Um amigo convidou-me para visitar, recentemente, uma feira internacional de móveis ocorrida em São Paulo. Tratava-se de um evento fechado, destes dos quais só participam profissionais do setor, como era o caso de meu anfitrião. Curioso que sou, e mais ainda afeito a uma peta, fui até lá, passando-me por alguém do ramo, no que meu confrade ajudou. É muito fácil, aliás, conseguir tal coisa: basta alguém de dentro colaborar e despeja-se um ônibus inteiro de penetras (uma categoria a qual, pela primeira vez em minha vida, posso dizer que pertenci, momentaneamente). E, assim, por aqueles corredores – vazios – passeei qual um comprador atacadista, empresário moveleiro, decorador ou arquiteto, mal ocultando minha diversão por saber-me um intruso ali.
Como nada do que era exposto naquele recinto era passível de ser comprado individualmente, flanei por lá e cá na busca de alguma coisa que pudesse me interessar, menos como objeto de compra e mais por sua beleza de acabamento, ou proposta de decoração, ou, em suma, para saber o que as fábricas de móveis fazem que pudesse interessar a uma pessoa afeita a certos valores estéticos. Mas, para a minha surpresa (tratava-se de um evento internacional, com dúzias de expositores!), a curiosidade foi cedendo espaço, metro a metro caminhado ali, à mais completa decepção. E vejamos por que.
Logo à entrada, havia um mostruário com os móveis que ganharam um prêmio interno (criado pelos organizadores) para avaliar o melhor design de uma cadeira, mesa, etc., nos últimos anos. Desconsiderei os premiados de dois ou três anos passados e me concentrei no vencedor de 2010. Pensei: “se este móvel ganhou um prêmio tão importante concedido por profissionais da área, o mínimo a se supor é que boa parte do que adiante estará exposto faça alguma referência à obra premiada”. Qual o quê! Mais uma vez deparei-me com um daqueles casos já mencionados de um “discurso loquaz” lançado a uma “plateia surda”. O “gênio de ontem” não deixou descendência hoje. E, portanto, restou-me vagar por uma sucessão, quase infinita, de cópias de cópias, que seguem tendências, e passam longe de ideias ou conceitos.
Entendo que alguns setores da indústria e do comércio sejam conservadores. Quem haveria de investir num novo e radical produto se o tradicional (ainda que este seja só uma voga) venda bem? Que se faça más de lo mismo. Porque sai, tem compradores. E agrada a todos. Mas não a mim.
Invejo algumas gerações anteriores à minha, que iam a uma loja de móveis e compravam, por exemplo, uma sala de jantar. Naqueles tempos, uma compra desta não se resumia à mesa e às cadeiras, mas incluía um aparador, um armário, não raro um bufê, uma cristaleira, além de um carrinho de serviço. De forma que se montava um ambiente da melhor maneira que se podia, numa tacada só, e no mesmo estilo. Por outro lado, de uns tempos para cá, valoriza-se a escolha aleatória de tais objetos, da qual não discordo totalmente.
Mas, convenhamos, nos dias de hoje, dá um trabalho miserável, e cansativo, ir de seca a meca, tentando descobrir um armário, console, ou o que for, que combine com a mesa de jantar. Ou que nem sequer combine, e que seja, por sua vez, diferente. O trabalho é o mesmo... E nisto perdem dinheiro os fabricantes de móveis. Pela concorrência do antigo ou do aleatório que suprem as carências de ocupação de espaço? Exatamente. Se o objetivo é vender o máximo para as massas, que se passe um projeto completo. Cabal. Que não se abram tais brechas à concorrência. Mas a visão dos empresários de certos setores é muito obtusa. E não esperemos deles tais reflexões. Às voltas, que vivem, com acrobacias contábeis e malandrices fiscais, têm eles pouco tempo para pensarem na produção. Melhor é lesar o fisco, “meter o pau” no governo (seja ele qual for), arrochar os empregados e seguir fazendo o mesmo que sempre foi feito. Seguir a tendência: fabricar cópias de cópias, por que assim o mercado quer...
Mas qual mercado, cara-pálida? Amanhã estaremos comprando noutro fornecedor, noutros meios, noutras fontes do belo, contra a mesmice de praxe que nos empurram goela abaixo.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de agosto de 2011].
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