A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República quer retirar de circulação um comercial de roupa íntima em que uma, como dizem por aí, übermodel brasileira se apresenta naqueles trajes, e na ausência de outros, para dar más notícias ao marido. Pois, de acordo com um comunicado do órgão do governo, a peça publicitária “promove o estereótipo errado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora grandes avanços que alcançamos para desmontar práticas e pensamentos sexistas”.
Atentaram no texto? Viram que valiosíssima pérola de estupidez? “Estereótipo errado”! Quer dizer que existe um “estereótipo certo”? Sempre pensei, e acredito que a maioria das pessoas também, que todo e qualquer estereótipo é, em si, equivocado, porque demasiado simplista, parcial, etc. Mas vamos lá saber hoje em dia... E não discordo quanto à necessidade de valorização dos avanços femininos rumo ao desmonte das práticas e pensamentos sexistas, pelo contrário. Porém, se o mesmo argumento for levado a fundo, até a profissão daquela moça acabaria por se tornar alvo da mesma censura. Pois, afinal, o que é um/uma modelo que não um objeto sexual, visto que é sua beleza escancaradamente oferecida o chamariz que leva muita gente a leva a consumir isto ou aquilo, julgando que está, sim, consumindo quem anuncia aquilo ou isto? Alguém já viu um ou uma modelo escolhida que não por sua aparência, mas, sim, digamos, por seus méritos morais ou intelectuais? É claro que não nem é isto o que se espera. O apelo é a carne (ainda que a maior parte deles não as tenha), a luxúria, o sexo, portanto. Ótimos prazeres, mas que jamais serão usufruídos pela simples compra do que quer que seja com junto a quem o anuncia. São, de fato, objetos, na mais completa acepção do termo, na medida em que sua função é a de vender um produto, tal qual um cabide ou uma vitrine o faz. E se o consumo se dá mais por uma vã tentativa de imitação – “ se fulana usa isto, eu também usarei, para me sentir tão poderosa como ela”, como muitas mocinhas, ou nem tanto, parecem pensar – que se olhem no espelho, confiram suas formas, e depois avaliem seus saldos bancários e pensem na outra. Verão o quanto foram iludidas por um objeto cuja única função é vender. Como uma máquina de vendas, ou de fazer dinheiro, pilhou o dinheiro delas, e só engrossou seus fundos (volumosos, do ponto de vista financeiro, mas fundos um tanto magros na parte física, como é de conhecimento nacional). Um objeto hipnótico, que faz as pessoas perderem a razão e lançarem-se às compras, pela sugestão da satisfação de um desejo, por uma tentativa de cópia inatingível... por uma ilusão, portanto.
Mas outra pérola, tão valiosa quanto a primeira, se encontra na resposta do anunciante que alegou ter em sua campanha o “objetivo claro e definido de mostrar, com bom humor, que a sensualidade da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia”. Não, realmente, esta da “sensualidade da mulher brasileira” é ótima! Vá lá que a moça seja mundialmente reconhecida como bela e sensual. Mas seu biótipo, fenótipo e genótipo são 100% alemães! Pode ela pertencer à sexta geração de imigrantes aqui radicados, mas ninguém, em parte alguma do mundo, a apontaria na rua e diria; “aí vai uma brasileira”. Claro que não! Ela me faz lembrar aquela velha anedota, relacionada aos filhos de imigrantes italianos que não se sentiam brasileiros, visto que nascidos aqui de casais oriundi, e se comparavam aos gatos de padaria, que, ainda que nascidos no forno, não eram, certamente, pães! Nem os mais exacerbados teóricos da suposta necessidade de branqueamento do país, umas figuras que pontearam aqui e ali na imprensa, de fins do século XIX e começo do XX, que o atraso do país se devia aos negros e índios, e que influíram nas políticas de imigração que privilegiaram caucasianos, nem estes, se redivivos, por mais orgulhosos que se sentissem com a projeção mundial da moça em questão, concordariam que ela era uma “mulher brasileira”. Se muito uma promessa, porém jamais uma realidade, em qualquer época que fosse. Inclusive na atual. Sua aparência de brasileira é similar a de dinamarquês do ator Luiz Gustavo – o célebre Beto Rockfeller e Mário Fofoca de antigas telenovelas – um filho de espanhóis nascido na Dinamarca e que encarnou, sim, um certo tipo de brasileiros. Ou à cara de mexicano dos também atores Chico Diaz (filho de um peruano, e excelente na caracterização de jagunços e cangaceiros do nosso Nordeste) e Giselle Itié (filha de um mexicano e de uma brasileira), brasileiríssima na forma e no semblante.
A brasileiridade, quanto à aparência, é um conceito muito fluídico e sólido ao mesmo tempo. Ela provém dos estudos de Gilberto Freyre, dentre outros, e se estabelece no Estado Novo, graças ao Dia da Raça Brasileira, celebrado em 5 de setembro, até hoje em alguns lugares. A proposta era boa, mas não foi lá muito levada à sério. Propugnava que o tipo nacional era eminentemente mestiço, com vistas a abrandar as diferenças de cor e de origem através de um aplainamento das diferenças. Algo do tipo: “você é branco hoje, mas sua tataravô foi índia, e seu bisavô negro”. Mas muita gente não gostou. Eram brancos que não queriam ser lembrados de sua origem morena, e também negros, porque tal fórmula poderia encobrir – e de fato o fez, menos pela intenção da lei e mais pela prática de alguns brancos – os preconceitos e vilipêndios sofridos pelos negros, que duraram décadas. Mas o fato é que o espírito da coisa toda funcionou, de certa maneira. E as pessoas de bem enxergam em nossa morenidade e mescla a tão propalada brasileiridade, ou brasileirice.
Em vista de tudo o que foi exposto, acho que todos os nossos compatriotas de bom senso hão de dar uma resposta unânime à seguinte pergunta: quem mais encarna a sensualidade da mulher brasileira? Gisele Bündchen ou Juliana Paes? A ebúrnea loura de estendidas proporções silfídicas, ou voluptuosa morena com olhos de cunhã? Quem não souber responder, não é brasileiro...
[Pubricado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2011].
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