. Assim como nossa Saúde, Educação, Segurança, Moradia, Estradas, e o que mais se queira pronunciar quanto ao assunto, quanto à gestão pública. Parafraseando Juscelino, o Estado de São Paulo não fez, na última década, “cinqüenta anos em cinco”, mas, sim ,“cento e vinte anos em doze”: só que para trás. E outros casos similares não faltam. Há uma visão do Estado brasileiro, um projeto político, que se diz criado “para o século XXI”, mas cujos resultados são os mesmos, e piores, do que se fazia no século XIX. Porém, acredito, a exceção não deve ser tomada pela norma, ou posta acima dela.
Há bons homens – independentemente de seus partidos – e bons partidos – malgrado certos homens que os compõem. Assim, sugiro aos leitores, e eleitores: pensem bem na hora do voto. Muitas vezes, continuidade não é vício. Por outro lado, oposição não é, necessariamente, revanche ou revolução. Todos têm seu espaço. E suas propostas. Devemos pesá-las, medi-las, avaliá-las. Todavia, creio, fosse eu um náufrago das disputas políticas, marinheiro tragado por águas revoltas, nadaria rumo ao continente, à terra firme. Nunca em direção a uma ilha, ou ilhas, ainda que paradisíacas, mas plantadas em pleno Oceano. É minha impressão pessoal, reitero. Que cada um aja de acordo com sua consciência, pague o preço de suas escolhas e cobre, quem é de direito, por não cumprir suas promessas.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de outubro de 2008].
A vaca estradeira
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