Sempre achei o uso de pulseiras, sobretudo da parte dos homens, de uma cafonice atroz. Aliás, o simples ostentar de jóias, por alguém do sexo masculino, parece-me de um mau-gosto insuportável. Respeito alianças (de compromisso, noivado casamento), uma corrente com a medalha do santo de devoção (ou o Crucifixo, ou a Estrela de Davi, para os judeus, ou outros símbolos permitidos pelas demais religiões). Da mesma maneira, não sou contrário aos anéis de formatura – ainda que nunca fosse capaz de imaginar-me usando um. Não me oponho aos prendedores de colarinhos, ou de gravatas, nem a broches ou alfinetes (hoje chamados de pins e bottons) que indicam a filiação ou pertencimento de seu portador a uma confraria, partido político, clube, sociedade, ordem honorífica, etc. Nem me oponho àqueles que usem um brinco numa orelha – dois, convenhamos, já é demais. Mas admitindo-se que o uso deles é livre – como, defendo, devem mesmo ser – também há que se ter certa morigeração no seu emprego, sob o risco de, excedendo um certo equilíbrio, um sujeito vir a parecer uma vitrine ambulante de jóias, para ficarmos numa comparação lisonjeira: outras, muito piores, são possíveis. E nem sequer tratamos dos piercings ainda...
Confesso que, atualmente, surpreendem-me certos homens que se adornam com grossas correntes pendentes do pescoço e amplos medalhões em suas pontas, exibidos no peito aberto de uma camisa justa, geralmente acetinada. Tal modismo, ou ausência dele, parece-me, e a muitos, uma reprise do que de pior – salvo as ditaduras – os anos 1970 foram capazes de produzir.
Mas mesmo os outros itens mencionados, sem o correto emprego, sem economia, podem horrorizar qualquer pessoa. Imaginemos um hipotético exemplo, nem um pouco impossível, visto que já vi vários deles em pelo menos cinco estados brasileiros, sem contar o Distrito Federal: imaginemos, portanto, um jovem contestador (com pelo menos um piercing e um brinco, e seu botton do PV), recém graduado (com o anel de formatura que seus pais lhe deram) em Direito (com o seu broche da OAB na lapela do paletó), que está noivo (com sua aliança) e que acabou de voltar de uma viagem à Bahia (com sua pulseira/fita do Senhor do Bonfim). E acrescentemos à sua indumentária um prendedor de gravatas (destes que levam ainda uma correntinha, muito comuns entre os estagiários em Belo Horizonte). É ou não é de assustar?
Retornando às pulseiras, os leitores com mais de trinta anos talvez se recordem da Pulseira Sabona, feita originalmente de cobre e que muita gente honesta e decente a usou por seus supostos poderes curativos, antiestressantes ou que tais. Como a peça era um bocado feia, ou parecia um índice pouco sugestivo da “prosperidade” de seu possuidor (vivia-se, então, a legenda da eficácia do “pensamento positivo = riqueza”, que misturava uma escuma de conhecimento esotérico com a borra de um capitalismo tacanho), logo surgiram as versões com banho de prata ou de ouro, que eram uma tremenda negação do princípio ativo da coisa (a liberação de cobre a ser absorvida pela pele), em prol da, suposta, exibição de boa condição financeira. Não posso dizer se as tais pulseiras funcionavam ou não, porque em menos de uma década elas foram praticamente abolidas nestas plagas. Também não tenho profundos conhecimentos na área da Medicina (uma ciência em eterna mutação), para avaliar os dons curativos da pulseira. Como um estudioso da História, entretanto, conheço muito bem tal sorte de amuletos, de maneira geral conhecidos como simpáticos (“próximos à doença”, numa tradução livre). Grosso modo, sua utilização equivale a beber um copo de vinho, no qual esteve imerso um prego de ferro, para suprir as carências de Ferro que uma pessoa tem em seu organismo. Em suma: está mais próxima da Magia e da Alquimia do que da douta Medicina dos nossos tempos. Mas tudo bem, nada contra. O apego às tradições centenárias é, muitas vezes, uma delícia e um conforto.
O problema das pulseiras atuais, entretanto, é de outra natureza, como, acredito, todos saibam. Trata-se do uso delas, por adolescentes, como um código para aproximações físicas ou sexuais que, parece, chegou até mesmo a resultar no estupro de uma jovem em Londrina, PR.
Segundo o que o grosso da imprensa tem alardeado, o código das pulseiras – mais utilizadas pelas moças do que pelos rapazes – é baseado nas cores vermelho, amarelo e verde, reproduzindo o dos semáforos das esquinas. Assim, vermelho diria: “não estou a fim (sequer de aproximação)”; amarelo significaria: “estou aberta a uma cantada (desde que seja boa)”; e, verde: “venha aqui já, otário (pode fazer a festa)”.
Entretanto, me parece que esta sinalização é mais grave do que aparenta ser e do que a grande mídia nacional nos informa. Nos Estados Unidos da América, nosso Grande Irmão do Norte, esta prática vigorou há alguns anos (não sei se ainda vigora) e seu código, além de incluir mais cores no espectro das “disposições amorosas” de seus usuários, indicaria, isto sim, as práticas sexuais ou carícias que seus portadores estariam dispostos a oferecer, independentemente do rompimento das pulseiras. E, acredito, seja este o motivo do pânico gerado junto a certas famílias e autoridades daqui pelo uso destes “convites” nos pulsos dos jovens. Medo criado graças à inexatidão das informações à respeito dos “sinais” e de suas consequências, parcamente ventiladas, com a brandura da um movimento de leque, pela grande imprensa, a qual não procura relacionar as múltiplas implicações daquele sistema de sinais, O qual, possivelmente, vitimou a pobre jovem de Londrina.
E quanto à proibição das vendas das pulseiras por parte do Estado (já em vigor em Campinas e Hortolândia, até onde sei, pretendida em Holambra), creio que se trata de um absurdo. Hoje proíbem-se pulseiras coloridas, amanhã bottons e pins, depois de amanhã anéis e brincos, e... e depois, onde vamos parar?
O Estado não tem nada de que se envolver num assunto destes. Proibi-las nas escolas, sob sua responsabilidade, até que passa. Como o uso de celulares e bonés (uns porque atrapalham as aulas, outros porque os dissimulam e, afinal, nem são indispensáveis: não bate sol a pino dentro das salas de aula nem há nada que não possa ser resolvido pelo telefone fixo da escola).
O problema das ditas pulseiras é de âmbito puramente familiar e pessoal. Das famílias, que podem arrancá-las dos braços de seus petizes, ou cerrar-lhes as portas para que não saiam com elas, ou, antes e melhor, que os esclareçam da vulgaridade e dos riscos aos quais se expõem. E, finalmente, dos próprios usuários, sem dúvida, que parecem se escravizar a um comportamento estúpido imposto por uma suposta maioria e que se deixam algemar passivamente a ele, em completa subjeção.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de abril de 2010].
Bolinhas feito pérolas
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