Conversas ouvidas em ônibus, vez ou outra, rendem uma história interessante. A última que presenciei envolvia dois senhores do Norte do Paraná, um, seguramente, na casa dos setenta anos, e outro, lá pelos seus sessenta e tantos, pouco mais ou pouco menos.
Quem tomou da palavra foi o mais velho. Contou, em traços gerais, sua história de vida, dos primórdios até sua exata presença no ônibus. Então, foi a vez do outro contar seu périplo, do batismo até aquela viagem. Os passageiros, gostássemos ou não, que se lixassem... Para além das muitas banalidades trocadas – quantos filhos tiveram, quantas vezes foram casados, separados, etc. – quando um fingia ser sincero ao relatá-las, e o outro afetava ouvir com interesse, para que o interlocutor o revezasse naquele exercício de falsa e pouca curiosidade e muita e intensa vontade de falar, eis que num ponto pareceram entrar em concordância real: no quanto tinham desbravado aquela porção do país.
Durante algumas horas, tive notícia de desmatamentos florestais os mais variados, contados pela voz orgulhosa daqueles companheiros de viagem. Ora era um, todo prosa, contando como reduzira à terra nua, caminhos que hoje são estradas de rodagem, matas que se transformaram em cidades, bosques convertidos em bairros. Noutra, seu parceiro ecoava àquelas afirmações contando a sua parte na depredação arbórea paranaense e na sua eficácia em por abaixo araucárias, palmiteiros, e por aí afora. Graças a eles soube que muitos dos lugarejos paranaenses fronteiriços a São Paulo não passavam de mato cerrado há cerca de quarenta anos.
Entre relatos de quem derrubou mais, ou menos, deram espaço, também, para a narrativa de suas aventuras posteriores àquele período de “descobrimentos”. Ambos trabalharam em cafezais, enquanto “o café ainda dava”. Depois, foram para a cana, uma atividade a qual, segundo o mais velho, teria ótimos patrões — os quais nunca vira — mas péssimos capatazes. E o mais novo concordou com ele, em número, gênero e grau: os patrões eram ótimos — também nunca os conhecera, porque, ricos demais, não podem acompanhar o trabalho do dia-a-dia — o problema, mais uma vez, o excesso de rigor e o desrespeito do trabalhador devia-se aos gerentes, capatazes, gatos, etc.
Na conclusão de seu debate, queixaram-se das mudanças climáticas – às quais não sabiam atribuir um motivo (talvez, disseram, fosse culpa dos terremotos), e quanto às suas intenções de voto no próximo pleito nacional, foram unânimes na declaração: consoante a dois derrubadores de árvores, a escolha só poderia ser SERRA! Pois é, o Chirico.
Conversas como estas são muito relevantes quanto ao modo de pensar dos brasileiros de uma certa classe social tida como baixa, do ponto de vista econômico, gente que tem filhos e netos e que, de uma certa maneira, expressam, transmitem e fazem repercutir suas ideias de uma forma relativamente eficiente em determinados meios. Alicerçados pelo “peso da experiência”, não raro acabam se tornando referenciais de juízo em suas comunidades. Mesmo que tenham, somente, muitos anos e pouco juízo. Cidadãos — no sentido lato da palavra, mas, ainda sim, eleitores — que têm do mundo somente a visão possível de ser vislumbrada, de esguelha, por cima da canga que lhes pesa sobre os ombros. Os algozes são as moscas que lhes picam o couro, ou o condutor do carro de boi ao qual estão atrelados. O dono das terras, que os remete à errância e ao desassossego, este é sempre bom. Ainda que nunca, jamais, os tenham visto, mais gordos ou mais magros, bonitos ou feios.
Este é um daqueles casos através dos quais se demonstra a necessidade do estudo formal e da consciência de classe. Um pouco mais de instrução que tivessem, permitiria que vissem não só os males ambientais que causaram como, também, o mísero papel que tiveram nesta embrulhada toda e noutras a partir daí. Pobres, sobretudo de espírito, para sempre eles continuarão. Como, também, os seus ricos patrões, ausentes, incertos, indistinguíveis, nos modos, de seus empregados, mas que os oprimem igualmente, com ares de bom cidadão.
Tem horas que o conhecimento sobre o velho Marx, e de sua teoria da alienação dos trabalhadores, faz muita falta....
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de março de 2010].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário