segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – I

Quem me conhece, ou lê minhas crônicas, sabe que gosto de livros. Todavia, digo de antemão, não me considero um bibliófilo, ao contrário. Pois, na verdade, tenho sincero horror a esta palavra, que me soa como uma espécie de patologia sexual, uma parafilia, como chamam os especialistas a certas manias naquele campo. Porque, na maioria dos casos, diga-se, os bibliófilos são meio que voyeurs dos livros, fetichistas em busca de um objeto mais por sua procedência ou aspecto do que por seu conteúdo. Para muitos, aliás, este sequer interessa. Vejamos alguns casos.
Conheci um, por exemplo, que colecionava livros do século XVII independentemente dos assuntos. Em sua biblioteca, em lugar de destaque, viam-se diversos in-planos (livros cujo tamanho de página mede por volta dos 60 x 90 cm) em latim (língua que ele ignorava totalmente) e versando sobre teologia (assunto que lhe era absolutamente estranho). E que, claro, jazeriam para sempre sem serem lidos.
Outros têm o fetiche da primeira edição. Só vale esta, e nenhuma outra. Se vier autografada ou com alguma anotação ou ex-libris de uma pessoa ilustre, então seu gozo é incomensurável. Não critico, mas acho meio besta. Primeiras edições têm grande valor econômico, são um tremendo pé-de-meia, sobretudo com autógrafos ou marca de pertencimento a alguém conhecido, mas, em geral, e graças aos cochilos dos tipógrafos, vêm cobertas de erros, que seriam corrigidos na segunda, às vezes terceira edição. Em suma, como costumo dizer, são cadeiras de museu: lindas de se ver e impróprias para sentar, para usar.
Já um outro escolhia seus livros pela encadernação. Fosse ela bonita, adquiria a obra, não importando se o tema fosse jardinagem, pediatria ou jurisprudência. Soube ultimamente que anda passando por apuros para continuar sua coleção, visto que agora os sebos e alfarrábios têm seções específicas de “belas encadernações”, vendidas aos metros para decoradores e pessoas que querem ostentar às visitas seu “apreço pela leitura”. Em suma, tornaram-se disputadíssimos os seus objetos de desejo.
Há outros, da mesma linha, que enchem suas estantes com livros norte-americanos e ingleses, de editoras especializadas em “belos livros” (a Folio Society – www.foliosociety.com – é uma delas), preenchendo suas estantes com belas lombadas e ignorando completamente o que há dentro delas. Algo não muito diferente do que faz uma certa associação de bibliófilos daqui de Pindorama, reeditando em capa dura, com gravuras especiais, monumentos literários como Gabriela, cravo e canela, ou raridades como Iracema, vendidos a preços escorchantes e com a garantia de serem poucos e numerados os exemplares: ou seja, é mais apego ao sentido de grife, exclusiva, do que amor ao livro – que comprem cães com pedigree ou obras literárias dá no mesmo.
E há ainda aqueles cuja volúpia se projeta sobre os livros intonsos, muito comuns até algumas décadas, sobretudo em Portugal, cujos cadernos vinham unidos pelas bordas, sendo necessária uma faca ou régua para separar as páginas (intonso remete à tonsura, o corte de cabelo no alto da cabeça dos clérigos: ou seja, “não cortado”). Um caso que, como se vê, grita aos céus sua proximidade com alguma parafilia.
Não digo, entretanto, que todos os bibliófilos sejam condenáveis. Os que doam seus acervos para instituições públicas merecem um lugarzinho no Céu. Os que vendem, com sorte, acredito, hão de ganhar uma quitinete no Purgatório. Há os que abrem seus acervos para consultas e estudos – merecedores de um apartamento digno junto ao Altíssimo – e os que não só permitem o acesso, mas também publicam fac-símiles de obras raras, ou monografias interessantes à bibliografia e à história dos livros, ou ainda estudos sobre a circulação e divulgação das obras (como foi o caso do excelente Rubens Borba de Moraes), que merecem habitar as mansões celestes com vista para o mar. Já todos aqueles que contam, ou contavam, com uma legião de empregados ou bajuladores, ávidos no garimpo de obras raras em prol de seus senhores, que entesouram, ou entesouravam livros para seu único deleite, retirando-os do contato dos leitores honestos, aqueles, e seus acólitos, não tenho dúvida, hão de residir em barracos no Inferno, vizinhos do próprio Satanás.
Meu amor pelos livros, entretanto, não ignora nenhum dos delitos acima. Simplesmente ele não é exclusivista nos detalhes, nos quais, dizem, é onde o Diabo espreita ou mora. Gosto de livros bem encadernados, com belas estampas ou tipos. De livros antigos e raros. Mas, principalmente, do conteúdo dos mesmos. Que pode relacionar-se, também, com os fatores antes mencionados. Um caso flagrante é o das Fábulas, de Jean de La Fontaine (1621-1695), que todo mundo conhece. Pessoalmente, tenho quatro edições da mesma obra. Uma bilíngue (péssima, aliás, mas como tem o texto em francês, vale como fonte), outra com ilustrações do insuperável mestre do desenho Gustave Doré (1832-1883) – gravadas pelo ótimo Adolphe-François Pannemaker (1822- 1900) –, com traduções das fábulas por Bocage (1765-1805) e demais literatos, outra ainda com uma definição mais nítida das estampas e em tamanho maior, e uma cópia desta para empréstimo. Sim, tenho, nalguns casos, duplicatas de ótimos livros para emprestar aos amigos, o que é uma dupla garantia de não perder nem o livro, nem o amigo.
Também não me furto ao gosto pelos livros de papel de linho ou seda, mas não sou capaz de depreciar um outro impresso naquela péssima celulose dos anos 1940-50 (cujas páginas literalmente se quebram com o passar do tempo) enquanto objeto: seu conteúdo é o que me fez comprá-lo, não sua apresentação. Se a única maneira que tenho de ler suas informações é aquela, que seja!
Meus livros são, portanto, em sua imensa maioria, objetos reais de pesquisa, trabalho e lazer. Gosto de saber que os tenho – ainda que alguns deles só sejam lidos meses depois de sua compra – ao alcance de minha mão, na hora que desejar, sem ter que procurá-los em bibliotecas públicas desorganizadas, ou que não permitem a consulta ou empréstimo de certos títulos; ou ainda tentar comprá-los e descobrir que estão esgotados, que viraram raridades, ou que simplesmente desapareceram – o que, pasmem, é muito mais real do que se imagina: que o diga quem procura, assim como eu, o 2º volume do 2º Tomo d’O Movimento Academicista no Brasil–1641-1820/1822.
E pretendo contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições nas próximas crônicas. Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis. Aguardem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de fevereiro de 2011].

Contra o calor

Assim como há quem prefira o azul ao vermelho, o queijo minas ao queijo prato, e as listras aos xadrezes, há também aqueles que preferem o frio ao calor. E, dentre os últimos, inscrevo-me na turma da frente dos primeiros desde que me conheço por gente: mil vezes uma fresca aragem correndo por sobre a pele do que um bafo quente castigando o couro; e um milhão de vezes dormir debaixo de cobertas que seminu, implorando por uma brisa que sopre da janela quando nem o ventilador de teto da conta. Ar-condicionado, evidentemente, é muito bom. Mas há sempre o desconforto criado quando deixamos um ambiente sob sua graciosa mercê e enfrentamos o mundo real. Portanto, o ideal é um clima ameno. E, acredito, em vista da onda de calor que vimos atravessando, tenho certeza de que o número de correligionários em prol do frio, ou seus admiradores, há de aumentar.
O calor é muito bom para flanarmos à beira-mar, sobretudo à tarde, quando o vento sopra das águas. Mas vá se enfrentar um apartamento de praia – muitas vezes cheio de gente, ou distante da praia, ou ainda próximo, frente à rebentação: o ar fresco chega até a sala, alguns quartos, mas, no resto, sua-se feito um operário de altos-fornos.
Tente-se trabalhar usando um vestuário decente durante os dias de maior calor. O que é que nos espera? Terror, estupor e quase desespero. È o que se reserva ao advogado ao pensar em sua audiência no Fórum, ao representante comercial ante um primeiro contato com um novo cliente. No curso de minhas pesquisas, debruçado em antigos livros, vestido de guarda-pó (para livrar-me de poeiras centenárias), calçando luvas (para que a química de meu corpo não contaminasse o papel), e não raro máscara (para que a umidade de meu hálito também não influísse sobre a frágil estrutura de antigos documento), e, portanto, assim enfatiotado, quantas vezes, metido em arquivos que mais pareciam fornos, não tive ainda que lidar com a transpiração de minha testa, uma ameaça gritante àqueles frágeis papéis de outrora? E como se espera que trabalhemos bem desde que submetido a tal suplício?
O tempo quente, para muitas pessoas, aliás, sempre foi invocado como um inimigo feroz das atividades intelectuais. Vá lá que egípcios, gregos e mesmo romanos, cujo legado cultural não tem par, viveram, de maneira geral, em terras quentes. Tudo bem: eles estavam inventando o mundo, criando tudo praticamente do nada. Seus grandes avanços eclodiriam naquele ambiente, de farta troca de idéias quase de maneira natural, mas será que o mesmo se aplica aos seus coetâneos e quase conterrâneos? Quando penso naqueles todos hebreus vagando quarenta anos pelo deserto, subnutridos e de coco queimado pelo sol, sinto certas dúvidas quanto à propriedade de algumas de suas sentenças...
Ainda no campo histórico, é um fato que os bárbaros – o nome deles diz tudo – que assolaram Roma viessem do Norte frio. Como, também, que os vários Renascimentos – quer no tempo (séculos XII e XIII, e XV e XVI), quer no espaço (Sul da Europa), processou-se em terras quentes. Mas, a partir daí – desta nova reinvenção do mundo – o conhecimento, as altas especulações do espírito, migraram para terras mais frescas. Onde parecem permanecer desde então. Confirmando uma hipótese que provém do filósofo grego Aristóteles, dentre outros, e que foi defendida, até recentemente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, brasileiro e nordestino.
Em suma, conversando entre amigos, concordamos que as únicas coisas que o calor produz são tempestades (com direito a enchentes e desabamentos), mosquitos, outros insetos e parasitas (que nos brindam com toda sorte de doenças tropicais), e um brutal desconforto (para além dos já citados, pensemos no padecimento de que é vítima o namorado antes de encontrar a moça de seus sonhos, e o dela, à espera dele, ambos temerosos por suas aparências, violadas pelas altas temperaturas).
Houve um político, do PMDB de outras eras (homem honrado, excelente profissional em sua área), e desde certo tempo ligado ao alto tucanato (homens de bem, por vezes, se equivocam: lembremos de suas biografias – desde que não as reneguem, desde que não digam “esqueçam tudo o que escrevi”) o qual intentou, e conseguiu, aprovar um teto para a inflação no Brasil, e o lavrou em nossa Carta Magna (a Criatura de Frankenstein, de 1988, como vários a ela se referem). Como isso é o mesmo que chicotear o mar para que a maré baixe, ou atirar pedras no Sol para que ele arrefeça seu calor, brinquei, por muito tempo, que votaria num candidato a cargo público que prometesse estabelecer, com força de lei, a proibição de que a temperatura no Brasil excedesse os 20ºC. Outros surgiram prometendo coisas mais estapafúrdias, postas até em prática. Mas a proposta de minha brincadeira carece de defensores...
Concluindo, não temos como nos opor ao calor infame que nos ataca nos últimos dias. Mas dá para desconfiar um bocado da civilidade, do amor aos estudos e da dedicação ao trabalho daqueles que tecem loas às altas temperaturas. O que, afinal, é esperado: quem expõe o crânio, por tempo demais, ao sol, acaba mesmo de miolo mole. É possível, perguntamos, concordar com gente assim? Defender suas idéias? Convenhamos...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de janeiro de 2011]