segunda-feira, 18 de julho de 2011

Polêmica vencida

Há alguns dias, na grande imprensa, ocorreu uma sonora deblateração (“debate” é outra coisa bem diferente, e ele não ocorreu) acerca do livro Por uma vida melhor, e seu suposto desserviço pela educação no Brasil. Confesso que, como a maioria dos brasileiros, eu não o li. Mas, à diferença de muitos que também não o leram, não corri a falar mal dele, a desancá-lo em texto impresso, a pronunciar-me publicamente contra ou a favor do mesmo. Aliás, sempre vejo com certa prevenção este tipo de polêmica acerca de livros didáticos, geralmente levantada por alguns jornalistas ávidos para provocarem alguma celeuma em tempos de calmaria.
Dos textos que consultei esclarecendo tal embrulhada, gostaria de citar o de José de Souza Martins, professor emérito da USP, publicado n’O Estado de S. Paulo, em 22/05 p.p., por lembrar que o idioma falado pela maioria dos habitantes do Brasil, até 1727, era a língua geral, o nheengatu, do qual conservamos ainda o sotaque: “oreia”, em lugar de “orelha”, “falá” por “falar” e “tô” por “estou” – e desafio qualquer purista xiita do idioma a negar, publicamente, diante de sua família e de seus amigos, que algum dia empregou tais variantes.
Já o segundo texto (“perfeito” e “claríssimo”, de acordo com o Prof. Sírio Possenti, da UNICAMP, outra sumidade no assunto), que merece especial menção, é o de minha amiga Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL, o qual transcrevo para quem não teve a oportunidade de lê-lo:

A polêmica provocada pela publicação na imprensa de trechos do livro de Heloísa Ramos nasce da defasagem entre a visão do ensino da língua materna cultivada pelo senso comum e uma pedagogia desenvolvida com base na linguística.
Na condição de ciência, a linguística tem por objetivo descrever a língua, não prescrever formas de realização. O trabalho do linguista passa ao largo dos frágeis conceitos de "certo" e "errado". É fato, porém, que, para os leigos no assunto, o estudo da língua parece se resumir exatamente a esses conceitos.
A pedagogia que orienta a obra afronta, portanto, o senso comum, que se expressa no temor de que a escola vá passar a ensinar o "errado".
A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social – daí ser possível falar em variante linguística.
Embora goze de maior prestígio social, a norma culta é apenas uma das variantes, não a própria língua. A visão distorcida do fenômeno linguístico municia o preconceito linguístico, manifesto na inferiorização social daqueles que não dominam os recursos da variante culta.
Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um.
Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade.” (In O senso comum confunde a língua com a norma culta. Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2011).

Fazendo minhas suas palavras, o senso comum, que deveria ser chamado, na verdade, de “consenso raso”, é como uma ratoeira: fundamentado na tradição (conquanto seja, muitas vezes, uma velharia) e baseado no acolhimento unânime quanto à sua eficácia (o que demonstra comodismo), é estreito em suas funções (só serve para um rato de cada vez), e geralmente se volta ao combate de algo estranho aos seus hábitos (os referidos roedores), ainda que ponha em risco até mesmo quem se vale dele (ou dela: prendendo os dedos de quem a armou): que o digam os fantasmas daqueles que, baseados em seu senso comum, pediram pela libertação de Barrabás...
O problema é que os leigos, em geral, estribam-se no senso comum que, em boa parte emana dele mesmo, e campeia nos editoriais de certas grandes revistas e jornais, fazendo a fortuna de uns tantos articulistas, em seu perpétuo obrar apascentando o rebanho e suas consciências. Os leigos bradam, imploram por verdades absolutas, que caibam em sua visão reducionista de mundo. Não raro anseiam, sofregamente, por exatidões matemáticas invariáveis, à maneira do 2 + 2 = 4 (independentemente do fato de que 2 bananas + 2 maçãs não somarem nada ).
No meu curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca, tínhamos uma colega que se horrorizava com a crítica histórica, fundamentada em documentos, que fazíamos de certos personagens, eventos, discursos, etc. Indignada, ela gritava que estávamos destruindo a história e concluía: “Então tudo que me ensinaram foi errado? Qual é a verdade?”, inquiriu, angustiada. Diante de nosso constrangimento, salvou-nos um professor: “A verdade, minha senhora, encontra-se somente no campo da Teologia e da Revelação, como premissa para quem nelas acredita. Nas ciências, a verdade é valida tão somente enquanto não for refutada, algo o que, muitas vezes, vem mais cedo do que se pensa”.
Concluindo, livros didáticos não são mais “cartilhas”, ou quase “vulgatas”, nos quais não se explica nada, só se deitam regras. Há cada dia eles vêm propondo, muito acertadamente, em minha opinião, discussões quanto à maneira como tal ou qual “verdade” vem sido aceita, divulgada, oficializada. E os mecanismos que a formaram, sua trajetória ao longo do tempo. “República” é uma palavra que se conhece desde a Roma Antiga. Seu significado é o mesmo desde aqueles tempos até hoje? Certamente que não. E por que tal não valeria para o estudo da Língua? Por que não podem ser mostradas as engrenagens que formam um saber e o tornam positivo?
Que venham mais obras como aquela, que motivou uma polêmica vencida por bons argumentos frente à ignorância de quem a fomentou. Temos de abrir a caixa do relógio, para mostrar que dentro dela não está o Tempo, mas apenas uma série de engrenagens construídas por alguém.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2011.].

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