quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Volta dos mortos-vivos, mais uma vez

Nos anos 1980, foi exibido um filme de terror com o mesmo título desta crônica. Ou, melhor seria dizer: esta crônica que o leitor tem em mãos leva o idêntico título de um filme dos anos 1980. Não o assisti, e me parece que foi uma bobagem. Sua trama tomava como referência uma produção dos anos 1960, A Noite dos mortos-vivos (Night of the living deads, EUA, 1968), de George A. Romero, independente e que foi bastante cultuada pela crítica. Era uma trama envolvendo zumbis, e que foi aclamada à época como uma velada crítica à falta de bom-senso e ao comodismo dos norte-americanos de então, que não pareciam mais pensar por suas próprias cabeças e que seriam contrários a quem assim procedesse. Para quem não lembra o que são zumbis, tratam-se estes de criaturas amaldiçoadas, num estado entre a vida e a morte, pertencentes ao folclore caribenho – especialmente haitiano. No cinema, tornaram-se criaturas em estado de decomposição que se alimentam de carne humana viva, infectando suas vítimas com o mal que sofrem: vagar, sem força de vontade, boçalizados, em busca de comida. A temática dos zumbis nunca fez muito sucesso entre o público brasileiro: veja-se, por exemplo, a pouca acolhida que um filme tratando do mesmo tema – Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009) obteve junto ao nosso público. Uma infeliz adaptação do clássico romance inglês Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, Inglaterra, 1813), de Jane Austen (1775-1817), que mescla esta trama original àquelas criaturas imbecis – Orgulho e Preconceito e Zumbis (Pride and Prejudice and Zombies, EUA, 2009) parece ter granjeado alguns leitores. Mas seus efeitos, à primeira vista, parecem irrelevantes.
Mas o título desta crônica refere-se menos a filmes e livros e mais a uma expressão cunhada lá por fins dos anos 1980, meados dos 1990 e de vez em quando resgatada desde então. E que se referia ao ressurgimento de alguns políticos, cujas carreiras pareciam já encerradas por esgotamento e cansaço, nas disputas eleitorais daquelas ocasiões. Quem ficou, por muito tempo, particularmente marcado enquanto um morto-vivo, foi um ora candidato a senador por São Paulo, da coligação governista paulista. Um outro postulante ao mesmo cargo, nas atuais eleições, que se encontra misteriosamente desaparecido nas suas próprias campanhas televisivas, também compartilhou da alcunha. Ressalve-se, entretanto, que são homens bastante idosos e, de alguma maneira, tiveram uma trajetória política de peso. E desse modo, portanto, a volta dos mortos-vivos a que nos referimos, que parece ser a nova e mais forte tônica das presentes eleições, sobretudo em São Paulo, relaciona-se diretamente aos esquecidos da mídia, a uma quase que confraria dos ex-alguma coisa, que procuram um espaço na política.
Nunca vi uma leva tão grande de ex-atletas, ex-apresentadores de televisão, ex-locutores de rádio, ex-cantores, ex-celebridades instantâneas se candidatando ao Senado, à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados quanto agora. Até um costureiro de vestidos de noivas, famoso por ter sido pego roubando um vaso de mármore de um túmulo, que já participou de um programa televiso, investe-se como tribuno do povo, defensor dos humildes, ou nova e desbocada voz no plenário do Congresso. Isto sem falar nos famosos de um passado não tanto remoto, mas igualmente esquecido, que procuram nos empurrar seus filhos, maridos, mulheres, etc., como salvadores da Pátria.
Então as nossas casas legislativas estão a virar asilos dos deserdados da mídia, dos rejeitados pelos holofotes, dos extenuados talentos de um parvo e isolado mérito – por vezes questionável – de um passado pouco notável? E os partidos políticos, um misto de museu de cera, cemitério de navios e agência de empregos para desajustados? A representação política está se tornando um abrigo da obsolescência?
O que é de pasmar é que tais zumbis estejam despertando justamente em São Paulo, um estado que, tradicionalmente, apresentava uma certa lucidez política. Serão indícios de um novo – e horrível tempo – ou a consolidação de um conduta, de uma visão de mundo, que nos últimos anos passou meio despercebida, e que irrompe, para nosso horror, justamente nesses dias de campanha eleitoral? Os pleitos se transformarem num misto de Big Brother e Show de Calouros, ou Recordar é Viver e Vale a pena ver de novo, fazem bem para a democracia? Tenho absoluta certeza que não.

[Crônica originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, em 4 de setembro de 2010].

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