quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Zêuxis, Parrásio e o futebol olímpico

Há uma fábula de que gosto muito. Plínio, o Velho (23 d.C. – 79 d.C.), conta-a como se história fosse. Mas, cá entre nós, todos seus elementos parecem muito mais morais do que reais. Mas vamos a ela.
Segundo Plínio, Zêuxis, de Heracléia (c. de 464 a. C.) e Parrásio, de Éféso (?), depois, de Atenas, os dois maiores pintores daquela verdadeira Idade de Ouro da Grécia, aceitaram um desafio cujo objetivo era provar qual deles era o maior artista. O primeiro era altamente conceituado, produzia para um extenso público, era o queridinho de todos, ainda que Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C) o criticasse, ainda que batesse em leão morto. Já Parrásio, um artista conceituado já pelos anos de 399 a.C., tinha a sua clientela bem menor, ainda que entusiasta. Quando digo que tudo cheira à fábula, todos podem compreender porquê: a cronologia não se encaixa muito bem. O tempo de vida de cada um não se concatena como deveria. Mas retornemos à disputa dos artistas.
Zêuxis realizou sua obra e cobriu-a com uma cortina. Na hora marcada para a avaliação, abriu-a e, por detrás dela, havia a pintura de uns cachos de uva, de tal forma realista, que um bando de passarinhos invadiu o espaço, onde se dava a contenda, para bicar aquelas frutas. Não é preciso dizer que o aplauso da audiência foi imenso.
Com o gosto do triunfo na boca, o artista pediu a Parrásio que abrisse a cortina que cobria sua obra e, assim, a revelasse. Mas este, por sua vez, não esboçou qualquer movimento. Então Zêuxis percebeu a maestria de seu rival. A cortina, na verdade, era a pintura. Não lhe coube outra saída que não proclamar: “Eu pude enganar os pássaros, mas Parrásio foi capaz de iludir o próprio Zêuxis”.
Percebem, portanto, qual o desfecho do duelo. Mas Zêuxis sempre será mais lembrado do que Parrásio. E injustamente, diga-se. Ele será, eternamente, o modelo de alguém de sucesso que decai. Já quem o depôs, ironicamente, afunda no esquecimento. Uma injustiça, torno a dizer. Mas somos assim, mais defensores das causas perdidas do que das triunfantes.
Tudo bem, mas o que isto tem a ver com o futebol olímpico?Pois bem, tem tudo.Zêuxis é representado por nossa seleção masculina, a “canarinha”, como dizem mitos, ou “canalhinha”, como querem outros. Parrásio é nossa seleção feminina, muito mais eficiente, e mais bela de se ver, por motivos óbvios, do que aqueles machos, peludos, mercenários e incompetentes. Um time de belas moças que superou seus confrades esportivos, em tudo que é possível e imaginável. Sua elegância foi patente, coisa que não estamos acostumados a ver por parte dos nossos cultuados, e semi-endeusados, arranca-tocos.
A tristeza disto tudo é que pouco se falará do belo empenho das moças, comparativamente às inúmeras laudas que serão escritas, lamurientas, acerca de nossos pernas de pau.
Seria a vingança de Zêuxis? Não, creio que se trata da apenas estultice da imprensa e do público nacionais. Isto de deixar à míngua os Parrásios, não é novo. Que se divirtam com os brilharecos, parecem todos insinuar. Mas até quando?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de agosto de 2008].

Nenhum comentário:

Postar um comentário