Na última quinta-feira, 29 de outubro, um noticiário da Globo News anunciava o aniversário de 110 anos de nascimento do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961). Achei estranha tal efeméride. Ninguém comemora cento e dez anos de nada e, além disso, a data me parecia incorreta. Li todos os livros sobre ele publicados em português, alguns em inglês e espanhol e, até onde me lembrava, seu aniversário era num 21 de julho. Assim, chequei minhas fontes: eu estava certo. De onde tiraram tal informação é que não sei. Em todo caso, não custa falar um pouco do velho Hemingway, hoje meio esquecido, sobretudo entre os brasileiros.
Durante sua vida, ou melhor, dos seus trinta e poucos anos até a morte, foi ele o escritor mais famoso de seu tempo. Gerações de escritores, aspirantes de escritores, ou mesmo fãs sem qualquer talento, procuraram imitá-lo na escrita, no tipo de vida ou, como tais feitos não eram para todos, pelo menos nas bebedeiras. E como ele bebia! O dramaturgo e crítico literário inglês Kenneth Tynan (1927-1980) resolveu contabilizar o quanto bebeu no espaço de um dia, o casal de protagonistas de Do outro lado do rio, entre as árvores (1950): o homem, com cinqüenta e poucos anos, alter ego do autor, e a moça, deixando a adolescência, sua namorada. O personagem, sozinho, bebeu três martinis duplos e um gim duplo com Campari. Ao encontrá-la, dividem oito Montgomerys duplos (martinis secos preparados numa proporção de quinze para um). No jantar, tomam uma garrafa de vinho branco, uma de vinho tinto e duas de champanhe – uma outra ainda seria bebida mais tarde. E o homem encerra a noite, sozinho, esvaziando uma garrafa de vinho. Se alguém acha que esta é uma quantidade normal – a ponto de pô-la por escrito, e Hemingway era um escravo da verossimilhança – imaginem o quanto ele entornava...
Mas não é justo falar apenas de seus porres. Pois que vida ele teve! Tomou parte da Primeira Guerra Mundial, pescou no Caribe, participou de safáris, cobriu a Guerra Civil Espanhola, a invasão japonesa da China e a Segunda Guerra, conviveu com os maiores artistas de seu tempo, salvou-se milagrosamente de dois acidentes aéreos, quando foi dado como morto, casou-se quatro vezes, foi amigo de toureiros, lutou boxe como quase um profissional e ainda teve tempo de ver a Revolução Cubana. Ganhou muito dinheiro – e pagou uma fortuna em impostos – graças aos seus livros e de suas adaptações para o cinema (alguns bons, mas sempre muitíssimo inferiores ao original). E ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Até que pôs fim à sua vida da mesma forma intensa e drástica como a levara: encostou o cano duplo de uma espingarda Boss & Co. na testa (não no céu da boca, como muitos acreditam) e puxou os dois gatilhos ao mesmo tempo. O motivo? Hipertensão, depressão e paranoia, agravada por um tratamento à base de eletro choques.
Mas tudo isto, na verdade, não é o principal sobre ele. A vida de um escritor na verdade pouco importa e, sim, sua obra. Se é certo que seus personagens eram quase que uma cópia fiel do homem, é igualmente correto que ele escrevia muito, mas muito bem. Não sei se releria com prazer seus romances – salvo O Sol também se levanta, o primeiro publicado, de 1926 – ou mesmo sua única peça teatral, A Quinta Coluna, de 1938, mas, seus contos, soberbos em sua maioria, certamente que sim. Sua prosa seca, lapidar, clara onde deveria ser, porém altamente sugestiva na sua concisão, quando necessário, serviu de modelo a nove entre dez escritores, ou aspirantes a tal, seguramente, dos anos 1930 a 1970, ou 1980, eu arriscaria dizer. Tornou-se quase que um falar do século 20. O nosso Rubem Braga (1913-1990) que o diga: imitou-o na prosa e na vida – o que era aquela cobertura dele em Ipanema se não uma cópia em escala menor da casa de Hemingway em Cuba, a célebre Finca Vigía?
De uns tempos para cá, entretanto, pouco se fala dele por aqui. O que é uma pena. Sua obra é sólida. Meritória. Um homem escrevendo para os homens do seu tempo. De forma dura e pontual. Não se entende, aliás, o comportamento masculino do século XX sem ler os seus livros. Nem a educação que muitos filhos receberam, e ainda recebem até hoje.
Pois que seja então celebrado o seu centésimo décimo aniversário, ainda que em data equivocada. O velho Hemingway, aliás, nem se incomodaria com isto. Desde que se levante um brinde a ele e que se leia algo do que escreveu, já ficaria contente. Reconhecido. Satisfeito.
Da minha parte, é isto que vou fazer. Tão logo tenha posto o ponto final desta crônica, prepararei um drinque e lerei um de seus contos. Isto sim é que é homenagem.
À sua saúde, Papa Hemingway!
Pois que seja então celebrado o seu centésimo décimo aniversário, ainda que em data equivocada. O velho Hemingway, aliás, nem se incomodaria com isto. Desde que se levante um brinde a ele e que se leia algo do que escreveu, já ficaria contente. Reconhecido. Satisfeito.
Da minha parte, é isto que vou fazer. Tão logo tenha posto o ponto final desta crônica, prepararei um drinque e lerei um de seus contos. Isto sim é que é homenagem.
À sua saúde, Papa Hemingway!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de outubro de 2009].
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