Foi publicado recentemente no Brasil um ótimo livrinho do centenário antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, grande referência em seu campo de estudos e para a própria compreensão de nosso país, onde viveu por alguns anos. Trata-se de O Suplício do Papai Noel (56 páginas, R$ 25,00, Cosac & Naify). Chamo-o de livrinho em razão de suas dimensões. Mas o tema é formidável, a análise surpreendente e, diria, trata-se de uma obra indispensável para a compreensão das atuais celebrações do Natal. Uma boa leitura para este fim de ano. Nele, o autor conta um curioso episódio ocorrido na cidade francesa de Dijon, em 1951. Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles “não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo”.
Como o autor bem demonstra, Papai Noel não é um ser mítico ou mitológico, visto que não há um mito que dê conta de sua origem e funções. Nem, tampouco, é lendário, posto que não há nenhuma narrativa semi-histórica relacionada a ele. Na verdade, já que imutável e sem passado, ele entraria placidamente na categoria de uma divindade. E, portanto, pagã. Assim, por mais bizarra que nos possa parecer a cena do enforcamento e cremação do boneco, ela tem suas razões, em todo caso.
O autor prossegue em seu texto demonstrando que o culto àquela figura, e sua associação às renas, ao inverno, às árvores de natal, remontaria a práticas verificadas na Idade Média, no Norte da Europa e nas ilhas britânicas. Ou seja, foram fenômenos autênticos de tais lugares que extrapolaram sua área de influência. Não resta dúvida, aliás, que o culto ao Papai Noel propagou-se a partir dos EUA no pós-Segunda Guerra, momento de máxima expansão cultural daquele país. A história da instituição de sua fisionomia, inclusive, já foi rastreada até sua origem: desde um cartum, de 1886, de Thomas Nast, até algumas pinturas do também norte-americano Norman Rockwell, contratado para uma campanha da Coca-Cola cujo objetivo era associar a festa ao refrigerante e o personagem às cores da marca (é aí que se estabelece, definitivamente, a cor vermelha para as roupas do bom-velhinho).
Mas como isto se deu? Lévi-Strauss menciona o São Nicolau, cultuado pela igreja Ortodoxa, uma das bases do personagem, e suas variantes holandesas e norte-americanas (Santa Claus, termo em que o nome Nicolau ribomba qual uma salva de canhões.). Infelizmente, porém, o velho sábio francês não ousou esboçar uma genealogia histórica da questão, cuja chave, acredito, no que concerne à divulgação do culto, reside na Holanda do século XVII. As ligações comerciais das Províncias Unidas com a Rússia e, posteriormente, a grande massa de emigrantes flamengos estabelecidos nas colônias inglesas da América, certamente devem ter contribuído para a adoração daquele Santa Claus.
Também, infelizmente, não menciona a vinculação do personagem com o Homo selvaticus, ou “Homem-Verde”, uma figura mitológica européia, habitante das florestas, que no final do ano sairia de seu refúgio para presentear os habitantes – civilizados – das redondezas. Um mito cuja historicidade vem sendo defendida por muitos estudiosos e que encontra guarida até mesmo no Brasil dos tempos da Colônia. Há relatos de velhos pajés presenteando crianças com peças de artesanato, produtos da mata e pequenos animais, seguramente, desde o nosso primeiro século colonial.
Em suma, apesar de controverso, Papai Noel não é completamente anti-natural. O problema é que só ele, e apenas ele, vem sendo cultuado no Natal. Para muita gente, parece que o velho e bom presépio, uma invenção de S. Francisco de Assis de mais de oitocentos anos, se tornou cafona: chique é encher a casa de objetos vermelhos e dourados, fingir simulacros de neve, povoar a casa de pinheiros e renas e até mesmo de insólitos, e deslocados, pingüins.
Desse modo, Papai Noel vai se tornando, cada vez mais, um ícone das crianças ricas e mimadas. As pobres sabem que quem dá, de fato, os presentes, são seus pais. Ou algum pobre funcionário público, muitas vezes vizinho delas, que, fantasiado, na caçamba de um caminhão da prefeitura, atira brinquedos baratos. Salvo por um pequeno número de voluntários que visitam alguns poucos orfanatos nas proximidades da festa santa, todas as demais crianças abandonadas são obrigadas a aceitarem o mito do “bom velhinho” que nunca se mostra bom com elas, indiferentemente de seus comportamentos ao longo do ano.
Nada tenho contra a figura do velho homem. Mas, convenhamos, sua exposição tornou-se excessiva. O Natal não é mais a data do nascimento de Cristo, e, sim a da chegada do Papai Noel. É como se, numa festa de aniversário, celebrássemos não o aniversariante, mas o garçom que serve as bebidas. E o motivo disto é claro. Renega-se o Cristo porque ele nos leva a refletir sobre nossa vida, sobre as vaidades do mundo, tudo o que não interessa a certas atividades econômicas. Pois se Caifás e Pilatos mataram o Cristo no monte Calvário, a propaganda e o consumismo, novos Herodes em trajes de gala, estão matando o Filho de Deus com maior requinte e violência: atacam-nO já no berço, sem sequer lhe darem uma chance.
Mas o momento não é de amargura. Assim, desejo um feliz Natal a todos os leitores, com mais presépios e menos papais-noéis.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de dezembro de 2008].
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