quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Heróis para todos os gostos

Os bravos senadores de nossa república são homens muito ocupados. Vemos, a todo instante, o tempo que perdem tentando provar sua inocência diante de algum escândalo em que se vêem implicados, às vezes até injustamente. Do tempo restante, há que se presumir que eles o ocupam criando fatos que possam envolvê-los em novas acusações de improbidade, falta de decoro, etc. Mas isto seria uma generalização rasteira, um preconceito e uma inverdade. Entre suas próprias defesas e o recesso parlamentar, descontando-se, neste intervalo, os feriados, fins de semana e as faltas justificadas, eles também propõem e aprovam leis, algumas delas de imensa importância para a nação. Soube de uma dessas normas imprescindíveis à nossa sociedade só recentemente, e olhe que ela já está em vigor desde, pelo menos, 1992. Trata-se da criação do Livro dos Heróis da Pátria, conhecido também como Livro de Aço – por ser feito deste material – que se encontra no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves.
Não me alongarei quanto ao absurdo de um Panteão da Pátria e da Liberdade ter ao seu nome agregado o de Tancredo Neves. Deveria ser pura e tão somente, “Panteão da Pátria e da Liberdade”, nome mais que suficiente, e nobre, para o fim a que se destina. Nem as linhas do prédio (adivinhem de quem é o projeto?), que parece prestes a desabar – talvez uma licença poética quanto à fragilidade da liberdade em nosso país e de quão tênues sejam os alicerces de nossa pátria: se for esta a intenção, até que é meritória. Nem gastarei tinta ou a atenção do leitor comentando o quão surreal é um Panteão que não encerra um sequer dos restos mortais dos que ali são homenageados. Tal coisa, só no Brasil mesmo.
O mais curioso nesta história toda é a lista de nomes inscritos no tal Livro – como se eles precisassem estar ali marcados para serem ou não Heróis da Pátria. Os homenageados, até o momento, são doze, alguns com todo o mérito, mas impressiona o tratamento que receberam, o “título” anteposto ao nome de cada um. Vejamos: Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (homenageado em 1992); Zumbi dos Palmares (h. 1997); Marechal Manuel Deodoro da Fonseca (h. 1997); S.M.I.R. Dom Pedro I (h. 1999); Marechal Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias (h. 2003); Coronel José Plácido de Castro (h. 2004); Almirante Joaquim Marques Lisboa, o marquês de Tamandaré (h.2004); Almirante Francisco Manuel Barroso da Silva (h. 2005); Marechal do ar Alberto Santos Dumont (h. 2006); José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência (h. 2007); e Getúlio Vargas (h. 2009).
A predominância militar é inegável (talvez uma cortesia dos senadores, que propõem os nomes, à gente de farda). Até o pacifista Santos Dumont foi nomeado por uma patente que ninguém lembra que ele recebeu, depois de morto. Só faltou chamarem Getúlio de Tenente Getúlio Vargas, pela uniforme desta patente que envergou na Revolução de 30.
Há também uma curiosa lista de nomes propostos, aguardando a aprovação pelos senadores, e uma outra de “candidatos”. Vejamos quem são os postulantes de cada uma.
Na primeira constam Chico Mendes (o lobby acreano é forte, veja-se o caso de Plácido de Castro); o Frei Caneca (pernambucano e separatista); o Marechal Osório (gaúcho e heróis da Guerra do Paraguai); o Barão do Serro Azul (paranaense e anti-florianista); e o Brigadeiro Sampaio (cearense e herói da Guerra do Paraguai).
Da segunda, imensa, fazem parte, representando os militares, Maria Quitéria (baiana e heroína da Independência, apodada, simplesmente, de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército); o Marechal do ar Eduardo Gomes (carioca e tenentista); o General Xavier Curado (goiano e herói na guerra contra Artigas); o Marechal Mascarenhas de Morais (gaúcho, principal comandante da FEB na campanha da Itália); o Brigadeiro Couto de Magalhães (mineiro, e um intelectual de peso, além de militar); e o soldado Mário Kozel Filho (paulista, morto num atentado durante a ditadura militar); no campo da saúde, os médicos Vital Brasil (mineiro) e Osvaldo Cruz (paulista) e a enfermeira Ana Néri (baiana, que atuou na Guerra do Paraguai); no campo dos heróis, estritamente estaduais, que se deseja tornar símbolos nacionais, entram Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (paulistas que tombaram na Revolução Constitucionalista, os outrora famosos MMDC); Eduardo Angelim (cearense de nascimento, radicado no Pará, onde foi um dos líderes da Cabanagem) além de três líderes da Conjuração Baiana; na categoria artística, os compositores Carlos Gomes (paulista) e Villa-Lobos (carioca); e quase numa espécie de categoria “não sabemos bem onde pôr”, o Padre José de Anchieta (espanhol, frise-se, mas herói dos paulistas), o Marechal Rondon (matogrossense); Júlio César Ribeiro de Sousa (paraense, pioneiro da dirigibilidade aérea); Joaquim Nabuco (pernambucano e abolicionista); o jornalista Hipólito José da Costa (nascido em Colônia do Sacramento, que hoje pertence ao Uruguai, maçom e opositor de Dom Pedro I – um dos homenageados, lembram-se?) o Barão do Rio Branco (carioca e diplomata) e o também diplomata, e também carioca, Sérgio Vieira de Melo; como o povo não pode ficar de fora, somam-se ao nome de Zumbi o de João Cândido, o Almirante Negro (gaúcho e líder da Revolta da Chibata) e Sepé Tiraju (herói guarani missioneiro).
Como veem, são heróis para todos os gostos, propostos por interesseis estaduais, de classe, de atividade profissional. Não digo que muitos não o sejam, de fato, mas há que se pensar se neste processo não estamos nos defrontando com uma espécie de “heroicidade seletiva”. Como explicar Getúlio Vargas? Estaria ali como estadista, esquecendo-se o seu lado de ditador? Ou o caçador de quilombolas e destruidor de quilombos Tiradentes (que o foi, não podemos negar), o que faria ao lado de Zumbi? Ou D. Pedro I e Hipólito José da Costa? Por sua relação com os índios, nada pode ser mais oposto que os comportamentos de Anchieta e Rondon. E, garanto, se João Cândido entrar na lista, logo os militares hão de incluir o comandante Batista das Neves, morto pelos seguidores do Almirante Negro. Sem falar que cada estado irá querer incluir o seu “herói”, seja de fato relevante ou não. E onde iremos parar? Nossa história é por demais contraditória para sonharmos com um panteão ideal, onde todos se congracem fraternalmente...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de maio de 2009].

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