segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Bela Senhora do Deserto

A cidade de Santana do Deserto, em Minas Gerais, nada tem de deserto e pouco tem de cidade. Ela localiza-se no chuvoso vale do Paraíba mineiro, foi grande produtora de café no século XIX e hoje vive da criação de gado e do turismo rural. Ouvi dizer que tem alguns belos casarões de fazenda e uma igreja matriz antiga. Mas ela e seus menos de quatro mil moradores mal estão no mapa. Mineiros, diz a tradição, estão em toda parte. Mas não tenho notícias de ninguém que tenha se avistado com um morador de lá, ainda que transplantado. Eu, pessoalmente, não conheço ninguém de lá. Ou melhor, conheço sim. Aliás, trata-se de sua moradora mais importante: ninguém menos do que a imagem de Nossa Senhora Santana do Deserto, a padroeira do lugar.
Quis o destino que eu a visse sendo restaurada no consistório da matriz do Pilar em Ouro Preto em julho passado. Pelas hábeis mãos de duas amigas restauradoras, a velha e feia pintura foi retirada, as antigas e belas cores vieram à luz e os seus douramentos, poucos, foram reavivados. Tudo para a festa da padroeira, no dia 26 de julho. Mas não só para aquele único dia. A imagem, antes de voltar para o trono do altar mor, percorreria, como é tradição por lá, todos os bairros rurais do município, acompanhada de círios, orações, banda de música e comemorações. Só então voltaria ao seu lugar de direito, na data exata da celebração.
E com que expectativa a aguardavam! Segundo me contaram, dia sim, dia não, alguém da paróquia telefonava para Ouro Preto, para saber do andamento do restauro. O próprio pároco, em duas ocasiões, se abalara até ali, com o fim de apressar os trabalhos e resgatar a padroeira. Mas como tal não era obra que se faz de maneira açodada, teve que engolir seus sacerdotais brios de dono da imagem, e voltar de mãos abanando.
Ainda que seja muito má educação criticar a aparência de uma senhora, e muito pior ainda de uma dama tão ilustre, devo dizer que a Santana do Deserto não é propriamente uma bela imagem. Seu executor não foi muito hábil. Os traços são demasiado rudes, os ângulos e as arestas muito agudos. Em suma, de uma maneira geral, não louvaríamos suas qualidades estéticas.
Por outro lado, se a intenção do artista anônimo era acentuar as dores e os sofrimentos de uma mulher idosa, a tarefa foi realizada com muito acerto. Parecemos ver a mãe de Maria, do alto de seus muitos anos, ensinando as Escrituras à Filha que, atenta, se prepara para sua dolorosa vida. Dor, contenção, mistério e graça, inegavelmente, irradiam das duas Senhoras, de uma já tão velha, de outra ainda uma criança. Desde o nascimento humilde, a perseguição aos primogênitos e a fuga para o Egito, toda a Paixão do Senhor já parece prefigurada em seus rostos, em seus olhos, em seus gestos.
Em suma, é bela, porque é sofrida. É elegante porque é sábia. É grandiosa porque é humilde. É um paradoxo porque é verdadeira.
Desculpe, Senhora Santana do Deserto, por não ter percebido, de imediato, sua beleza tão rara. Mil desculpas.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de agosto de 2009]