quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Bolívia, os estereótipos e os "opositores"

O que sei sobre a Bolívia é aquilo que todo mundo mais ou menos sabe. De sua história, que fez parte do Império Inca, foi mais tarde ocupada pelos espanhóis, tornando-se uma colônia, e que sua produção de ouro e prata, na época, era de tal maneira colossal, que ajudou a enriquecer a Espanha e despertou mesmo a cobiça de portugueses e nativos do Brasil – os bandeirantes chegaram até as minas de Potosí, mas recuaram. Em todo caso, há fortes indícios de um grande contrabando de prata entre aquela localidade e as terras daqui durante um longo tempo. Mais tarde, sei que o território da futura Bolívia seria libertado por Simon Bolívar (1783-1830) em 1825, e que o nome do então nascente país homenageia aquele caudilho venezuelano. Sei também que perdeu seu litoral para o Peru em 1881. E que de 1899 até 1903 tivemos problemas de fronteira com ela, uma guerra de pequeno alcance, a qual nos garantiria a posse do Acre. Permeando tudo isto, de sua Independência até os anos 1981, que é o país sul-americano detentor do recorde de golpes de estado: 193 ao todo.
De sua geografia, além de que tivera seu litoral tomado, como já foi dito, o fato de possuir uma diversidade ecológica notável: os Andes e os altiplanos – onde se encontra parte do Lago Titicaca, o mais alto do muno –; uma larga facha de floresta amazônica; parte do Chaco (equivalente ao nosso Pantanal); e uma terras férteis, mais baixas, junto à nossa fronteira. E por tais características, seria possível conhecer algo sobre sua produção econômica: além do ouro e prata já mencionados, borracha e batatas. Para muita gente, até se saber que o país tinha reservas de gás natural, a Bolívia era um país que só produzia artesanato e cocaína, os quais, de fato, produz. De alguns anos para cá se conhece, também, a força do agro-negócio, na região atualmente em polvorosa.
Quanto ao aspecto social, além da infinita pobreza de seus índios e de um ínfimo, minúsculo, número de privilegiados um pouco menos índios, grosso modo a Bolívia era vista como um país de pouca, ou nenhuma tensão racial. Acreditava-se que lá todos usavam ponchos de lã de alpaca ou de lhama, uns gorros também de lã que se prendem por cordões no queixo, e tudo muito colorido. E quem não usava poncho, vestia farda. Mas, independentemente do traje, eram todos índios. Os fatos mais recentes provam que não. Há brancos no país, muito ricos. E uma imensa maioria de nativos paupérrimos, que buscam nosso país não somente se apresentando em conjuntos musicais típicos nas feiras e praças, mas que são também empregados – semi-escravos melhor seria dizer – nas confecções de roupas dos coreanos, no Bom Retiro e adjacências. Daí as pechinchas da Rua José Paulino...
Já no que diz respeito à sua cultura, meus conhecimentos são muito esparsos. Li e já vi imagens sobre remanescentes das antigas missões jesuíticas naquele país, muito belas, diga-se, em cujo entorno vivem bons artesãos. Isto, para não mencionar os já referidos grupos típicos de música. Nunca ouvi falar, entretanto, de um só escritor boliviano de renome, ou intelectual de peso, salvo um ou outro arqueólogo. E da vida universitária naquele país, tudo o que sei é que possui uma faculdade de medicina na qual é facílimo para nela se entrar e levíssimo até dela se sair. E que alguns brasileiros tentam a sorte por lá, depois de rejeitados por todas as escolas de medicina de nosso país.
Quanto ao mais, o que sei, que é o mesmo que a maioria sabe, lemos nas páginas dos jornais, nos últimos anos, nas revistas, assistimos pela televisão. E foi por meio desta, aliás, pelas imagens que vi nesta semana, que pude notar certas peculiaridades da onda de protestos que tem abalado certas regiões do país vizinho. Não entro no mérito de quem está com a razão, meus conhecimentos sobre o assunto não me autorizam a tal.
Entretanto, o que chamou minha atenção é que as imagens dos tais “protestos contra o governo” pareceram-me, francamente, cenas de mera baderna e saque, isto sim. Atacar prédio público, eu entendo. Mas desde quando “oposição política” ataca vitrine de loja? Quem já viu “opositor”, enquanto se lança ao ataque de uma instalação do governo, carregar nas costas um aparelho de televisão, do qual pendia ainda uma etiqueta de preço? Ou sacos de gêneros alimentícios? Por que precisariam disso, se aquela, como dizem os seus líderes, é a região “mais rica do país” ? Puro saque, volto a dizer. Nunca vi manifestação com tal cara de ser orquestrada por outros que ali não estavam, do que aquelas mostradas nos telejornais. Nunca vi “populares” com tanta cara de “jagunços” quanto ali. Onde estavam os líderes “brancos” da revolta? Ou claros membros da sociedade civil, com seus uniformes de enfermeiros, digamos, ou de escolares, carteiros, algum advogado de gravata que, na saída do trabalho, aderisse, movido por justo “fervor patriótico”? Nada. Só uma jagunçada pilhando lojas. Que bela “oposição” tem aquele país! Quanta “legitimidade”...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de setembro de 2008].

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