Há décadas, para dizermos pouco, muitos alegam que nenhuma história, enquanto trama, narrativa, é essencialmente original.
O venerável patriarca Noé, o do Dilúvio, descrito no Livro de Gênesis, segundo muitos sérios estudiosos, ninguém mais seria que uma versão hebréia de Utnapishtim, herói sumério da Epopéia de Gilgamexe, ao qual suscederam quase iguais aventuras. Pois lembremos que os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, já constituíam um povo poderoso em 3.000 a.C., e os hebreus só entraram para a História quase mil anos depois: mais ou menos como os índios, frente aos europeus, depois de Colombo – as semelhanças cessam aí, pois assimilamos o Gênesis e não a descrição da criação do mundo segundo os tupis.
Em Homero, através da Ilíada, temos a origem de todas as tramas de guerra, duelos, aparecimento do herói para elucidação do enredo, rapto da mulher amada para a constituição de um novo casamento baseado no amor, lealdade filial, loucura causada pela arrogância, redenção da alma pela morte, e mais um sem fim de situações que não caberiam em milhares de crônicas como esta. O mesmo se aplica a também homérica Odisséia. E não se trata apenas do Ulisses, a inventiva apropriação do tema escrita por James Joyce no começo do século XX: até a mais ínfima musiquinha que trate dos percalços de um homem, da saída do trabalho, até chegar à sua casa, com as tentações que lhe ocorrem entre uma e outra, quando finalmente encontra o amor de sua mulhar – ela também vítima de certas tentações – traz, ainda que sem saber, incontáveis ecos do épico homérico.
Quem é fã de romances policiais, que segue avidamente pequenas pistas para a elucidação do crime, saiba que igual procedimento foi adotado por pelo rei Édipo, na tragédia de Sófocles (497-405 a.C) e, com resultados menos desastrosos, por Zadig, protagonista da novela de mesmo nome escrita por Voltaire (1694-1778).
Tudo isto nos vem à mente quando assistimos a, pelo menos, uma semana da telenovela Global das vinte e uma horas.
O telenovelista Sílvio de Abreu é um hábil combinador de enredos. Seu texto possui, evidentemente, grandes qualidades – diálogos rápidos, pouca ou nenhuma embromação, personagens que, em grande parte, param de pé. Por outro lado, suas citações de temas cinematográficos, sobretudo norteamericanas, às vezes parecem meio excessivas. E a atual telenovela das nove horas atingiu o ápice nesta questão. Estão ali misturadas, com pequenas nuanças, nada menos do que, à primeira vista, três filmes.
Há incontornáveis traços de Sabrina, filme de 1954, fundidos e ampliados. Se, na trama original, era a filha de um chofer que arrebatava o coração de dois herdeiros (um, playboy, outro executivo), na telenovela atual, a jovem se torna um homem, que é o executivo, a disputar com seu quase irmão (ou meio irmão?), o amor de “J. Pinto Fernandes”, perdão, de uma moça, mas que, como na Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade, “não tinha entrado na história”, não a original.
Por sua vez, o playboy rejeitando a jovem mulher (evidentemente arrasado pela perda de um amor juvenil e do contato com a filha que daquele resultou), ainda mais andando de muletas, remete à Gata em teto de zinco quente, de 1958. Mesmo que os atuais protagonistas naõ sejam páreo para Elizabethe Taylor no auge da beleza ou do jovem Paul Newman. É até covardia a comparação, mas os indícios estão lá.
Existe também o envolvimento de um jovem com uma mulher mais velha e, posteriormente, sem que o mesmo saiba, com a filha daquela. Quem nunca assistiu a A Primeira noite de um homem, de 1967, certamente deve achar tal circunstância uma novidade e um assombro...
Como o telenovelista é culto, e a trama envolve alguns personagens italianos, também a cinematografia daquele povo entra na história. De uma maneira um tanto quanto forçada, é verdade, porque os italianos de seu folhetim se comportam da mesma maneira que personagens dos anos 1950, pouco mais ou pouco menos, do chamado neoralismo italiano.
E, também, ali existe um carteiro apaixonado que rouba as cartas de seu amor (O Carteiro e o Poeta, de 1995) e uma vaga referência aos Ladrões de Bicicleta, de 1948: no caso brasileiro atual, o suposto alvo de uma injustiça não procurará roubar uma bicicleta, mas a fábrica que as produz. Desta vez, entretento, nesta trajetória, não age o vindicador por desespero, mas por cálculo: à semelhança, difusa, de um arrivista, vagamente aparentado (abram os olhos!) dos poderosos, como se viu nos Deuses Malditos, de 1969 – este filme, talvez, uma das chaves para muitas das cenas, temáticas e personagens da telenovela.
Tal procedimento não diminui, muito, a qualidade da trama. Mas, utilizado em demasia, nos faz duvidar um tanto dos méritos do autor. Não há nada errado em reaquecer histórias esfriadas pela mudança do paladar dos tempos. Só que muitas delas estão ainda mornas, ou mesmo quentes para muitos. Pois, mais um pouco, o que teremos? Casablanca ambientado em Casa Branca, no lugar dos alemães, os mineiros, e o americano vivido por Humphrey Bogart convertido num acreano emigrado, dono de um cabaré, durante a Revolução Constitucionalista? Pode até ser divertido, mas, convenhamos, muito menos do que original. Em todo caso, acredito, serviria muito bem para uma minissérie, nos moldes da global televisão...
P.S. Se alguém encontrar mais referências cinematográficas, concretas, na trama desta telenovela, mande-as para o meu e-mail. Se bem embasadas, o colaborador receberá a menção de seu nome neste espaço – salvo se não o queira – e a de seu achado. Além de um sorvete de uvaia, quando chegada a estação.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].
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