Acredito que o país inteiro tenha assistido ao episódio envolvendo uma moça, sua minissaia e o efeito que ambas causaram numa universidade particular. Além da repercussão na imprensa, nas rodas de bar, na conversa de fila de banco, e por aí vai. Todos pareciam ter sua opinião para dar, contra ou a favor. Nos jornais, foram vistos claros sinais de respeito à estudante e de censura ao comportamento de horda manifestado por seus colegas. Já nas ruas, uma vaga moralista bramiu enfurecida, desqualificando a pobre coitada, falando em falta de decoro, e coisas do gênero. Muitos pareciam até endossar a selvageria daqueles rapazes que a vaiaram e apuparam, aos gritos de “prostituta” – na versão rimada e mais chula do termo – e de “estupra, estupra!” e que tais. Decerto acrescentariam, mentalmente, “mas não mata”: um eco a certo pensamento reinante instituído por um político de má-figura.
O que mais chamou minha atenção, no entanto, foi uma série de fatores justamente relacionados à perseguição à moça. Vejamos quais são eles.
Em primeiro lugar, a estudante parecia bonita, assim como suas pernas. Ora, como todo mundo sabe, gente moça gosta de se exibir. Logo, nada mais natural que mostrasse suas qualidades aos olhos de todos. Não se faz isto nas ruas, nos dias e nas noites quentes? Nos bares, restaurantes, danceterias, boates, em toda parte? Quem nunca viu uma jovem com um imenso decote ou saias curtas numa sala de aula de faculdade – sobretudo numa noite em que “rola uma balada” – é porque nunca passou sequer na porta de uma instituição de ensino superior. E tal vestuário ofende alguém? Pelo que me lembro, só mulheres feias e invejosas ou rapazes que não apreciam semelhante paisagem... E não é que, para pasmo de todos, as vozes vociferantes que acuavam a moça não vinham justamente de homens? Que homens são estes? E, pior, que universitários são esses, que reagem quais fanáticos talebãs aos centímetros a mais de coxa mostrados pela jovem? Queriam que ela viesse de burka?
Se há uma típica canalhice dos povos latinos – mas não é exclusividade destas plagas, alguns mediterrâneos pensam ainda assim, e o Oriente quase inteiro adota esta causa – é a que consiste em depreciar e difamar uma bela mulher inalcançável. Em resumo, é mais ou menos assim: um sujeito deseja uma mulher, mas ela o rejeita ou sequer percebe que ele existe. Assim, ferido nos seus brios de macho desprezado, passa a dizer absurdos quanto àquela que o enjeitou – ou nem notou sua patética existência. É a versão humana da vingança dos mais fracos do bando, como se verifica na sociedade animal: também os macacos gritam estranhos impropérios quando um macho alfa arrebata-lhes a fêmea ou ela não lhes dá bola.
E não foi isto que verificamos no tal episódio?Foi, mas não só. Quem olhou com atenção para a jovem acuada, deve ter notado que suas formas, belas, contrastavam com cabelos mal pintados, um pouco secos, pouco cuidados, em suma. Seu polêmico vestido ou saia, também não pareciam dos mais caros que há na praça. Logo podemos inferir que a estudante longe está de ser rica. Acrescente-se a isto o fato de que a universidade que ela cursa, segundo todos os comentários, é freqüentada por jovens ricos preguiçosos ou esforçados rapazes e moças egressos da escola pública, cujo histórico recente, todos sabemos, é dos piores quanto à preparação para o vestibular (mais uma conquista do PSDB!). Em suma, ela pode não ser pobre, mas certamente não é endinheirada. Mas isto faz diferença? Faz, e muita.
Vivemos numa cultura de bajuladores, em que a maioria se comporta como cães à beira da mesa de seus donos. Abana-se o rabo e tolera-se tudo em troco das migalhas que os amos lançam. Só isso explica o sucesso de certas revistas e programas de televisão, por exemplo. Assim, os ricos são vistos como deuses, e os não ricos, investem-se como fiéis sem paga, adorando-os pelo prazer de adorá-los, perdoando-lhes as faltas, pois assim reza seu credo, e não se importando se os seus ídolos dourados percebem-nos ou não. De modo que, fosse a moça da minissaia ou microvestido alguém de posses, com roupa de grife e cabelos bem tratados, ninguém diria um ai a seu respeito. Antes, sairiam em sua defesa, até mesmo se a direção da escola objetasse ao seu vestuário – fosse ela rica, ou nem tanto, mas escandalosa como algumas o são, e talvez até lhe oferecessem um emprego de apresentadora de televisão, dessas emissoras que não tem o menor pudor em mostrar roupas curtíssimas de manhã, de tarde, de noite, etc., esses programas para a “família brasileira”...
Concluindo, cada um que se vista como quiser, onde puder. A moça não estava numa igreja, no fórum, na prefeitura, num velório ou numa escola de freiras. Mas numa universidade. Um local de tolerância, de mentes abertas. E ainda assim foi vaiada por seus colegas. É de se pensar que raios de universitários as privadas estão acolhendo e formando. Que raios de homens estão surgindo em nosso país, que não suportam, sequer, a vista das belas pernas de uma moça. A saia era curta? Pois a mentalidade deles é muito menor ainda.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de novembro de 2009].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana