domingo, 29 de agosto de 2010

Zé Chirico, o argentinito e popular, e sua trupe

O defuncto governador de São Paulo, José Serra Chirico, deu agora, em sua campanha, de anunciar suas origens humildes, um aspecto nada desabonador na vida de qualquer um, pelo contrário, mas que o mesmo parece ter omitido o quanto pôde e quis, e que só agora vem à tona, e a público. Tudo isto porque está interessado em pegar uma carona – deve ser no bagageiro – de Lula: se este tem sua biografia de homem humilde como um fator relevante em seu prestígio, o Chirico resolveu dizer que também é de extração baixa, trabalhador, filho de um vendedor de frutas no Mercado da Cantareira: o Zé, em suma, em mais um lance demagógico.
Tínhamos já conhecimento de sua origem familiar e, inclusive, dela tratamos numa crônica publicada em 17 de setembro de 2005, intitulada Uma idéia do Chirico, na qual fizemos alusão a seus pais. Relendo-a, aliás, dei-me conta da estranha situação de seu nome. Se sua mãe chamava-se Serafina Chirico, e seu pai Francisco Serra, por que a Folha de S. Paulo grafou o nome do então prefeito paulistano, na edição de 1º de janeiro de 2005, como José Serra Chirico? Estranho, muito estranho...
E já que o supracitado Chirico passa por momentos de confissões biográficas quanto à sua origem, não entendo por que omite o fato de ser neto de uma argentina – Dona Carmela – e de que o portunhol foi a primeira língua que ele aprendeu (informação que consta na página 31 do livro O Sonhador que faz: A vida, a trajetória política e as idéias de José Serra. Entrevista a Teodomiro Braga. Rio de Janeiro: Record, 2002. 307 p.:il). Seria preconceito com nossos vizinhos e hermanos? Ou medo de ser tido como um argentinito? Ou ambos, pela sua omissão de tais informações? Nada tenho contra os argentinos, pelo contrário. São eles, em geral, cultos e cosmopolitas. Quem parece ter algo contra eles é o Chirico, que de tão bairrista, tão paroquial, tão natural da Mooca e palmeirense, tenta negar seu passado quase bonairense, seus laivos de um quase torcedor do Boca Juniors. Será que nesta nova vertente de sua campanha, o supradito Chirico, para provar que é humilde, falará também errado, trocando o jargão dos estádios, sua tônica comum, por um portunhol arrevesado? Veremos.
Pergunto-me se ele contava essas histórias nos sarais suntuosos que frequentava, cortejando a nata e a borra da sociedade paulista. Tenho lá minhas dúvidas. Ressuscita-as por mero oportunismo político: que é de seu costume, aliás, sempre saltando de um cargo para outro. Pois é popular somente quando lhe convém. E elitista , com pretensos fumos nobiliárquicos, em todo o resto, com seus ares de sócio do Clube São Paulo – no qual só entraria, sem os cargos que ocupou, no máximo, como contador.
Mas se “ a César, o que é de César”, e a Chirico, o que é de Chirico, e como ele, apesar de sua guinada popular, já é cachorro morto, no qual não se bate mais, não batamos mais, portanto, em sua carcaça. Pois o que sobremodo inquieta a qualquer paulista de bons princípios é a altíssima expectativa de voto em Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu, o rei dos presídios e senhor do sucateamento da Segurança e Educação no Estado de São Paulo.
Assistindo ao debate dos candidatos a governador de nosso estado, foi possível verificar que todos os proponentes ao cargo, da oposição, tinham propostas muitíssimo melhores do que Alckmin. Vimos, por suas exposições, o superfaturamento de obras nas quase eternas gestões do PSDB frente ao estado, o descalabro nas áreas sócias, a diminuição de empregos, o êxodo das empresas, os contratos maravilhosos para as empresas administradoras de rodovia e seus altíssimos custos para quem tem que transitar por elas, a virtual privatização da Saúde e da Educação – quem tem dinheiro não usa hospital ou escola pública, salvo para se cadastrar no ENEM, que é do governo federal, frise-se. E o carinho destinado aos funcionários públicos estaduais é vergonhoso: os delegados de polícia de nosso riquíssimo e pujante estado, locomotiva da Federação, recebem menos que os do paupérrimo Piauí.
E ainda assim o dito cujo quer ser eleito, e provavelmente o será, com folgadas margens de votos, no que será a apoteose do picolé de chuchu!
Dizem que o candidato Álckmin é ligado à Opus Dei, poderosa organização religiosa que se situa à direita do Papa, e mais reacionária que o Sumo Pontífice em seus momentos de mau humor. Tanto que os membros da dita organização se proclamam pertencentes ao Opus Dei (“aparelho de Deus”) em detrimento de um nome mais amplo, que seria “a obra de Deus”. Vejam os senhores com quem estamos lidando: gente que procura “aparelhar” o Estado, servindo-se deste para a ocupação de cargos advindos daquele prelazia, e copiando e invertendo um dos vieses do comunismo mais xucro, o aparelhamento, só que travestido, metido numa batina mal-costurada e pretensamente católica. Um Estado, declaradamente laico, pode admitir uma coisa destas? Os evangélicos, por outro lado, aceitam tranquilamente as pretensões deste senhor e do grupo que ele representa?
Pobre eleitorado paulista, que insiste no erro, na burrice, no continuísmo e na mesmice, aceitando representantes e governantes de quinta categoria. Iguala-se aos currais eleitorais do sertão nordestino, que tanto depreca. E, por isso, é capaz de dividir o mesmo destino daqueles: viver num estado atrasado, e achar ainda que tudo está bem.
Viva Alckmim! Viva o Opus Dei! Viva o comodismo e o atraso! São Paulo agora saberá como é viver no vicioso e retardatário Nordeste, no que ele tem de pior! Porque o Nordeste tem coisas ótimas, também, mas não as teremos com mais um mandato de caciquismo peessedebista. Ave, Alckmin! Ave, eleitorado paulista! Os que vão morrer, de vergonha , vos saúdam!

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 21 de agosto de 2010].

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