quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Os Bebês de Rosemary – Parte I

Vez por outra, assistindo à televisão, via um pouco do programa Supernanny (“super babá”), primeiro em sua versão inglesa, depois norte-americana. Soube agora que há uma adaptação brasileira que, até onde vi, copia mais uma certa excentricidade no trajar da apresentadora da versão original do que os problemas que aquela enfrentava. E que problemas! O renque de pestinhas com carinhas de anjos, verdadeiros ditadores de fraldas, parecia sempre crescente. E cada vez pior. Algumas delas pareciam mais um caso de serem submetidas ao Encantador de Cães, outra série de sucesso, do que àquela inglesa baixota, bonachona. A versão brasileira, evidentemente, é mais branda. Não mostra nenhum petiz intratável como os que são apresentados no original. Não que não os tenhamos, pelo contrário. Mas no Brasil pode-se tudo, menos interferir na educação dos filhos alheios. Nem sequer por meio de suaves conselhos. Pode-se tentar seduzir o pai ou a mãe, dependendo do interesse, pode-se até incentivar as más práticas dos filhos: porém tentar corrigi-los, nunca. Frente a isto, pais notoriamente omissos arvoram-se quais bonus pater familiae. Mães relaxadas e fracas saltam na defesa de suas crias quais leoas ou matronas judaicas. E que demoninhos vemos por aí! Creio que, em muitos casos, uma perfeita adaptação de séries de tv, para o Brasil, tratando do tema, deveria ser um cruzamento de Supernanny com Supernatural. Sim, porque basta andar por um shopping center, dividir um elevador, ou mesmo olhar para os lados, e parecemos ver a todo momento uma reencarnação do Damien Thorn, d’A Profecia, da Regan MacNeil, a personagem de Linda Blair n’O Exorcista, ou d'O Bebê de Rosemary. São verdadeiros casos para uma Supernatural nanny.
Se alguém duvida do que digo, lembre-se de quantas e quantas vezes numa loja, na fila do caixa do supermercado, ou até nos bancos de uma igreja, não ouviu crianças berrando quase qual endemoniadas. Quem não ouviu gritos escruciantes, tenebrosos, quais se sofressem torturas atrozes e que não passavam de pura birra? Outro dia, almoçando fora, ouvi o seguinte depoimento de uma avó ao gerente do restaurante onde estávamos, ela acompanhada da filha e de seu bebê: “Pois é, o Marcinho é assim. Chora o tempo todo enquanto os pais comem. Só quando eles desistem da comida é que ele para”. Sim, isto mesmo. Ouvi da própria avó. Tenho testemunhas. E, a partir daí, pude veririficar o mesmo fenônemo noutros lugares e condições É ou não é uma coisa infernal?
Sei que, para todo pai, seu filho é um príncipe. No caso de alguns, os miúdos parecem até mais que isso: pequenos deuses de fraldas sujas ou uma nova versão de D. Sebastião, o Desejado, escorrendo muco. Parecem se esquecer que os tempos de se falar em “milagre da vida” já passaram. Com os avanços da ciência e a melhoria das condições básicas de vida, como saneamento, alimentação, exames pré-natais, etc., só não se tem filhos, ou eles só partem muito cedo, graças a um tremendo azar ou por más condições de infraestrutura hospitalar, fome, e outras mazelas sociais. De modo que o suposto milagre da vida, hoje, não é assim tão miraculoso, já não é mais uma exceção, e sim a velha reação química produzida pelo meio que sabemos como, produzindo tantas crias do animal humano como as vemos por aí, até mesmo sob as condições mais adversas: veja-se o imenso número de crianças nascidas de outras crianças carentes. Em suma, o mistério se desfez, e quem acha que ele ainda existe é porque ainda se embebeda no sentimentalismo do primeiro filho. A partir do segundo, a mística desaparece, como atestam outras várias testemunhas.
Não me oponho às crianças como um todo, evidentemente. Acho algumas bem engraçadinhas, ainda que não veja a hora de que cresçam e fiquem mais preparadas para um bom diálogo, frente ao qual não são necessárias meias palavras, abrandamento do discurso, elisões de termos e assuntos. Sei também da necessidade delas do ponto de vista econômico: suprimento da demanda de certos produtos e serviços, reposição de mão de obra e futura contribuição para a previdência social. E não desprezo o fato de que muitos casais sentem-se menos homens e menos mulheres por não terem filhos, quer por uma questão de virilidade ou exercício da maternidade, quer por uma questão de status: filhos, para muitos, são o coroamento de uma carreira que inclui um bom emprego ou negócio, casa própria, automóvel, casa de praia, ascensão social, enfim: “eu quero, eu tenho que poder, e aí está a prova, vejam meu rebento: agora posso me dar ao luxo de arrumar um hobby, um amante ou uma amante”, parecem pensar. Contribuindo para esta visão de mundo, há o fato de que crianças, aos olhos dos pais, são sempre encantadoras, mesmo as feias e problemáticas. São brinquedinhos, que podem ser vestidos ao gosto de seus proprietários e, o que é pior (tremo de horror sempre que escuto), que podem ser moldados de acordo com o gosto de seus genitores.
Toda vez que escuto um pai ou mãe tratando seus filhos como um papel em branco sobre o qual possam gravar ou imprimir o discurso que eles bem entendem, ou como uma massa inerte de barro, a ser manuseada segundo seus interesses, dez alarmes contra roubo, incêndio ou ameaça grave – “dobres de Aragão”, como se dizia outrora na Lusitânia, como alerta à chegada do inimigo espanhol – parecem soar em meus ouvidos. O primeiro me avisa que estão brincando de deuses. O segundo, de que se comportam feito deuses terríveis, querendo moldar os corpos de suas criaturas segundo lhes convém. O terceiro, porque tais deuseus terríveis querem que as mentalidades de seus petizes seja uma reprodução das suas. O quarto, porque acreditam que suas verdades sãos as melhores do mundo e que jamais deveriam ser corrigidas, daí impingí-las, sem críticas, aos filhos. O quinto, decorrente daqueles, porque abstrai qualquer possibilidade de um pensamento ou vontade própria que possa existir em suas crias. O sexto, porque projeta, arbitrariamente, esperanças sobre a geração seguinte, sendo que esta não é obrigada a cumprí-las. O sétimo porque, não realizados os votos e desejos, transmitem à prole suas próprias frustrações como se fossem as daquela. O oitavo, porque, se exacerbados em seu plano geral, ignoram as vontades e naturezas de seus herdeiros. O nono, consequência do anterior, porque podem renegar o seu sangue pelo não cumprimento de seus magnânimos desígnios. O décimo, porque hão de morrer soberbos e impenitentes: se os filhos se deram bem, foi por mérito deles, pais; se mal, necessariamente porque não os ouviram ou seguiram. É ou não brincar de Deus? E um Deus bem perverso, por sinal...
Que as pessoas, casadas ou não, queiram ter filhos, é um direito natural, indiscutível e inalienável. Que outros, ou os mesmos, queiram adotá-los, é algo que deveria ser facilitado – muitas vezes, numa família, o sangue ruim, parental, é refescado pelo novo. Mas que não se pensem em bebês como filhotes de cão, que podem tudo, porque são engraçadinhos. Eles precisam ser educados, e de acordo com suas naturezas e índoles. Filhos são pessoas de outra classe, não simples extensões carnais e naturais de seus progenitores. E falo tudo isto com a maior isenção possível frente ao assunto, porque nenhum sentimentalismo turvou meu olhar. Só digo que não aguento mais estes monstrinhos circulando por aí, tratados por seus pais como brinquedos que vieram com defeito de fábrica e perante aos quais ninguém pode reclamar, visto que já ultrapassaram o prazo de devolução: como parecemos entrever em em certos olhares, e como se tal restituição existisse...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de outubro de 2011.].

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