quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Os Bebês de Rosemary – Parte II

Dando prosseguimento ao inventário de capetinhas de babador e calças curtas que enxameiam pelo mundo, afirmo que observo, quase diariamente, uns casos interessantíssimos de mal comportamento infantil que beiram às raias da mais completa incivilidade, para não dizer quase bestialidade.
Vejam-se os casos de uns vizinhos meus, abaixo dos onze anos. Há alguns excelentes, simpáticos, e bem educados. Uns que, na espera do elevador, abrem a porta para mim, tratando-me por Senhor – fazer o quê? É a vida! Um dia esta hora chega... – ou perguntam qual o andar em que moro e, céleres, apertam o botão referente ao mesmo. Outros ainda que até ajudam quando trago muitas compras. Temos uma menininha no prédio, com não mais de quatro anos, que é a alegria dos moradores e dos porteiros, chegando a trazer, para estes, balas e confeitos que sobraram de sua merenda. Mas, por outro lado, temos dois irmãos, na casa dos sete e onze anos, que são simplesmente assustadores.
Confesso que, a princípio, o que mais me incomodava neles era o fato de que, embora passassem os anos, eles simplesmente pareciam não crescer. Quem assistiu ao filme Uma mente brilhante, talvez entenda do que estou falando. Ali, um matemático genial, conquanto esquizofrênico, é acometido de alucinações, dentre as quais uma menina, sobrinha de um amigo imaginário. E a chave para a sua compreensão de que vivia num mundo paralelo se dá justamente quando ele percebe que, passados os anos, a menina não crescia. Bingo! Era uma alucinação! No meu caso, a coisa parecia muito semelhante em relação àqueles petizes do prédio. Mas minha mulher também os via, o mal comportamento deles era notório na vizinhança, gerando toda sorte de comentários até entre os de suas idades e, portanto, respirei aliviado: apesar das atitudes dos meninos parecerem um pesadelo, eles, de fato existiam. Ou melhor, existem.
Pode parecer que exagero, mas observem seus hábitos. Quando entram no elevador, ignoram os demais passageiros. Voltam as costas para todos, encaram a parede, e passam a chutá-la, enquanto assobiam durante o tempo que durar a viagem. Aliás, é uma coisa engraçada, esta, a da ausência de civilidade relacionada ao uso constante dos pés para além da função natural de andar. Gente grosseira está sempre batendo os pés, chacoalhando-os quando as pernas estão cruzadas, ou chutando coisas. Na única vez em que encontrei os pequenos malignos fora do prédio, tomando um sorvete, seus pés agitavam-se como que quase num surto. E como chutam coisas: o peitoril da varanda de seu apartamento foi convertido numa rede de gol, e o ribombo das boladas de faz ouvir vários andares abaixo daquele onde moram.
Outra coisa interessante no comportamento deles é uma quase inversão dos hábitos mais comuns entre as crianças. Primeiro, acordam anormalmente cedo, enquanto dormem assustadoramente tarde. Em segundo lugar, é sabido que os infantes, em geral, gostam de repetir músicas, frases, brincadeiras até quase a exaustão. No caso deles, entretanto, observa-se o contrário. As boladas contra a grade, ainda que diárias, não ultrapassam cinco minutos. Andar de skate pela sala, o mesmo tempo. E até quando ganharam um videogame, destes que, ao invés de um console, têm uma guitarra, brindaram-nos a todos, por um dia inteiro, cantando e tocando a mesma música. Porém o mesmo brinquedo nunca mais foi utilizado.
Uma vizinha, professora do ensino fundamental, comentou, certa vez, que sentia-se impressionada com a latente falta de qualquer manifestação emotiva por parte de nossos vizinhos. Segundo ela, que, por curiosidade e hábito de ofício, acompanha a eles com atenção, nunca foi, diz, capaz de flagrar qualquer extravasamento normal ou de raiva, ou de alegria, ou de tristeza. Parecia ver sempre um eterno nada, um vazio absoluto impresso em suas caras. Mais tarde, porém, ela mudou de ideia. Uma vez assistiu a uma pequena cena entre o menor deles e a avó. Esta, fez uma brincadeira que não agradou o neto, e ele – palavras de minha vizinha – “fuzilou-a com os olhos, com um ódio cruel para além de tudo o que já vi”.
Estes problemáticos objetos de reflexão não, são, é claro, uma regra. Todavia abundam em toda parte, sobretudo em São Paulo, capital e interior. Não os vejo no Paraná, Rio, Minas ou Bahia. Temo, portanto, pelo futuro de nosso estado, sob cujo sol nasceram e foram mal educados tais monstrengos. Sim, porque são pequenos monstros no comportamento, e também na sua função, segundo o grande (Santo) Isidoro de Sevilha (560-630 d.C., evidentemente) que em suas Etimologias (Etymologiarum Libri XX), mais especificamente no livro XI), estabelece que o monstro é revelador, (sua raiz é a mesma do verbo “demonstrar” e de “montra”, ou “vitrine”) sendo, portanto, uma manifestação de algo. No caso presente, poderíamos deduzir, uma manifestação do descuido dos pais na educação dos filhos, ou ainda o surgimento de uma nova e pior índole, materialista e imediatista dos rebentos, possível espelho ampliado dos progenitores. Será que é isto que nós queremos no futuro? Será que conseguiremos conviver, mais velhos, com tais criaturas? Tenho minhas dúvidas. Que, aqueles que são pais, pensem nisto. Qual será nosso futuro? Conviveremos com tais criaturas mal formadas e estragadas ou procuraremos uma derradeira alternativa? Há momentos em que o elogio do suicídio feito pelo grande poeta John Donne (1572-1631), em seu Biathanatos (escrito em 1609), fundamentado teologicamente nas mortes voluntárias de Sansão e do Rei Saul, parece se tornar uma alternativa viável, aconchegante, à longo prazo...

P.S. Às Rosemarys que têm bebês e que aqui, porventura, julgaram-se insultadas: a referência, inicial, é feita ao filme O Bebê de Rosemary (EUA, 1968). Nada tenho conta às senhoras e sua prole, desde que estes não sejam, justamente, monstrengos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de outubro de 2011.].

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