Na quarta-feira desta semana, dia em que o Catolicismo celebra a triste cerimônia do Ofício de Trevas com o fim de lembrar a toda humanidade que o mundo já está em trevas devido à proximidade da morte de Jesus Cristo, o então Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, José Serra de Chirico, anunciou seu afastamento do cargo a que foi eleito para disputar a Presidência da República.
Muitos piadistas ficaram em polvorosa. Ouvi de alguns: “O Serra, que muitos chamam de “o vampiro brasileiro”, se afastando em plenas Trevas, tem tudo a ver: vai ocupar seu espaço natural”. Um outro acrescentou, em tom de censura: “Depois ele não gosta que o comparem a Nosferatu,” – o vampiro da célebre adaptação cinematográfica do Drácula, de Bram Stoker, por F.W Murnau, de 1922 – “mas, vejam só, como o porte, a pele, a calva, e as orelhas, que noite após noite vão ficando mais pontiagudas, se assemelham à caracterização que o ator Max Schreck deu ao personagem” – concluiu. Um outro ainda declarou que, além do oportuno da data, via uma grande possibilidade de ascenção de sua campanha: “Já que tanta gente se interessa por vampiros hoje em dia – veja-se o fenômeno da série Crepúsculo, de Stephenie Meyer – é provável que ele tenha um grande número de cabos-eleitorais. O problema vai ser, com aquela cara, provar que é um vampiro do bem”.
Concordo que, apesar de risíveis, tais afirmações não são dignas de serem proferidas quanto ao Ilustríssimo Titular do Executivo Estadual. Como também não o são ao defuncto governador que em meio às Trevas se licencia – defuncto, na etimologia latina, é o nome que se dá a quem já exerceu sua função, functio, como no caso). E, igualmente, acho deploráveis quaisquer alusões quanto à sua aparência física. Àtila, o huno (406-453 d.C.) e Gêngis Cã (c. 1162-1227), jamais foram exemplos de beleza e, no entanto, foram homens de expressiva dedicação, vontade de trabalhar e amor por sua terra, a ponto de quase unificarem Europa e Àsia – pretensões que, até onde sabemos, não tem o nosso ex-excelentíssimo senhor governador. Em suma, que cada um seja feliz com a cara que tem e que se respeite isto.
O que me preocupa muito mais são as intensões do agora cidadão Chirico, o Breve, aquele que eleito senador, em 1994, com uma expressiva votação, abriu mão do posto (quem se lembra de seu suplente, eleito sem votos?), para ser Ministro do Planejamento. Pois ele cumpriu a função até seu término? Não: em 1996 largou o posto para concorrer à Prefeitura de São Paulo, perdendo-a para Celso Pitta. Gozando de uma espécie de Seguro-Desemprego jamais conhecida por qualquer cidadão brasileiro, foi ele reconduzido a outro cargo, mais uma vez de Ministro, desta vez da Saúde. E concluiu sua administração da pasta? Mais uma vez não: lançou-se candidato à Presidência da República. Resultado? Derrota. Do limbo político em que mergulhou – ou das trevas, como diriam outros – candidatou-se à Prefeitura de São Paulo, à qual logrou. Porém, menos de um ano e três meses depois, deixou a administração da maior cidade da América Latina a um político sem expressão nenhuma até o momento. E apresentou-se como candidato a Governador.
Pois se o seu amor por São Paulo é tão intenso como diz, seria de se esperar que continuasse no governo até o fim de seu mandato. E, até – valha-nos Deus! – que tentasse a reeleição. Por que, então, abandonar seus eleitores por uma aventura meramente pessoal? Porque ele tem uma obsessão, como declarou ao deixar o cargo.
Uma obsessão! Esta palavra fere os ouvidos até dos menos incultos, dentre os quais, acredita-se, ou acreditava-se, o defuncto Chirico, o Breve, não gostaria de se ver incluído. E ele pronunciou-a, e a seu modo de ver o mundo, com toda a ênfase: “Sou considerado um grande obsessivo, mas minha grande obsessão foi servir aos interesses gerais do meu estado e do meu país”.
Ora, uma obsessão, salvo ignorância de quem usa o termo, o que não parece ser o caso, seria um tipo de mania, ou melhor, uma patologia, que necessecita de um tratamento psicológico, e clínico, adequado. Como, também, em termos espíritas – concordemos com eles ou não – o resultado da influência nefasta de espíritos mal-intencionados sobre uma pessoa. Portanto, o que justificaria seu emprego naquela solene despedida do cargo? Pobreza vernacular (ignorância), declaração de princípios (mal ocultada, por julgar a audiência abaixo de sua pessoa), ou exposição de sua alma e de sua psique (revelada por uma sensação inerente de culpa que não lho permite silenciar – à qual chamam, por vezes, de lapsu linguae)?
Jamais saberemos o que se passa pela cabeça do, doravante, Cidadão Chirico, o Breve. Mas sinto-me forçado a reformar uma antiga suspeita. Não chegaria ao ponto de dizer, como alguns amigos, que, dado o hábito daquele senhor de tantas vezes candidatar-se a cargos públicos cada vez mais poderosos (e visto que anunciou seu afastamento do Palácio dos Bandeirantes na Quarta-Freira de Trevas), sua intenção seria anunciar-se como o Salvador da Pátria, ressucitado, em pleno Domingo de Páscoa.
Não! Isto é uma infâmia! Acredito piamente que o Chirico, o Breve, jamais se deixaria aproximar de tal heresia – sabe-se, aliás, que ele, espiritual e intelectualmente, sempre esteve ligado à sua paróquia na Mooca. E, depois, as campanhas não lhe dão tanta vantagem assim.
Mas como gosto de me precaver, peço, mais uma vez, a Deus – por conta dos trâmites eleitorais, ou pelo passar do tempo e da política, ou quanto aos dias que nos esperam no futuro, e, por garantia – que Ele conserve em saúde o Santo Padre. Pois, na sua ausência, não é de se duvidar que surja um candidato paulista, deixando o cargo, qualquer que seja ele, que porventura ocupe. Pois não seria bem do feitio de uma certa pessoa candidatar-se a uma vaga num puleiro ainda mais alto, ainda mais sensacional?
Em vista de tudo isto, e de outras mais, compunjamo-nos, todos, portanto, pelo período de trevas que se iniciou na quarta-feira passada. Que Deus expulse as trevas. E uma Feliz Páscoa.
[Publicado originalmente no Jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].
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