domingo, 26 de julho de 2009

Sebos e histórias – Parte III: o reencontro com um amigo

Esta história aconteceu há quinze dias, pouco mais ou pouco menos.
Minha mulher procurava, havia muitos anos, um livro de poesias do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Ela tivera um exemplar, que emprestara certa vez a um amigo, o qual jamais lhe devolveu o livro. Quem gosta de ler já passou por isso. Temos um livro de que gostamos, o emprestamos a alguém em quem confiamos, e eis que um dia perde-se tanto um quanto outro. Mas, no caso dela, o exemplar era sobremodo precioso por ter sido um presente de uma pessoa muito querida e que lhe incentivara no hábito da leitura na adolescência. Em suma, não era só o conteúdo que lhe era caro, havia todo um aspecto afetivo envolvido.
Desde que me contou a história de como o perdera, passei a procurá-lo em todo sebo, saldão de livros ou livraria que visitava. Encontrei várias edições, mas nunca aquela de que me falava. E que fiz questão de que descrevesse. Era, segundo ela, um livro de capa vermelha, com letras brancas e pretas e nenhum outro enfeite, fotografia do autor, ilustração, nada. Na capa, somente o nome do escritor e o título: Bertolt Brecht. Antologia Poética. E, para piorar as coisas, lembrava-se de que fora publicado por uma editora pequena e pouco conhecida. Como disse, procurei por anos o livro, e encontrei as mais variadas edições e versões da obra. Uma de capa amarela, outra amarela e vermelha, outra branca, outra ainda com o retrato do autor, outra com ilustrações. Mas nada daquela que ela queria.
Eis que, finalmente, encontrei um livro, no sebo recém aberto de Leme, na rua Newton Prado. Mal acreditei quando o vi. Sim, só podia ser aquela edição a que tanto buscava. Comprei-a imediatamente.
Voltando para casa, tirei-o da pasta, escondi-o atrás das costas e pedi à minha mulher que estendesse as mãos e fechasse os olhos. E entreguei-lhe o livro. Quando ela reabriu os olhos e viu-o em suas mãos, emudeceu, engoliu em seco e lágrimas correram por seu rosto. Estava comovida, exultante de felicidade. Fiquei até um pouco aborrecido, afinal, já tinha lhe dado outros presentes muito mais caros e raros e a reação, em tais ocasiões, não chegara aos pés da que manifestou diante daquele livro.
Mas, claro, lembrei-me, aquele não era só um livro. Era um verdadeiro amigo com quem se reencontrava. Tanto isto era verdade que bastou folheá-lo e o volume, quase naturalmente, abriu-se na página onde estava a poesia preferida por ela, Perguntas de um operário que lê, que, como soube, foi lida por ela, inclusive, em seu discurso de formatura no colegial.
E eis que aquele seu amigo, de papel, tinta e cartolina, retornava ao seu convívio como se estivesse separado por uma longa ausência. Pergunto-me como há pessoas que ainda dizem não gostar de ler. O quanto perdem com isto! Até a possibilidade de um reencontro afetivo, e inesperado, como o que ela experimentou. Livros são, verdadeiramente, grandes amigos. Sempre o soube. E fiquei feliz naquela tarde, quando minha mulher confirmou-me, de forma tão clara e tão bela, esta verdade.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de junho de 2009]

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