quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Caçando lobisomens – Parte II , e, espero, final

Continuando a prestar o meu tributo ao mês do folclore, já extinto – pois se louva melhor, e mais desinteressadamente, aos mortos que aos vivos – conto agora um causo recolhido que versa sobre o mesmo tema tratado na semana passada.
A primeira história de lobisomens que li em minha vida encontrei-a num livro didático, do qual fazia parte um conto de minha saudosa madrinha, Helena Silveira, uma escritora notável, mestra da crônica e do conto como poucas (ou poucos) vi igual. E gentilíssima pessoa e firme em suas ideias. Uma figura sem par que, infelizmente, não deixou herdeiros literários, apesar de seu grande talento, nem seguidores leais de sua elevadíssima reputação e convicção ética, apesar de uns tantos pseudo-discípulos, que rodeavam à sua volta, não como planetas ao redor de um astro, e sim como mariposas tontas que, incapazes de compreenderem o luar, trocavam-no pelo brilho fugaz de uma lâmpada.
Li a referida história de lobisomem, reproduzida no livro, lá por volta dos meus sete ou oito anos, em casa de minha madrinha, creio que ao anoitecer – longe das horas mortas, portanto – e o meu pavor foi tal, que esqueci o nome do autor e do conto, de tal maneira era este realista! Jamais esquecerei de minha primeira impressão frente a tal leitura, na qual se contava um ataque de um lobisomem a uma mulher e seu filho, a fera tentando morder a cabeça da criança (envolta numa manta de baeta vermelha), que era defendida com ardor pela sua mãe. Conclui-se a história com a visita do pai e marido das vítimas a um compadre, para contar o caso, e mal o anfitrião abre e a boca, o amigo vê os fios de baeta vermelha entre os dentes do padrinho da criança. Era ele o lobisomem!
Não muito mais tarde, descobri que esta história era contada no país inteiro, variando apenas a cor da baeta (de vermelho para azul ou amarelo), mas sempre, em todos os lugares, se tratava de uma manta de baeta, talvez por ser mais comum no passado. Duvido que, hoje em dia, o grosso das pessoas identifique uma manta de baeta, ou sequer tenha uma. Em todo caso, ao identificar um tema recorrente nestas histórias, vi que se tratava, puramente, de um causo, ou, como hoje os chamamos, ou quase, de uma lenda urbana: rígida quanto à meia dúzia de elementos da trama, mas que podem se passar em Piracicaba, Varginha, Araruama, Três Lagoas, Itatiaia ou em qualquer outro lugar. E assim superei meu medo inicial.
Mas o fato é que as histórias de terror, mesmo as de origem popular e, por muitas vezes conhecidas só de forma oral, são pequenas obras-primas narrativas. Pois são curtas, possuem um encadeamento envolvente, por seus mistérios e pelo desenrolar da trama, que são apenas resolvidos no parágrafo final. São, portanto, a súmula do conto perfeito! E, a tal ponto, que, se me perguntarem o que hoje leio nos meus momentos de descanso, declaro a plenos pulmões: “Histórias de terror!” São muito mais instigantes, enquanto trama, e muito melhor acabadas, quanto à “carpintaria do texto”, que a maioria das novelas, romances ou coletâneas de contos publicadas hoje em dia, geralmente centradas num personagem urbano, de classe média ou média alta, sufocado pela cidade grande onde vive, e sem um destino nem sequer avistável, patético marionete numa narrativa que termina sem um final claro. E tal recurso é feito graças a uma suposta relativização das verdades ditas absolutas no plano literário? Que nada! Puro modismo. Parece-se mais sábio deixando as coisas em aberto. Enquanto observa-se, na verdade, que tudo ficou em aberto, porque o autor não sabia como concluir a coisa. Como vemos, dia após dia, autor após autor. Daí uma certa preguiça minha e de outros frente a tais relatos. Pois, como diz um amigo, ainda paulistano: “por que ler fulano ou beltrano? Se quisesse ler uma história em que nada acontece, leria o meu diário”!
Voltando ao tema inicial, creio que O Coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho (1914-1989), foi a única grande obra nacional que abordou o tema de que estamos tratando, salvo engano (cartas ou e-mail para este autor!). Trata-se de um livro que começa de maneira magistral, passa a manquejar lá pela metade, e tropeça numa vala em seu final, ou para aquela foi conduzida pela claudicação do autor. Pois, enquanto linguagem e estilo, é soberbo; já enquanto desenvolvimento e conclusão, mereceria um tratamento melhor. E o lugar que ocupa no panteão nacional, içada que foi por seus confrades cariocas, geralmente acostumados a leituras ligeiras, creio ainda ser periclitante.
Concluindo, em relação ao assunto – lobisomens – salvo os casos eruditos citados em nossa literatura e estudos do folclore (Gilberto Freyre, fala de uns fidalgos pernambucanos muito pálidos que cumpririam aquele fado), são raros os testemunhos de supostos atestadores de lubis-homens que os identifiquem como pessoas normais no dia a dia e monstros, somente, de quinta para sexta, ou sexta para sábado. Em geral o que se observa são relatos referentes a tipos rústicos, meio que tornados selvagens, quer metidos no mato, quer em plena cidade grande. Homens paupérrimos, cobertos de andrajos e barbas longas, geralmente seguidos por uma pequena matilha, em geral dócil. Um suposto lobisomem, desta categoria, me foi apontado, há vinte anos atrás, por uma série de motoristas e cobradores de ônibus, do ponto final da Rua Itacolomi, perto do cemitério da Consolação, em São Paulo. Um sujeito com ares inofensivos, exceto por um certo estranho brilho no olhar, e que cumpria à risca o figurino previsto pelos observadores populares: barbas imensas, cabeludo, imundo e rodeado por cães.
Pergunto-me se tais criaturas ainda circulam por aí, estes monstrengos, em geral pobres diabos, tão diferentes dos personagens do cinema. Tenho, aqui comigo, que não. O sonho, e sua contraface, o pesadelo, não granjeiam mais por aqui. A bruta realidade nos ataca dia a dia. Até os monstros devem estar fugindo com medo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2011].

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