No último dia 21 de abril celebrou-se o centenário de morte do escritor norte-americano Mark Twain (pseudônimo que consagrou Samuel Langhorne Clemens, 1835-1910). Cem anos... Nem acredito!
Sua importância para a literatura daquele país foi enorme. Os aclamados escritores William Faulkner (1897-1962), e Ernest Hemingway (1899-1961), inclusive, a respeito dele disseram: “[ele] foi o primeiro escritor verdadeiramente americano, e todos nós desde então somos seus herdeiros” (W.F.); e “[...] toda a literatura moderna americana adveio de um único livro de Mark Twain, chamado Huckleberry Finn [...]. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então” (E.H).
De fato, o livro As Aventuras de Huckleberry Finn (1884), no Brasil mais conhecido como As Aventuras de Huck, não só é divertidíssimo como muito bem escrito. Trata-se de uma espécie de clássico moderno, mais com aspecto do que seria criado a partir dos anos 1910 e 1920 (ou mesmo 1930), do que um fruto natural de sua época. E, ao mesmo tempo, um retrato curiosíssimo a respeito da escravidão, que Mark Twain conhecera em seu país. Pois a relação de camaradagem entre o jovem Huck e o escravo foragido Jim vale por mais de uma centena de teses acadêmicas sobre o trato entre homens livres, ainda que um rapazola, no caso de Huck, e cativos, mesmo que adultos, como no caso de Jim. São páginas tão reveladoras quanto só se leriam, mais tarde, no Casa-grande & Senzala (1933), este nosso clássico de Gilberto Freyre (1900-1987). O qual, certamente, conheceu a obra ainda em sua juventude, no original, ou no colégio americano em que estudou no Recife, ou na Universidade Colúmbia, de Nova Iorque. Não descarto a possibilidade, aliás, que a curiosa relação entre os dois personagens do romance tenha, em certos aspectos, influenciado sua opus magna.
Mas a questão do tratamento afável e justo que o jovem Huck dedica ao foragido Jim, que conhece desde há muito, foi sobremodo espicaçada pelos adeptos do politicamente correto nos EUA, que chegaram a proibir a leitura da obra em muitas escolas daquele país. Tudo por conta do emprego da expressão “nigger” para se referir a Jim. O termo, hoje, é considerado ofensivo e racista. Corresponde ao nosso “preto” ou “crioulo” em lugar de quem hoje chamamos de “negros”. Mas quem tem mais de trinta anos sabe muito bem que, num passado bem próximo, chamar alguém de “negro” é que era realmente ofensivo. Então, dizia-se, com respeito, que fulano era “um preto”, ou “preto”. “Negro” era, como se lembravam os mais velhos, e a história o comprova, o tratamento dado pelos senhores aos seus escravos. Mas certas militâncias, em geral, quando não desconhecem a História, procuram ajustá-la aos seus fins. Fazer o quê...
Voltando à copiosa obra de Mark Twain, sua qualidade e atualidade são notáveis. Relendo alguns fragmentos seus, publicados recentemente sob o título Patriotas e Traidores (Fundação Perseu Abramo, 2003), não deixei de me quedar surpreso, aqui e ali, com a acuidade de seus pensamentos políticos e de sua visão de mundo. E a leitura de qualquer um de seus contos, primorosos, é de rolar de rir. O Roubo do Elefante Branco, por exemplo, é uma sátira à polícia e à sociedade de seu tempo – seria somente daquele tempo? – como poucas vezes se viu. E o Diário de Adão e Eva, uma das mais finas ironias da relação entre homem e mulher que já li. Mas é difícil mencionar dois contos dentro da jovial, lúcida e excelente obra de Mark Twain e deixar tantos outros de lado. Além de sua influência na cultura moderna, graças às adaptações cinematográficas que pelo menos duas de suas obras receberam: falo de O Príncipe e o Plebeu (1882) e Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889). Quando assistirem um filme no qual um menino ou menina rica troca de lugar e vida com uma criança pobre, que é identica a ela fisionomicante, saibam que a fonte é a primeira obra. Ou quando a trama mostra um homem moderno que regressa ao passado e, entre desconfortos e incompreensões mútuas, faz valer sua vontade moderna, tenham ciência que a origem encontra-se na segunda.
Finalizando, recomendo a todos que nunca o leram, que leiam-no. E aqueles que o conhecem, que o releiam de vez em quando. Mark Twain continua ótimo, atual e vivo mesmo depois de cem anos de sua morte.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de maio de 2010].
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