segunda-feira, 18 de julho de 2011

Breve comentário acerca do casamento de Sua Alteza Real, Guilherme de Gales

Todas as nações do mundo têm um hábito, fortemente construído pela tradição, que é o de traduzir os nomes dos reis e príncipes de outras terras, para o correspondente na língua pátria de cada uma delas. O Brasil já integrou estas fileiras, por séculos, mas sabe-se lá por que motivo, deu para, desde umas décadas atrás, inverter o tratamento. Nestas nossas plagas, nunca se falou em Rainha Victoria, ou Kayser Willelm II, ou ainda Czar, ou Tzar Nikolai II, ou Nicholas II, por exemplo. Aqui sempre valeu a regra Rainha Vitória, Kaiser Guilherme II e Czar, ou Tzar, Nicolau II. Regra que perdurou, sobretudo no caso inglês – a última grande monarquia preservada na Europa – com os reis Eduardo VII (1841 – 1901 -1910), Jorge V (1865 - 1911 - 1936), Eduardo VIII (1894 – 1936-1936 – 1972) e Jorge VI (1895- 1936 -1952) – os itálicos se referem ao ano da coroação e, no caso de Eduardo VIII, ao tempo de seu reinado, do qual abdicou, como é vastamente conhecido o porquê e o como.
Porém, quando Isabel II (1926 -1952 -...) foi coroada, ela passou a ser chamada pela imprensa brasileira de Elizabeth II, rompendo, portanto, a tradição. E, a partir daí, seus filhos foram tratados, nas páginas dos jornais e revistas nacionais, pelos seus nomes originais, não mais traduzidos. Um amigo meu, que pesquisa este tipo de coisas, diz que foi uma tentativa de revistas como Manchete e Cruzeiro de fazer uma média com seus leitores. Algo parecido com o que as Caras, etc., etc., fazem hoje em dia, mencionando celebridades em suas manchetes apenas pelo primeiro nome, como se tal expediente fosse capaz de produzir um imediato e próximo contato entre o leitor e seu modelo. Daí lermos até hoje, Príncipe Charles, Princesa Anne, Princesa Diana (vulgo, em alto e bom som Daiana), e, agora, Príncipe William (Guilherme, e se assumir o trono, futuro rei Guilherme V) e sua consorte Kate (Catarina) Middleton (“Medianeira”? “Mediana”? “Medíocre”? “Meridiana é um melhor termo para uma futura rainha). É, aliás, plenamente compreensível o emprego da forma inglesa dos nomes em detrimento de sua tradução: basbaques que são, em geral, os brasileiros, não se sentem à vontade, ou não se consideram dignos de verter, com toda autonomia, os nomes estrangeiros ao vernáculo quotidiano. “Príncipe William é o correto, não pode ser rebaixado a um simples Guilherme”, creio que muitas pessoas pensam. O que é uma pena.
Mas a pior coisa desta marmota que é o casamento deste príncipe britânico, que, em princípio, só diz respeito à corte inglesa, é o fato da transformação do evento num fenômeno mundial de mídia. Vá lá, o espetáculo há de ser bonito – lembrando que escrevo esta crônica e submeto-a à publicação na quinta-feira, antes, portanto, do evento em si – mas, há que se perguntar, o que muda na vida de qualquer brasileiro o fato de Guilherme casar-se com Catarina? Tal episódio inflará os sentimentos monarquistas nacionais a ponto de rompermos com a República, reinstalarmos a Monarquia, para podermos celebrar algo do gênero? Certamente não.
É assustador observar como a grande imprensa – que neste episódio revela como seu papel é muito mais o de entreter o público e jogar pipocas aos macacos do que realmente informá-lo – tem tratado a coisa como uma espécie de folhetim que, por outro lado, nunca se cumpriu da maneira de costume, sujeito a embaraços vários e complicações mútuas. Pois o enlace principesco, ora em tela, deu-se pelo consentimento mútuo de seus envolvidos. Não houve razão de Estado, interesses nacionais, ou qualquer outro aspecto grave relacionado à questão: Guilherminho gostou de Catarininha, e como diria Totò Mattoli, "punto e basta"!
E, portanto, basta de especulações quanto a quem deveria ser convidado ou não para o enlace. Isto é fofoca, não é fato para jornalistas que pretendem fazer jus à sua profissão.
Que coisa mais patética este desfile de especialistas para analisarem o casamento! Que prova mais cabal de nossa exclusão de tal evento, qual o das crianças pobres da Itália do pós-guerra, que por desconhecerem o sabor de um sorvete, eram levadas pelos pais para verem as crianças ricas apreciá-los, mas por detrás das vidraças das sorveterias, e sem fazer muito alarde. Resumindo, que papelão: transformar um casamento numa façanha e um circo numa epopeia!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de abril de 2011].

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