quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As Chuvas, outra vez

Numa crônica (De volta à colônia, de 5/5/2007) publicada neste mesmo espaço, referi-me, em linhas gerais, à perpétua repetição de certos eventos dignos de comentários que, dada a sua regularidade, dir-se-ia serem mesmo sazonais. Ou seja, o que pensei na hora, mas que então não pus em letra de forma, como se diz, foi que parecia haver, de fato, uma espécie de estação do ano para que ocorressem tais episódios; ou, ainda, que mesmo que livres de uma tal regra, visto que todos os anos ocorria algo do gênero, tratar de tais temas era tão obrigatório, e esperado, quanto escrever a crônica do Natal, do Fim do Ano, etc.
Lembro-me que, no texto em questão, disse o seguinte:

“Acredito mesmo que, num prazo muito curto, ainda veremos as notícias de homicídios ocorridos no Brasil ao lado daquelas que tratam de atentados no Iraque, de descarrilamentos de trens no Paquistão, de vítimas de terremotos na Turquia ou de erupções vulcânicas na Guatemala. Ou seja, fenômenos tão comuns — senão sazonais — e tão previsíveis nos países do Terceiro Mundo que não são mais, sequer, notícias, mas, sim, mera estatística para os países centrais”.



O mesmo, aliás, vale dizer, como o disse (Um novo pistoleiro americano, 21/4/2007), quanto à ação de atiradores malucos nos Estados Unidos, que, por sinal, bem recentemente teve uma reprise:

“[...]a verdade é que “massacres” perpetrados por atiradores solitários nos Estados Unidos são, no fundo, tão comuns quanto morticínios no Oriente Médio, tiroteios no Rio de Janeiro, etc”..


Já no ano seguinte (Desastre anunciado, 6/12/2008), tratei das enchentes que assolaram algumas cidades de Santa Catarina e Espírito Santo em virtude não só das condições climáticas, como, e principalmente, da incúria das autoridades públicas:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. [...]Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.


E há quase um ano (Mais uma vez o desastre, 20/4/2010), foi a vez de comentar o que ocorreu em Angra dos Reis e São Luís do Paraitinga, e no Rio de Janeiro e em Niterói, quando disse:

“ [...] São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país”.


Agora vejamos estes horrendos episódios ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro.
É um fato que a quantidade de água que caiu dos céus foi bastante grande. E que, no caso de Teresópolis, a cidade mais atingida, sua topografia (o município é um funil entre altas montanhas) colaborou na produção daquele quase dilúvio – horripilante e tristíssimo, aliás, ao qual pudemos assistir no conforto de nossos lares secos e distantes do ocorrido, com direito a comovedores depoimentos de intrépidos repórteres relatando suas pontuais intervenções no resgate das vítimas (mais uma prova de que certa parte da imprensa converteu a notícia em espetáculo e produto, e para valorizá-lo, faz-se propaganda de quem o produz). Mas voltando ao caso, mesmo em Teresópolis, e também em virtude do tal aspecto que é próprio à cidade, mas sobretudo nas cidades vizinhas, o que mais uma vez se verificou é que muitas vidas e casas teriam sido poupadas se as autoridades públicas atuassem com o zelo necessário, impedindo a construção de imóveis em áreas de risco, sejam elas encostas de morros, sejam elas várzeas inundáveis. Em suma, os problemas estão lá, de antevéspera. Bastou uma chuva, anunciada, para revelá-lo da maneira mais grave.
As autoridades federais já prometeram mundos e fundos para tentar socorrer as vítimas. O que está correto. Mas discordo quando dizem que tais catástrofes devem ser sanadas pela União, estados e municípios em conjunto. Pois não é justo que incompetências estaduais e municipais onerem a Nação como um todo. Os contribuintes do Oiapoque ao Chuí não deveriam ter que pagar a fatura da falta de planejamento urbano, e fiscalização, de qualquer prefeito, ou governador, esteja ele onde estiver. Somos, e deveremos ser, sempre, solidários no desastre, mas não temos de ser eternos financiadores de suas políticas equivocadas. Ou ineptas. Acho que já passou da hora de darmos um basta a este quadro vergonhoso.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2011].

De alguns milagres e coisas que tais

O agudíssimo filósofo Voltaire (1694-1778), numa série de textos tornados imprescindíveis ao conhecimento dos homens inteligentes, tratou largamente da questão dos milagres e de uma maneira tal que quase os inviabilizava. Pois, segundo ele, em termos gerais, se um milagre é uma violação das leis eternas e imutáveis estabelecidas por Deus, ninguém mais do que Ele seria zeloso pelo cumprimento das mesmas. Seria, portanto, impossível que um Ser infinitamente sábio criasse normas passíveis de serem quebradas, ainda que pelo onipotente criador daquelas normas. Pois Ele nada teria feito sem razão e, pois, com que razão poderia Ele desfigurar, por algum tempo que fosse Sua própria obra? Da mesma maneira, dada a relativa raridade dos milagres, seria possível supor que o Criador agisse em prol de algumas pessoas em específico e que ignorasse os anseios ou necessidades de milhares, se não milhões, de outras. Mas se houvesse tal distinção entre uns e outros, seria necessário que Ele mudasse tudo o que estabeleceu para todos os tempos e todos os lugares como doutrina a ser seguida, como prática a ser cumprida por Seus fiéis, e veríamos Sua figura, enquanto ideal de extrema Justiça, de forma bastante enviesada. Ou relativizada. O que seria impossível a um Absoluto de tão excelente natureza. De forma que, para encerrar a questão de uma maneira que fosse conveniente à questão da Onipotência divina e que não ferisse a lógica, o sábio francês acabou por renegar os milagres enquanto eventos maravilhosos, inesperados e contrários à natureza, preferindo-os definir como ação deliberada da Providência, nada aleatória e nem um pouco inexplicável. E assim Voltaire silenciou por um tempo seus censores enquanto apaziguava sua consciência.
Mas por que isto de milagres numa hora destas, visto que o Natal já passou e temos meses até a Semana Santa? Porque não há como pensar no episódio do recém nascido encontrado num terreno na periferia de Belém, PA, no dia 25 de dezembro. O simples encadeamento, e coincidência, de dados, datas e nomes, nos leva a imaginar que a sobrevivência da criança – lançada nua, num saco plástico, por cima de um muro – deu-se pela intervenção de alguma força que não a mera sorte. Pois se haveria um menino que deveria ser salvo da morte em pleno dia de Natal, certamente seria um nascido nos arrabaldes de Belém, mesmo que não na Palestina, e sim no Pará. Trata-se do tipo de episódio que faz com que pensemos em milagres ou na Providência, ou em qualquer outra operação divinha possível de ocorrer num caso desses e que o justifique. Ou, como disse um amigo, “em tais circunstâncias, e com tantas coincidências, Deus tinha que se manifestar: era Seu dever e obrigação”. Vá lá que, do ponto de vista teológico, sua explicação soe meio rasteira. Mas, não encontrei pessoa que não pensasse a mesma coisa. Que não visse a aura de um milagre, ou algo do gênero. E eu mesmo considero que a sobrevivência do bebê em tais condições, data e local, comoveu-me sinceramente, arrancando-me até algumas lágrimas e reascendendo um pouco do meu misticismo. Poucas vezes vi algo que se parecesse tanto com uma manifestação de clemência divina tal como dela ouvimos falar. Pode-se dizer, inclusive, que tal sucesso encerrou brilhantemente o ano.
Um ano, aliás, que mesmo com alguns dissabores particulares – quem não os tem, afinal? – considero que foi ótimo para todos nós brasileiros. Enquanto o mundo amargava uma crise histórica, a nossa economia cresceu, a humilhante e infame desigualdade sócio-econômica regrediu, milhões de empregos foram criados, tornamo-nos grandes produtores de petróleo, o desmatamento está quase sob controle e tivemos a oportunidade de rechaçar nas urnas, em âmbito federal, velhas e atrasadas políticas (o neoliberalismo predatório usufruído por alguns compadres), elegendo, em seu lugar, a continuidade do novo: mais novo, aliás, porque finalmente emplacamos uma mulher como Presidente da República, mesmo que com certo atraso (até os machistas Chile e Argentina já tinham conseguido isto).
Em suma, 2011 promete, e não é do alto dos palanques. Torcemos para que vejamos, se não outros milagres, coisas tão boas quanto. Estes são meus votos a todos os leitores. Um ainda mais feliz e cada vez mais próspero futuro tendo 2011 como princípio! Ou continuação...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de dezembro de 2010].