quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Uma nova face do terror ou mais um maluco rancoroso?

Os atentados terroristas, tal como os conhecemos, foram criados no Ocidente no século XIX. Perpetrados por anarquistas, nacionalistas e nihilistas – radicais russos que, frente a um estado tirânico, preconizavam uma redução ao “nada” (nihil, em latim) de tudo aquilo que eram contra, para, enfim, partindo do zero, poderem construir o que achavam justo – os ataques se caracterizavam por alguns tipos clássicos de ações: o assassínio puro e simples de uma autoridade, de forma pessoal (tiro ou facada) ou de maneira pública (bomba); havia também alguns casos, raros, de ataques a certos símbolos do poder. Assim foi a tentativa de explosão do Observatório de Greenwich, cuja destruição, alegoricamente, seria também a do horário internacional (e do trabalho) relacionado ao local. Um episódio maravilhosamente aproveitado, e adaptado, num romance (O Agente secreto) do sempre excelente escritor Joseph Conrad (1857-1924).
É claro que o assassinato de tal ou qual líder, como tentativa de se impedir esta ou aquela política, é tão velho quanto o mundo. Marco Bruto (85-42 a.C.) – o assassino de Júlio César (100-44 a.C.) e de sua intenção de se tornar Imperador – gostava de ser relacionado a Tarquínio (535-509 a.C.), um seu antepassado, responsável ele próprio pela morte de um rei, Sérvio Túlio (séc. VI a.C.). O profeta Maomé (c.570-632) também escapou de umas tantas ameaças contra a sua vida. Houve também a Ordem de Assassinos, uma seita fundada por Hassan ibn Sabbah (1034-1124), mais conhecido como O Velho da montanha, que eliminava as autoridades contrárias aos seus objetivos, através de uma rede de fanáticos suicidas. No Renascimento, é impossível compreender a política (civil e papal) da Itália, sem ignorar o homicídio de pessoas ilustres como prática de poder. No século XVII, houve um católico, Guy (ou Guido) Fawkes (1570-1606), membro da chamada “Conspiração da Pólvora” (Gunpowder Plot) que pretendia assassinar o rei protestante Jaime I (1566-1625) da Inglaterra, juntamente com todos os membros do parlamento, durante uma sessão em 1606, através da explosão do prédio onde aqueles senhores se encontravam, visando, com tal ato, a iniciar um levante católico. Um episódio tão terrível para os ingleses que geraria toda uma série de cantigas populares, e até curiosos poemas escritos em latim por John Milton (1608-1674) – o autor do magistral Paraíso Perdido – iniciados por In Proditionem Bombardicam. Guy, ou Guido, Fawkes, ainda é tão execrado na Inglaterra que, no dia 5 de dezembro de todos os anos, desde a sua execução em 1606, um boneco parecido com ele é malhado e queimado, qual um Judas em sábado de Aleluia. E, por fim, poderíamos, tratar ainda da eliminação física de líderes políticos mencionando os casos de Marat (1743-1793), Robespierre (1758-1794), os atentados, infrutíferos, contra Napoleão Bonaparte (1769-1821), etc.
Mas voltando ao modelo de terrorismo moderno, tal como o conhecemos no século XX, sempre pudemos dizer, até recentemente, que ele era perpetrado ou por fanatismo, ou por pragmatismo/oportunismo, ou ainda por uma espécie de idealismo torto. Isto, sem falar nos atos de um ou outro tresloucado, que por sua natureza errática escapam de qualquer classificação possível. Um exemplo de fanatismo temos no caso, fortemente simbólico, do ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque. De pragmatismo/oportunismo, no incêndio do Reichstag, de Berlim, em 1933: os nazistas pondo fogo no Parlamanto burguês e transferindo a culpa do atentado aos comunistas, para consolidarem seu poder e terem mais um espantalho (vermelho) para assombrar o povo e as classes dirigentes. E no que se refere ao idealismo torto, servem de lição as mortes do Arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), estopim da Primeira Guerra Mundial, e do Mahatma Gandhi (1869-1948), início de uma corrupção sem par na Índia até pouco tempo atrás. Triunfaram as causas por trás de tais atos? Não. Daí falarmos, justamente, em idealismo torto. E, acrescente-se, mal sucedido, dos pontos de vista teóricos e práticos.
Já no que se refere ao massacre e ao atentado à bomba na Noruega, estes surpreendem por sua absoluta falta de paixão (fanatismo, idealismo torto) e de razão (pragmatismo/oportunismo). Pois não há uma religião ou ideologia consistente por trás de tais atos. Nem, por outro lado, um grupo político, minimamente coeso, ao qual se vincule o agressor. Na aparência, tudo o que parecemos ter à nossa frente é um sujeito tresloucado que se fundamenta em supostos valores rasos e reacionários – esoterismo e xenofobia de internet – mas que, ainda assim, foi capaz de um êxito surpreendente em sua ação infame. Fica a pergunta: um doidivanas seria capaz de tudo aquilo? Um maluco seria suficientemente hábil para lograr tais resultados? É sábido que todo lunático é metódico e que, frequentemente, há método na loucura. Seria este o caso do norueguês? Não acredito.
Uma das coisas que mais me espantaram frente ao episódio foi a face serena do agressor depois de capturado. Não havia ódio em seu semblante, nem laivos de heroísmo, ou ares de mártir de uma causa. Sua expressão era a mesma de quem acaba de realizar a faxina da casa, ou arrumação de um armário. Fria, seca e, ao mesmo tempo, plácida. Quase indiferente.
Será este o novo perfil dos terroristas? Ou uma nova modalidade de terrorismo, banal, aleatório, pueril, e, portanto, indecifrável, até que se manifeste em sua violência? Devemos começar a identificar, rastrear, traçar perfis de cada maluquinho da rede que se proclama seguidor, ou continuador, dos Templários, ou de qualquer outro grupo conspiratório, real ou imaginário, como o fez o terrorista da Noruega? Confesso que não sei. O que sei, ou antes, creio, é que gente de bem evita grupelhos: é pluralista, ampla, não sectária e, portanto, longe de um discurso político ou religioso que exclua e hostilize todos aqueles que não comunguem, ou supostamente não possam comungar da mesma fé ou princípios.
Se há alguma coisa útil que possa ser dita, em todos os tempos, é que o respeito (platônico) ou o amor (cristão, e decorrente daquele conceito platônico) ao próximo, apesar das diferenças entre uns e outros, deva ser, acredito, a suprema ordem a governar o mundo. E não falsas teorias de superioridade raciais, patrióticas, religiosas, etc. Tudo isto se dissolve no nada, ou no todo. Mas se dissolve, mesmo assim, ao fim das coisas. O problema é o meio disto, no qual pode vicejar toda sorte de criminosos da humanidade pretensamente fundamentados em supostos valores que valem menos do que nada.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2011].

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