Quando eu tinha uns treze ou quatorze anos, li um conto alemão cuja narrativa impressionou-me vivamente. Ainda hoje, tenho-o como um dos melhores já lidos em toda a minha vida. Trata-se de “Deuses no exílio”, de Heinrich Heine (1797-1856), em que o autor conta o que teria acontecido com os habitantes do Olimpo depois que foram banidos do panteão das divindades depois do triunfo do Cristianismo. Desterrados numa ilha, Zeus, Ares, Hermes e Afrodite vivem pouco melhor, se isto é possível, do que náufragos miseráveis. Todos eles tristíssimos e sem esperança alguma de qualquer melhora.
O jornalista norte-americano H. L. Mencken, de língua ferina e pena ainda mais aguda, escreveu um pequeno artigo, lá pelos anos 1920, em que retornava ao tema de Heine – o “sábio de Baltimore”, como ficou conhecido, era descendente de alemães e um germanófilo de primeira linha, de modo que, certamente, conhecia o conto. Em seu artigo, ele desdenhava um tanto das certezas da vida, da proeminência de certas divindades sobre outras, lembrando que antes da aceitação plena de Buda, Javé e Alá, inúmeros outros deuses foram tão poderosos quanto aqueles, se não mais, cultuados por muito mais tempo e em territórios muito mais vastos. E que, ainda assim, haviam caído em desgraça.
Em 1943, o escritor belga Jean Ray (1887-1964) publicou um romance intitulado Malpertuis, cuja trama se passava numa gigantesca mansão flamenga um velho mago agonizante convivia com antigos personagens da mitologia grega, resgatados por ele de seus desterros em ilhas desertas. Vestindo trajes modernos, portando-se como pessoas do tempo presente, mas sem trair seus antigos temperamentos, ali viviam Hermes e Apolo, as Erínias, ou Fúrias, e mesmo Prometeu. Em 1971, a história ganhou uma adaptação cinematográfica, pelas mãos de Harry Kümel (1940), tendo como protagonista, Malpertuis, o legendário ator e diretor norte-americano Orson Welles (1915-1985). Por uma dessas coincidências que raramente são, de fato, coincidências, pude assistir ao filme em 1985, ou seja, um ou dois anos depois da minha leitura do conto mencionado, quando pude constatar, sem sombra de dúvida, que tanto o cineasta quando o romancista conheciam o enredo da história contada por Heine. E que filme! É um a pena que ele não possa ser encontrado em parte alguma, e olhem que, há anos, procuro por uma cópia...
Passados quase vinte e três anos daquela sessão de cinema, e já meio esquecido do conto, do romance e do filme, eis que, a pedido de minha noiva, ajudo a procurar alguns nomes na lista de aprovados para a segunda fase do vestibular da Fuvest. O que uma coisa tem a ver com a outra? Verão, em breve. Pois bem, estava eu decifrando as letras miúdas em que tais listas são publicadas nos jornais. Ao meu lado, uma relação com os nomes dos alunos que, esperávamos, contassem da listagem publicada. Alguns acertos aqui, amplas lacunas ali, e minha atenção acaba por se voltar aos estranhos, ou curiosos, nomes de vários candidatos. Foi-se o tempo das bizarrias, notórias, de algum Um Dois Três de Oliveira Quatro, Pia de Fórmica Branca, Dulce Salgado ou Jacinto Pimenta Aquino Rego. Não, as excentricidades de hoje se notam menos nas combinações do que nas grafias exageradas de certos nomes, como Chrysthianny, em lugar de uma Cristiane, Vynycyus em lugar de um Vinícius, e coisas do gênero. E, por falar em Vinícius, como eles abundam na lista. Eles e os Yuris. As Marias e os Josés ainda são maioria, mas a variedade dos nomes valeriam todo um estudo sociológico. Eis que, por fim, deparei-me com um nome que chamou minha atenção e que se amarra completamente ao início desta crônica. Na página final da listagem, na letra Z, surge, impávido, um Zeus Tristão dos Santos.
Zeus Tristão dos Santos! Que o portador deste nome não se incomode com minhas considerações. Não o conheço, nada tenho contra ou a favor dele, nem minha intenção é ridicularizá-lo, longe disso. Mas que soberba coincidência! Vá lá que Tristão, referência a um cavaleiro lendário do medievo, personagem de romances e de uma ópera de Wagner (1813-1883), tenha sua própria autonomia. Mas, nesta combinação entre prenome e sobrenome, parece que se converte num sinônimo de “tristonho”. Logo, um Zeus “tristonho” dos Santos, lembra o conto de Heine, o romance de Jean Ray e o filme de Harry Kümel: um deus velho entristecido pelo triunfo de novos santos e por sua queda.
Que o jovem Zeus triunfe em seu exame vestibular. E que me perdoe torná-lo conhecido por uma particularidade da qual não tem culpa ou autoria. Registro-o pela enorme coincidência, involuntária, decerto, entre seu nome e toda uma trama histórica e literária. Poucas vezes se vê a vida imitando a arte com tanta precisão, senão de temas, pelo menos de nomes.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de dezembro de 2008].
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