quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].

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