domingo, 26 de julho de 2009

O Fantasma pálido

É quase impossível acrescentar alguma coisa a mais ao muito que foi dito sobre a vida e a morte de Michael Jackson. Nos últimos dias, em qualquer meio de comunicação, discutiu-se sua música, seus escândalos, sua difícil infância, as alterações em sua aparência, sua situação financeira, etc. Tudo, absolutamente tudo, foi vasculhado, exposto, comentado. Se o seu corpo passou por duas necropsias distintas, sua história pessoal foi retalhada em mil peças, exibidas com a rudeza das carnes nos ganchos dos açougues.
Mesmo assim, não posso me furtar a tecer alguns breves comentários quanto à vida do astro. Em primeiro lugar, que cabecinha fraca ele tinha, para não dizer pior. Aquilo de morar num parque de diversões, francamente. Até a arquitetura lembrava a da Rua Principal dos parques da Disney, réplica de tempos dourados, como os enxergam os norte-americanos mais conservadores. Não é contraditório para um símbolo da rebeldia, como foi dito, querer viver em supostos dias melhores, nos quais, todavia, se vivesse neles, tudo o que ele foi, fez ou teve lhe seria negado? Quem quiser saber como era a vida de um negro nos EUA do início do século XX – a época dos sonhos dos reacionários – leia o romance Ragtime, de E.L. Doctorow. Em segundo lugar, fico pensando como alguém pode ser chamado de inteligente, gênio, o que quiserem, sendo que deu aos filhos os nomes de Prince Michael e Prince Michael II.
O que eu gostaria de comentar com mais cuidado acerca deste assunto é que, em minha opinião, Michael Jackson envelheceu mal. Não digo só física e mentalmente – há quem afirme, por outro lado, que neste último campo ele sequer cresceu: pensava e comportava-se como uma criança. Quando digo que ele envelheceu mal é porque sua figura acabou por demais caricata. Reconheço que muitas de suas coreografias e músicas foram inovadoras em seu tempo. Mas revendo e tornando a ouvir algumas delas, pareceram-me por demais datadas: tiveram seu sentido em sua época, mas hoje, na minha opinião, têm um ar muito afetado, amaneirado, pouco natural, quase mecânico. Vendo algumas cenas de espetáculos, clipes, etc., tive a impressão de assistir a uma grande marionete acionada por cordas invisíveis. Que se move e se agita com presteza e eficiência tão demasiadas que seus movimentos sequer parecem humanos. Noutros momentos, lembravam algo completamente falso e exagerado. Não como as imagens agitadas de uma comédia do cinema mudo dos anos 1910 ou 1920, mas uma paródia moderna daquelas imagens, muito mais frenética que a versão original e, portanto, falsa. Da mesma maneira, seus trejeitos, poses e gesticulação, de evidente conotação sexual, vão perdendo o seu sentido na medida em que ele envelhecia e sua figura, cada vez mais anódina, sugeria justamente a supressão de toda sexualidade. Algumas vezes, tive a impressão de assistir a uma dança lasciva, sim, mas praticada por um eunuco: ou seja, um imenso paradoxo entre a intenção e a natureza.
Em suma, acho que ele retirou-se de cena no momento certo. E que isto sirva de consolo aos fãs. Caso realizasse a longa temporada de espetáculos prevista, e fracassasse, sua imagem ficaria arranhada para sempre. Caso triunfasse, talvez não fosse tanto pelos seus méritos, mas sim pela boa vontade de seus admiradores, saudosismo, curiosidade de assistir a uma relíquia dos anos 1980 ainda em atividade. Mas, em todo caso, a ilusão de um eventual sucesso é sempre melhor do que a dureza da realidade e os riscos que ela nos apresenta.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de julho de 2009]

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