quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Saias curtas a idéias menores ainda

Acredito que o país inteiro tenha assistido ao episódio envolvendo uma moça, sua minissaia e o efeito que ambas causaram numa universidade particular. Além da repercussão na imprensa, nas rodas de bar, na conversa de fila de banco, e por aí vai. Todos pareciam ter sua opinião para dar, contra ou a favor. Nos jornais, foram vistos claros sinais de respeito à estudante e de censura ao comportamento de horda manifestado por seus colegas. Já nas ruas, uma vaga moralista bramiu enfurecida, desqualificando a pobre coitada, falando em falta de decoro, e coisas do gênero. Muitos pareciam até endossar a selvageria daqueles rapazes que a vaiaram e apuparam, aos gritos de “prostituta” – na versão rimada e mais chula do termo – e de “estupra, estupra!” e que tais. Decerto acrescentariam, mentalmente, “mas não mata”: um eco a certo pensamento reinante instituído por um político de má-figura.
O que mais chamou minha atenção, no entanto, foi uma série de fatores justamente relacionados à perseguição à moça. Vejamos quais são eles.
Em primeiro lugar, a estudante parecia bonita, assim como suas pernas. Ora, como todo mundo sabe, gente moça gosta de se exibir. Logo, nada mais natural que mostrasse suas qualidades aos olhos de todos. Não se faz isto nas ruas, nos dias e nas noites quentes? Nos bares, restaurantes, danceterias, boates, em toda parte? Quem nunca viu uma jovem com um imenso decote ou saias curtas numa sala de aula de faculdade – sobretudo numa noite em que “rola uma balada” – é porque nunca passou sequer na porta de uma instituição de ensino superior. E tal vestuário ofende alguém? Pelo que me lembro, só mulheres feias e invejosas ou rapazes que não apreciam semelhante paisagem... E não é que, para pasmo de todos, as vozes vociferantes que acuavam a moça não vinham justamente de homens? Que homens são estes? E, pior, que universitários são esses, que reagem quais fanáticos talebãs aos centímetros a mais de coxa mostrados pela jovem? Queriam que ela viesse de burka?
Se há uma típica canalhice dos povos latinos – mas não é exclusividade destas plagas, alguns mediterrâneos pensam ainda assim, e o Oriente quase inteiro adota esta causa – é a que consiste em depreciar e difamar uma bela mulher inalcançável. Em resumo, é mais ou menos assim: um sujeito deseja uma mulher, mas ela o rejeita ou sequer percebe que ele existe. Assim, ferido nos seus brios de macho desprezado, passa a dizer absurdos quanto àquela que o enjeitou – ou nem notou sua patética existência. É a versão humana da vingança dos mais fracos do bando, como se verifica na sociedade animal: também os macacos gritam estranhos impropérios quando um macho alfa arrebata-lhes a fêmea ou ela não lhes dá bola.
E não foi isto que verificamos no tal episódio?Foi, mas não só. Quem olhou com atenção para a jovem acuada, deve ter notado que suas formas, belas, contrastavam com cabelos mal pintados, um pouco secos, pouco cuidados, em suma. Seu polêmico vestido ou saia, também não pareciam dos mais caros que há na praça. Logo podemos inferir que a estudante longe está de ser rica. Acrescente-se a isto o fato de que a universidade que ela cursa, segundo todos os comentários, é freqüentada por jovens ricos preguiçosos ou esforçados rapazes e moças egressos da escola pública, cujo histórico recente, todos sabemos, é dos piores quanto à preparação para o vestibular (mais uma conquista do PSDB!). Em suma, ela pode não ser pobre, mas certamente não é endinheirada. Mas isto faz diferença? Faz, e muita.
Vivemos numa cultura de bajuladores, em que a maioria se comporta como cães à beira da mesa de seus donos. Abana-se o rabo e tolera-se tudo em troco das migalhas que os amos lançam. Só isso explica o sucesso de certas revistas e programas de televisão, por exemplo. Assim, os ricos são vistos como deuses, e os não ricos, investem-se como fiéis sem paga, adorando-os pelo prazer de adorá-los, perdoando-lhes as faltas, pois assim reza seu credo, e não se importando se os seus ídolos dourados percebem-nos ou não. De modo que, fosse a moça da minissaia ou microvestido alguém de posses, com roupa de grife e cabelos bem tratados, ninguém diria um ai a seu respeito. Antes, sairiam em sua defesa, até mesmo se a direção da escola objetasse ao seu vestuário – fosse ela rica, ou nem tanto, mas escandalosa como algumas o são, e talvez até lhe oferecessem um emprego de apresentadora de televisão, dessas emissoras que não tem o menor pudor em mostrar roupas curtíssimas de manhã, de tarde, de noite, etc., esses programas para a “família brasileira”...
Concluindo, cada um que se vista como quiser, onde puder. A moça não estava numa igreja, no fórum, na prefeitura, num velório ou numa escola de freiras. Mas numa universidade. Um local de tolerância, de mentes abertas. E ainda assim foi vaiada por seus colegas. É de se pensar que raios de universitários as privadas estão acolhendo e formando. Que raios de homens estão surgindo em nosso país, que não suportam, sequer, a vista das belas pernas de uma moça. A saia era curta? Pois a mentalidade deles é muito menor ainda.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de novembro de 2009].

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Celebrando Hemingway

Acima, o velho Hem fazendo duas coisa que sabia muito bem...

Na última quinta-feira, 29 de outubro, um noticiário da Globo News anunciava o aniversário de 110 anos de nascimento do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961). Achei estranha tal efeméride. Ninguém comemora cento e dez anos de nada e, além disso, a data me parecia incorreta. Li todos os livros sobre ele publicados em português, alguns em inglês e espanhol e, até onde me lembrava, seu aniversário era num 21 de julho. Assim, chequei minhas fontes: eu estava certo. De onde tiraram tal informação é que não sei. Em todo caso, não custa falar um pouco do velho Hemingway, hoje meio esquecido, sobretudo entre os brasileiros.

Durante sua vida, ou melhor, dos seus trinta e poucos anos até a morte, foi ele o escritor mais famoso de seu tempo. Gerações de escritores, aspirantes de escritores, ou mesmo fãs sem qualquer talento, procuraram imitá-lo na escrita, no tipo de vida ou, como tais feitos não eram para todos, pelo menos nas bebedeiras. E como ele bebia! O dramaturgo e crítico literário inglês Kenneth Tynan (1927-1980) resolveu contabilizar o quanto bebeu no espaço de um dia, o casal de protagonistas de Do outro lado do rio, entre as árvores (1950): o homem, com cinqüenta e poucos anos, alter ego do autor, e a moça, deixando a adolescência, sua namorada. O personagem, sozinho, bebeu três martinis duplos e um gim duplo com Campari. Ao encontrá-la, dividem oito Montgomerys duplos (martinis secos preparados numa proporção de quinze para um). No jantar, tomam uma garrafa de vinho branco, uma de vinho tinto e duas de champanhe – uma outra ainda seria bebida mais tarde. E o homem encerra a noite, sozinho, esvaziando uma garrafa de vinho. Se alguém acha que esta é uma quantidade normal – a ponto de pô-la por escrito, e Hemingway era um escravo da verossimilhança – imaginem o quanto ele entornava...

Mas não é justo falar apenas de seus porres. Pois que vida ele teve! Tomou parte da Primeira Guerra Mundial, pescou no Caribe, participou de safáris, cobriu a Guerra Civil Espanhola, a invasão japonesa da China e a Segunda Guerra, conviveu com os maiores artistas de seu tempo, salvou-se milagrosamente de dois acidentes aéreos, quando foi dado como morto, casou-se quatro vezes, foi amigo de toureiros, lutou boxe como quase um profissional e ainda teve tempo de ver a Revolução Cubana. Ganhou muito dinheiro – e pagou uma fortuna em impostos – graças aos seus livros e de suas adaptações para o cinema (alguns bons, mas sempre muitíssimo inferiores ao original). E ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Até que pôs fim à sua vida da mesma forma intensa e drástica como a levara: encostou o cano duplo de uma espingarda Boss & Co. na testa (não no céu da boca, como muitos acreditam) e puxou os dois gatilhos ao mesmo tempo. O motivo? Hipertensão, depressão e paranoia, agravada por um tratamento à base de eletro choques.

Mas tudo isto, na verdade, não é o principal sobre ele. A vida de um escritor na verdade pouco importa e, sim, sua obra. Se é certo que seus personagens eram quase que uma cópia fiel do homem, é igualmente correto que ele escrevia muito, mas muito bem. Não sei se releria com prazer seus romances – salvo O Sol também se levanta, o primeiro publicado, de 1926 – ou mesmo sua única peça teatral, A Quinta Coluna, de 1938, mas, seus contos, soberbos em sua maioria, certamente que sim. Sua prosa seca, lapidar, clara onde deveria ser, porém altamente sugestiva na sua concisão, quando necessário, serviu de modelo a nove entre dez escritores, ou aspirantes a tal, seguramente, dos anos 1930 a 1970, ou 1980, eu arriscaria dizer. Tornou-se quase que um falar do século 20. O nosso Rubem Braga (1913-1990) que o diga: imitou-o na prosa e na vida – o que era aquela cobertura dele em Ipanema se não uma cópia em escala menor da casa de Hemingway em Cuba, a célebre Finca Vigía?

De uns tempos para cá, entretanto, pouco se fala dele por aqui. O que é uma pena. Sua obra é sólida. Meritória. Um homem escrevendo para os homens do seu tempo. De forma dura e pontual. Não se entende, aliás, o comportamento masculino do século XX sem ler os seus livros. Nem a educação que muitos filhos receberam, e ainda recebem até hoje.
Pois que seja então celebrado o seu centésimo décimo aniversário, ainda que em data equivocada. O velho Hemingway, aliás, nem se incomodaria com isto. Desde que se levante um brinde a ele e que se leia algo do que escreveu, já ficaria contente. Reconhecido. Satisfeito.
Da minha parte, é isto que vou fazer. Tão logo tenha posto o ponto final desta crônica, prepararei um drinque e lerei um de seus contos. Isto sim é que é homenagem.
À sua saúde, Papa Hemingway!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de outubro de 2009].