terça-feira, 30 de março de 2010

Toda ponte paira sobre o vazio

Em crônica intitulada “Um novo cartão-postal paulistano”, de 15 de dezembro de 2007, tratei, neste espaço, de uma certa ponte estaiada que se ergueu sobre o rio Pinheiros – aquele que separa o Palácio dos Bandeirantes da verdadeira São Paulo.
À época comentei a falta de necessidade de um tal projeto e método construtivo, e mencionei outras pontes muito maiores às quais tentaram comparar aquela pretensiosa pinguela pênsil sobre o rio. Dentre elas, citei a Ponte do Brooklyn, de Nova Iorque, e a Golden Gate, de São Francisco, Califórnia. E meio que conclui dizendo:

É de se imaginar se a idéia não passa de mais uma macaquice, imitação na aparência, mas não na essência, de “modernidades” alheias. É possível mesmo especular se quem a planejou, quem a aceitou, e quem a elogia, não seriam alguns tantos brocoiós nostálgicos de algum sonho não realizado, de “vistas” norte-americanas em nossas paisagens metropolitanas. Gente que suspira à visão do prédio do Banespa porque este lembra o Empire State Building. Que enxerga na Avenida Paulista, a nossa versão da Quinta Avenida nova-iorquina, e no Parque do Ibirapuera, o nosso Central Park. Francamente!”.

Pois é, a macaquice campeia. Agora se quer construir um arremedo nanico de uma Golden Gate ligando Santos ao Guarujá. E, por conta disto, até o nosso Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o sempre solícito e disponível Chirico, desceu a serra para inaugurar...uma maquete!
Os defensores do projeto alegam que aquele monstrengo – a ponte, não o Excelentíssimo Senhor Governador – é uma demanda das duas cidades, visto que as ligaria mais rapidamente. Ora, quem as conhece sabe que já existe serviços de balsas e barcas cumprindo tal fim, e para quem quer ir de automóvel, uma ponte que as une mais para o interior, aliviando o fluxo dos centros daquelas cidades. Com o novo projeto, pretende-se justamente intensificar o tráfego nos centros dos dois municípios, uma idéia condenada por dez entre dez urbanistas de qualquer parte do mundo. E por quem pensa um pouco que seja e conhece Santos e Guarujá. Pois imaginemos os fins-de-semana prolongados e as temporadas, quando milhares de automóveis despencam serra abaixo rumo ao local. Pensemos como ficariam aquelas cidades frente a uma nova e intensa circulação de automóveis, acima dos números absurdos ao quais já se sujeitam. Um caos, um verdadeiro caos. Ou melhor, dois: um para cada uma.
E não falamos ainda do impacto paisagístico. Pois, convenhamos, Santos está longe de ter um dos melhores cenários em seu entorno. Salvam-lhe da completa feiúra o mar – este ninguém consegue impedir de ser o que é – e o estuário com a Serra do Mar ao fundo. Pois é justamente neste último que querem meter o raio da ponte, arruinando de vez aquela bela vista.
E tudo isto para quê? Para brincarmos que somos norte-americanos, copiando-lhes os prédios, as pontes, imitando-lhes o número de automóveis e o consumo desenfreado, fingindo que somos o que não somos, ou o que meia dúzia de brocoiós gostaríamos que fôssemos.
Em suma, tudo que disse da outra ponte, reitero e acrescento para a nova, que sequer saiu do papel e será completada e paga não pelo Chirico, o Breve, mas por quem quer que lhe herde a cadeira. E tomara que ela não vingue, que não passe da reles maquete que é. Basta de macaquices caras e de construir pontes sobre um vazio de idéias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de março de 2010].

Nenhum comentário:

Postar um comentário