Os leitores que me desculpem, mas é muito difícil acrescentar quaisquer informações ou análises novas a respeito do terremoto no Haiti que não tenham sido exaustivamente apresentadas por todos os meios de comunicação da face da Terra. O assunto, aliás, parece ter sido mais revirado pela grande imprensa do que o foram os escombros e ruínas pelas equipes de resgate. No Brasil chegou-se ao cúmulo de duas revistas concorrentes publicarem a mesmíssima fotografia em suas capas.
De modo que não teria muito sentido, aqui, alongar-me sobre os principais aspectos da catástrofe que abateu aquele país e seu povo, tão explorado. Nem prantear ainda mais a miséria em que vivem, a corrupção e incompetência dos políticos e da classe dominante de lá, a ignorância do povo, a péssima qualidade das construções locais, o mau-caratismo dos empreiteiros que as ergueram, em suma, todas as mazelas que afligem os haitianos e que se exacerbaram graças àquela horrível fatalidade.
Quero enfocar, portanto, dois aspectos que me chamaram a atenção no episódio todo.
Em primeiro lugar, pareceu-me que vem ocorrendo um tremendo desconcerto entre as nações que se prontificaram a ajudar o país. As relações entre elas, diante dos fatos, dão a impressão de um diálogo de surdos que também são cegos: todos falam, mas ninguém escuta e os sinais não são interpretados. Veja-se o caso da ocupação militar norte-americana do aeroporto de Porto Príncipe. Vá lá que alguém precisasse pôr ordem no lugar, mas o estilo caubói dos estadunidenses – ocupam o Forte Apache e deste ninguém entra ou sai – provocou atrasos no desembarque das equipes de resgate estrangeiras e até dos insuspeitíssimos Médicos sem Fronteira. E quando for necessário administrar o dinheiro das doações (estatais, particulares, do terceiro setor, etc.)? Quem irá cuidar dele? Os haitianos? Não sei não... É muito mais que preocupante, é verdadeiramente assustador, observar como tão poderosas nações parecem não chegar a um consenso mínimo, em tempo hábil, diante de uma calamidade destas.
Em segundo lugar, fico imaginando o trabalho de Hércules que será reconstruir o Haiti. Bom, reconstruir em termos, porque muita coisa faltava por lá, sobretudo no que diz respeito à infraestrutura. Mas do pouco e mal-feito que existia, ainda assim era alguma coisa, ocupava um certo espaço. É de se imaginar, por exemplo, o que farão com as toneladas de entulho em que se transformou sua capital. Como serão transportadas, se não há estradas? E seriam levadas para onde? O país é pequeno. Como se dará a recuperação do país, pobre e corrupto? Seguindo as mesmas regras de antes? Sob intervenção estrangeira? Sim, porque o presidente haitiano não é nenhum Marquês de Pombal, pelo contrário. Nem Porto Príncipe é a Lisboa do século XVIII. Por ora, estão enterrando os mortos. Mas conseguirá ele cuidar dos vivos?
Há pouco tempo, falei da urucubaca que tem dominado São Paulo. E os leitores certamente dirão que a do Haiti nos superou. De minha parte, digo que superou em número de mortos. Pois as destruições pela chuva – leia-se, também, por culpa da ausência de projetos urbanísticos e incompetência das autoridades – continuam. E os donativos com que contavam os habitantes de São Luís do Paraitinga, por exemplo, agora são enviados para outras plagas.
Tristíssimo e miserável Haiti! Rezemos por ele. Triste e pobre São Paulo. Que Deus tenha piedade de nós! Porque se houver um terremoto por aqui, muito pouco também há de ficar de pé: talvez só as estradas privatizadas, com suas cabines de pedágio.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de janeiro de 2010].
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