quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eco no Cemitério

Umberto Eco é um estudioso de alta relevância, cujos escritos teóricos, e mesmo de divulgação, muito admiro. Suas considerações sobre o processo indutivo de Peirce, que ela adapta como abdutivo, tomadas como referências, ajudaram muito no campo metodológico de minha dissertação de mestrado – hoje, entretanto, encaminho-me um pouco mais para Schelling (e sua noção de fragmentos) e Vitor Serrão (e sua cripto-história da arte). Mas os ensaios e artigos do erudito italiano, além de impecavelmente escritos, por vezes beiram o hilário em sua ironia, e a sua atualidade é flagrante (ainda que vários deles remontem ainda aos distantes anos 1980), sobretudo frente aos brasileiros deslumbrados com as novas tecnologias, novos hábitos de consumo, etc.
Quanto aos seus romances, já não me entusiasmam muito. O Nome da Rosa, aparentemente o mais difícil, é o que se revela mais límpido e mais bem entretecido, permanecendo ainda como o meu favorito. O Pêndulo de Foucault parece-me demasiado palavroso. É fantástico demais A Ilha do dia anterior, ainda que divertidíssimo para quem aprecie o Barroco. Tenho postergado a leitura de Baudolino, e confesso que A Misteriosa chama da rainha Loana deixei pela metade. O último e recém lançado, O Cemitério de Praga, entretanto, é mais envolvente que o anterior, mas meio frouxo. Parte da tentativa da reconstrução da memória de um narrador em primeira pessoa e vale-se de alguns princípios clássicos, como a possibilidade de um duplo do protagonista para o efeito cômico, e o início in media res. Mas o ritmo folhetinesco, vertiginoso, pretendido pelo autor, não é atingido. E a psicologia do narrador-protagonista (ou semi-narrador, ou ainda narrador intruso, pois há outro e nunca é muito claro como este teve acesso aos eventos, já que o primeiro, em seu diário, não os registra) é muito mal formulada. Seu anti-semitismo é patente, seu horror ao convívio humano – masculino ou feminino (misantropia e misoginia) – são até redundantes, assim como sua idolatria à boa mesa, brindando-nos o narrador, em cada capítulo, com diversas receitas ou descrições de pratos da culinária francesa e italiana – o que, cá entre nós, lembra por demais certas “encheções de lingüiça” das antigas telenovelas de Aguinaldo Silva. Mas, salvo se o protagonista seja um verdadeiro psicopata, não há nada que justifique um falsário, dúbio e covarde, chegar à violência de rasgar o ventre, com uma faca, de um antagonista meramente eventual, numa “limpeza de arquivo”. Literatura criminológica nenhuma do mundo diria ser isto possível, muito menos por volta de 1860, época em que se passa boa parte da trama, encerrada em 1897.
Assim, pois, o tema principal são as aventuras e desventuras de um falsificador de documentos, um autêntico forjicador. Trata-se de um indivíduo que inicia sua carreira fabricando testamentos em nome de pessoas que nunca os fizeram, e evolui a um tal ponto que acaba por se tornar o verdadeiro autor – curioso o emprego desta expressão, no caso – dos infamemente célebres Protocolos dos Sábios do Sião. Para quem não se lembra deles – tratamos rapidamente do assunto em crônica de 26 de março deste ano – tais documentos seriam uma espécie de ata de reunião dos (supostos) líderes judeus de diversas partes do mundo na qual explicitariam seus planos de dominação global. Uma bobagem já desmascarada, mas que foi tomada por muita gente como algo sério e, por conta disto, causou enormes desgraças – os nazistas, por exemplo, acreditavam em sua veracidade e fizeram o que fizeram, em parte, por tal crença. E não duvido que outros grupos não adotaram os Protocolos como uma espécie de cartilha a ser seguida.
Mas a leitura me foi de interesse – como, acredito, também o será para outros admiradores de Eco –, porque quem leu seus últimos livros aqui publicados teve o privilégio de acompanhar quase que o itinerário de construção deste romance. Seu interesse pelo folhetim (especialmente os de Alexandre Dumas e Eugène Sue), pelos Protocolos e por outras supostas conspirações relacionadas (maçônicas e jesuíticas), já se encontram patentes em Sobre a Literatura (2003), Seis Passeios pelos bosques da ficção (2004), Entre a mentira e a ironia (2006), Não contem com o fim do livro (2010) e A Memória vegetal (2010). Nestes dois últimos, aliás, estão mais bem explicitados os interesses recentes de seu autor. No primeiro, que é uma entrevista concedida juntamente com Jean-Claude Carrière a um jornalista, todos os pontos principais de sua atual trama romanesca surgem quase que no mesmo encadeamento posterior. E o segundo apresenta uma série de livros esdrúxulos, embora reais, dentre eles o que contém certas considerações sobre as diferenças fisiológicas entre franceses e alemães, expressas no primeiro capítulo do Cemitério.
Longe de mim julgar que um autor está impedido de reescrever seus pensamentos, ou de achar que é interdito transpor um assunto quiçá tratado em qualquer ocasião ou meio, para as páginas de ficção. Pelo contrário. Todavia, como os textos que precederam seu romance foram bastante didáticos quanto aos temas abordados – os quais serão o principal motivo da intriga do Cemitério – a leitura deste acaba tendo um certo ar de déjà vu, ou, quem sabe, e melhor, de déjà lu. Ou, utilizando de mais um trocadilho, de uma natureza detestada pelo autor (o que ele expressa em O Segundo diário mínimo, 1993), e nem um pouco sendo banal, o problema daquele Cemitério é o excesso de Eco, a repetição da mesma voz já ouvida anteriormente e noutros lugares.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de outubro de 2011.].

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