quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Bom ladrão e os maus pais

Vem do Sul uma notícia, no mínimo, insólita, por um lado, e que, por outro, vem se tornando mais comum. Um ladrão furtou um automóvel e, após algum tempo, descobriu que, no banco de trás, dormia uma criança, ali deixada pela mãe e pelo padrasto que estavam num bar, nas vizinhanças. O criminoso, indignado com aquele flagrante abandono, telefonou à polícia, informando-a do fato e quanto ao lugar onde deixara o veículo, com a criança. E deixou um recado ao pai da criança: se ele encontrasse, de novo, a criança sozinha dentro do carro, mataria o responsável.
O curioso, no episódio, é encontrar um ladrão de bom coração, e brios, a ponto de abandonar o fruto de seu trabalho por um motivo humanitário. Não duvido que outros do mesmo tipo existam. Criminosos não são, necessariamente, feras. Muitos, inclusive, são reputados como ótimos pais de família. Lembro, aliás, de um caso, ocorrido com um amigo meu. Tendo sido ele assaltado, o larápio tomou-lhe todo o dinheiro, menos o que seria necessário para que o meu confrade pudesse voltar para a casa: o valor de um passe de ônibus. Há dessas coisas. Raras, raríssimas, e que, no entanto, existem.
Mais comuns, o que é uma pena, têm sido estes esquecimentos de crianças. Nos EUA eles repetem-se amiúde e, freqüentemente, com trágicas repercussões, sobretudo no inverno. As crianças morrem congeladas. Por aqui, isto, evidentemente, é difícil de ocorrer, senão impossível. Mas contam-se histórias de meninos e meninas que sofreram severas queimaduras, e graves desidratações pelo mesmo motivo, largadas em automóveis sob o nosso sol tropical. Por enquanto, todavia, a maioria dos casos verificados não costumam provocar nenhuma pesada conseqüência de ordem física. Tudo, por ora, tem se limitado à simples indecência do ato. Mas o que incomoda, o que revolta, é que eles parecem aumentar em recorrência a cada dia.
Em janeiro deste ano, um menino de dois anos morreu asfixiado, num veículo, esquecido pelo pai, em Porto Alegre. Dois anos antes o mesmo ocorrera em São Paulo, desta vez com um bebê de um ano e três meses. Em junho de 2008, uma menina de cinco anos foi deixada dentro de um carro no Distrito Federal, por volta das 15h30, e a mãe só apareceu para buscar a criança às 22h, quando esta já havia sido encontrada por uma pessoa e levada para a delegacia da cidade. No mesmo mês, em São Paulo, outra mãe foi a um bar – caçando o marido – e deixou o filho no banco de trás de seu automóvel, este aberto e com a chave no contato.
Em 2007, em Brasília, outra mãe deixou um filho de dois anos no interior de um veículo, porque o menino dormia. A criança foi resgatada, aos prantos, por um segurança do estacionamento do shopping onde a mãe, tranqüilamente, fazia um lanche. Indagada quanto ao seu procedimento, respondeu que se esquecera da criança... No mesmo ano, no Mato Grosso do Sul, outra mãe foi a um baile e deixou o filho trancado em seu carro.
Que o leitor faça uma pesquisa pela Internet, caso duvide do que exponho. A repetição de casos como estes é inacreditável, freqüente e estarrecedora. E todos eles têm pelo menos um traço em comum: estes pais desmemoriados são sempre muito jovens, e as mães, da mesma idade, não raro criam os filhos sozinhos, ou estão já num segundo casamento, oficial ou não.
A Psicologia e a Psicanálise têm uma resposta para tal comportamento. Seria um desejo, sublimado, de se livrar dos filhos e resgatar a própria juventude e independência. De minha parte, avento mais duas possibilidades. Neste horrendo mundo consumista em que vivemos, ter filhos, hoje em dia, para muitas pessoas, parece atender menos a um senso de paternidade, e mais a algo relacionado ao sentido de posse. Gera-se uma prole como se compra um carro, uma casa, um relógio caro, ou qualquer outra bobagem de grife. Filhos, bizarramente, vêm se convertendo em índice de prosperidade, sucesso, status, etc. Se a máxima do momento é “você quer, você pode”, por que não também com crianças? Aliás, não são uns brinquedos tão bonitinhos? O problema é quando se cansa de brincar, ou quando o produto dá defeito, como no caso, tristíssimo, daquela menina atirada de uma janela pelo pai, em São Paulo, um dos casos mais bizarros e umas das páginas mais infames da história da imprensa, jamais registrados neste país.
Portanto, vai aqui um conselho e uma advertência: moços e moças contenham seus hormônios e vontades. O corpo, próprio ou alheio, não é um parque de diversões, nem filhos são prêmios da barraca de tiro ao alvo. Prudência e responsabilidade não fazem mal a ninguém, pelo contrário. E o mandamento “crescei-vos e multiplicai-vos” não precisa ser levado ao pé-da-letra. Como dizia um velho padre marianense, “é melhor fazer três conversões do que seis moleques sem pai ou meios de serem sustentados”. Já que não é sempre que aparece um bom ladrão para zelar por eles...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2008].

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