quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

De alguns milagres e coisas que tais

O agudíssimo filósofo Voltaire (1694-1778), numa série de textos tornados imprescindíveis ao conhecimento dos homens inteligentes, tratou largamente da questão dos milagres e de uma maneira tal que quase os inviabilizava. Pois, segundo ele, em termos gerais, se um milagre é uma violação das leis eternas e imutáveis estabelecidas por Deus, ninguém mais do que Ele seria zeloso pelo cumprimento das mesmas. Seria, portanto, impossível que um Ser infinitamente sábio criasse normas passíveis de serem quebradas, ainda que pelo onipotente criador daquelas normas. Pois Ele nada teria feito sem razão e, pois, com que razão poderia Ele desfigurar, por algum tempo que fosse Sua própria obra? Da mesma maneira, dada a relativa raridade dos milagres, seria possível supor que o Criador agisse em prol de algumas pessoas em específico e que ignorasse os anseios ou necessidades de milhares, se não milhões, de outras. Mas se houvesse tal distinção entre uns e outros, seria necessário que Ele mudasse tudo o que estabeleceu para todos os tempos e todos os lugares como doutrina a ser seguida, como prática a ser cumprida por Seus fiéis, e veríamos Sua figura, enquanto ideal de extrema Justiça, de forma bastante enviesada. Ou relativizada. O que seria impossível a um Absoluto de tão excelente natureza. De forma que, para encerrar a questão de uma maneira que fosse conveniente à questão da Onipotência divina e que não ferisse a lógica, o sábio francês acabou por renegar os milagres enquanto eventos maravilhosos, inesperados e contrários à natureza, preferindo-os definir como ação deliberada da Providência, nada aleatória e nem um pouco inexplicável. E assim Voltaire silenciou por um tempo seus censores enquanto apaziguava sua consciência.
Mas por que isto de milagres numa hora destas, visto que o Natal já passou e temos meses até a Semana Santa? Porque não há como pensar no episódio do recém nascido encontrado num terreno na periferia de Belém, PA, no dia 25 de dezembro. O simples encadeamento, e coincidência, de dados, datas e nomes, nos leva a imaginar que a sobrevivência da criança – lançada nua, num saco plástico, por cima de um muro – deu-se pela intervenção de alguma força que não a mera sorte. Pois se haveria um menino que deveria ser salvo da morte em pleno dia de Natal, certamente seria um nascido nos arrabaldes de Belém, mesmo que não na Palestina, e sim no Pará. Trata-se do tipo de episódio que faz com que pensemos em milagres ou na Providência, ou em qualquer outra operação divinha possível de ocorrer num caso desses e que o justifique. Ou, como disse um amigo, “em tais circunstâncias, e com tantas coincidências, Deus tinha que se manifestar: era Seu dever e obrigação”. Vá lá que, do ponto de vista teológico, sua explicação soe meio rasteira. Mas, não encontrei pessoa que não pensasse a mesma coisa. Que não visse a aura de um milagre, ou algo do gênero. E eu mesmo considero que a sobrevivência do bebê em tais condições, data e local, comoveu-me sinceramente, arrancando-me até algumas lágrimas e reascendendo um pouco do meu misticismo. Poucas vezes vi algo que se parecesse tanto com uma manifestação de clemência divina tal como dela ouvimos falar. Pode-se dizer, inclusive, que tal sucesso encerrou brilhantemente o ano.
Um ano, aliás, que mesmo com alguns dissabores particulares – quem não os tem, afinal? – considero que foi ótimo para todos nós brasileiros. Enquanto o mundo amargava uma crise histórica, a nossa economia cresceu, a humilhante e infame desigualdade sócio-econômica regrediu, milhões de empregos foram criados, tornamo-nos grandes produtores de petróleo, o desmatamento está quase sob controle e tivemos a oportunidade de rechaçar nas urnas, em âmbito federal, velhas e atrasadas políticas (o neoliberalismo predatório usufruído por alguns compadres), elegendo, em seu lugar, a continuidade do novo: mais novo, aliás, porque finalmente emplacamos uma mulher como Presidente da República, mesmo que com certo atraso (até os machistas Chile e Argentina já tinham conseguido isto).
Em suma, 2011 promete, e não é do alto dos palanques. Torcemos para que vejamos, se não outros milagres, coisas tão boas quanto. Estes são meus votos a todos os leitores. Um ainda mais feliz e cada vez mais próspero futuro tendo 2011 como princípio! Ou continuação...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de dezembro de 2010].

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