sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Caçando lobisomens – Parte I

Agosto tem o dia do Folclore, data que prezo, e que me escapou neste ano. Mas como nunca é tarde demais para certas coisas, seguem aqui uns causos, não de ouvir falar, mas de ler em boa letra impressa. Causos de lobisomem, esta figura do folclore, como aprendemos, ainda que exista quem jure de pés juntos que já viu um. Lembro-me de um velho conhecido meu, hoje Doutor pela USP, que me garantia por a + b que seu pai não só caçara lobisomens, lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul, como teria várias fotografias dos mesmos. Não duvido, apesar da ausência de provas documentais. Pois o irmão daquele meu antigo confrade, doutorando pela Unicamp, não é de hoje que tem publicado artigos sobre os monstros na Literatura em influentes revistas universitárias: em suma, aquela família tem lá os seus segredos. Mas antes de tratarmos dos referidos causos, que os leitores me permitam um intróito.
O Cavaleiro de Oliveira, nom de plume de Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), que era, de fato, Cavaleiro da Ordem de Cristo, entra na história literária portuguesa meio que a golpe de espada. Pois ele não foi, assim, um grande escritor de seu tempo e hoje mesmo ele é, aqui e ali, um pouco enfadonho. Mas teve a sorte de viver numa grande época e foi, em seus escritos, o mais próximo de um literato libertino que Portugal seria capaz de produzir. Discorreu sobre muitos temas modernos à época, quase revolucionários, ao mesmo tempo em que cultuava as musas e os valores clássicos como qualquer outro conservador de seu tempo. Foi diplomata, ocupando postos relativamente inferiores, em Viena e Haia, lugares onde granjeou a fama de namorador e pequeno estróina, sempre afundado em dívidas. Casou-se três vezes, e na corte do Imperador austríaco foi amigo do Príncipe da Valáquia e Moldávia (na atual Romênia) e amante da mulher deste, considerada então a mulher mais bela de Viena. Como foi padrinho de um dos filhos do casal, especula-se que o rebento na verdade era seu. Depois levou uma vida meio errante, procurou apoio para suas eternas demandas contra o Estado junto ao embaixador português em Londres, Sebastião José de Carvalho e Melo (o futuro e bem conhecido Marquês de Pombal) e, naquela cidade, abjurou o Catolicismo e se converteu ao Anglicanismo. Por conta disto, e por alguns de seus escritos, foi condenado à morte pela Inquisição portuguesa, em 1761, mas como não conseguiram por as mãos nele, foi “queimado em efígie”, ou seja, queimaram um retrato seu num auto-de-fé, junto com outras pessoas – estas, sim, arderam em praça pública.
Este longo intróito é porque tenho muitas simpatias pelo Cavaleiro de Oliveira, que, em minha opinião, foi o único exemplar de um cavaleiro da fortuna, ou de indústrias, em Portugal: um real aventureiro, dos muitos que vicejaram naquele tempo, ainda que só nos lembremos de Giacomo Casanova, de José Bálsamo (soi disant Conde de Cagliostro) ou mesmo daquele velho pilantra que também se auto-intitulava Conde e profeta, o Sr. Claude-Louis de Saint-Germain.
Pois bem, o nosso Cavaleiro conta que, quando jovem, saía às ruas de Lisboa, à noite, espetando cães briguentos para ver se, de supostos lobisomens que poderiam ser, retornariam, pelos golpes, à forma humana. Cometeu, confessa, tais violências, das quais se arrependeu pelo resto da vida, motivado por um dever cristão – romper o fado daquelas amaldiçoadas criaturas – e animado pelos muitos casos de lobisomens que se contavam pela cidade. Mas, segundo ele, dois homens que conheceu tinham a reputação de serem lubis-homem (como grafa Camilo Castelo Branco), ou homem-lobo, homem-diabo ou Lusbel-homem (preciosa dica etimológica, já que Lusbel é uma das variações do nome Lúcifer, o do anjo caído, e que pode indicar mais o aspecto demoníaco do ser do que sua semelhança com um lobo, uma fera muito rara em Portugal – e inexistente no Brasil, daí alguns autores, como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre tratarem de lobisomens que, na verdade, se transformavam em porcos... como os confrades de Ulisses...). Mas voltemos aos causos do Cavaleiro. Dizia ele que toda a gente em Lisboa apontava um conselheiro da Rainha (D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V) e procurador da coroa, de nome Belchior do Rego de Andrade (que teve a honra de ser louvado num elogio fúnebre, impresso em 1738, de autoria do Marquês de Valença), um tipo “esquelético, desabrido no temperamento, hediondo de figura” e que, no entanto, “passava justamente por homem de bem, juiz íntegro, zeloso e desinteressado”. Mas nosso Cavaleiro fugia dele sempre que podia, conquanto fosse seu vizinho e amigo de seu pai, e somente quando lhe foi possível, ao Cavaleiro, portar espada, é que aceitou travar relações com o homem. Ou com o lobisomem.
O outro indivíduo, este, ilustríssimo, que na opinião de nosso herói, bem como na de “outros portugueses que o conheceram e a quem não é estranha a significação do Lupus-homo” e que pensavam como ele, era nenhum outro que não D. Luís da Cunha (1662-1749), “um grande senhor; um grande ministro por sua sabedoria; mas lá pela cara é um dos perfeitos lobisomens de Lisboa”, como pensou o Cavaleiro tão logo conheceu o embaixador português em Haia, em 1734. D. Luís da Cunha, quem diria! Ministro plenipotenciário de Portugal em Londres, Utreque, Haia e Paris! O homem de agudíssima visão que não só apadrinhou Sebastião José (o futuro Pombal) como ministro, como até sugeriu a transferência da corte portuguesa para o Brasil! Extremamente culto, grand seigneur, e que aos oitenta anos tinha como amante uma jovem belíssima, apresentada a todos como, quase, uma companheira ungida pelos sacramentos – e, pasmem, cristã-nova, senão professando o judaísmo em segredo!
Por conta dessas informações, pensei em caçar, por brincadeira, supostos lobisomens dentre pessoas notáveis. Os avanços foram poucos até agora, mesmo porque tenho coisas mais sérias para fazer. Mas, por que não jogar este jogo nos meus momentos de lazer? É muito mais divertido que videogame... E, dando tratos à bola, e pesquisando aqui e ali, encontrei um candidato notável ao posto de “lobisomem ilustre”. Trata-se, pois, de ninguém menos do que o poeta, ouvidor de Vila Rica e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
“O quê? Gonzaga, lobisomem? Heresia! Vergonha! Crime de lesa-pátria!” É o que, certamente, muitos pensarão, e já advirto que, de nossa parte, não passa de uma brincadeira, um exercício de criação literária. Vá lá que ele fosse o sétimo filho depois de seis irmãs (condição para o nascimento de um lobisomem presente em nove entre dez estudos sobre o tema no Brasil). E que nasceu em Agosto (“mês de cachorro louco”, aqui e em Portugal, onde ele veio à luz), e, mais ainda, no dia 11 daquele, segundo os registros (mas é de se crer que, se tivesse nascido no aziago 13 de agosto, seus pais o registrassem noutra data). Só faltava ser uma sexta-feira 13, para seu fado de lobisomem ser completo! Mas os calendários registram que, naquele ano de 1744, houve uma sexta-feira caindo em 14 de agosto. Porém, há uma diferença cabal nas contagens das horas oficiais, como as que seguimos hoje, e as litúrgicas, à Liturgia das Horas, que imperava no quotidiano de muita gente então. De modo que, nascendo ainda numa quinta-feira 13, o horário poderia já pertencer à sexta-feira – as Completas, não se celebram necessariamente à meia-noite, e criam um vínculo entre um dia e outro. E, quanto ao homem, parece que era igualmente taful e mundano como D. Luís da Cunha. Tal exercício de suposições não passa de uma brincadeira, é claro. Acho mesmo que renderia umas historietas bem curiosas, e de divertida leitura. Pois já não escreveram até uma A Escrava Isaura e o Vampiro, uma Ana Karenina Andróide, um Orgulho e Preconceito e Zumbis? Por que não um Marília de Dirceu, o Lobisomem?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2011].

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dez anos do “11 de setembro”: e nós com isto?

Por conta da celebração de uma década dos atentados que abalaram os EUA, estamos vendo, a todo momento, na televisão, nas revistas, nos jornais, e na internet, pequenos flashes sob o título “onde você estava no 11 de setembro?” ou que tais.
Acho isto uma bobagem sem tamanho, uma tentativa um tanto canhestra de animar as nossas vidas, em geral sem consciência histórica, sem noção do tempo vivido e passado, com a finalidade de nos fazer acreditar que fomos testemunhas de um evento sem par na história. De fato, ele foi mesmo praticamente sem igual. Mas nosso grau, dos brasileiros, enquanto testemunhas, deu-se de uma maneira um tanto quanto marginal, periférico mesmo, salvo por um ou outro patrício que estivesse por lá. Pois assistimos ao episódio confortavelmente à distância, como aos terremotos do México, Califórnia e Chile, aos tsunamis do Oceano Índico e Pacífico, ao acidente nuclear de Chernobyl, à queda do Muro de Berlim, à eleição de Barack Obama, a este ou aquele nome ganhador do Prêmio Nobel, ou do Oscar, ou àqueles incontáveis ataques terroristas menores que ocorrem quase mensalmente. Tais fatos nos dizem respeito somente porque ocorreram em nosso tempo, mas nada nos liga diretamente a eles. Pulgas que somos a saltar pelo corpo do gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”, o que de fato nos afeta são as agressões ao nosso estômago (o bolso): se o sangue (a Economia) do gigante (a Botocúndia onde vivemos) enfraquece-se quanto aos seus nutrientes (estabilidade) ou se contamina (inflação, flutuação cambial, etc.), só aí sentimos o golpe. No mais, o resto do mundo é, para nós, em geral, uma série de locais de compra, uma vaga referência cultural para alguns, a terra dos ancestrais ou o próximo destino nas férias. De modo que há até mesmo um certo traço de esnobismo, fumos de parvenus, para não dizer cabotinismo completo, em certas lágrimas de jacaré deitadas por nossos conterrâneos pelas vítimas do atentado. Certas manifestações parecem dizer: “Nós, [brancos(?)], no Brasil [de classe média, ou média alta], choramos os mortos de Nova Iorque [porque são brancos e a eles seguimos como modelo – de consumo, mas não no mais] e, claro, somos solidários também a todos os outros males do mundo [estes que agridem gente “escura”, que vive onde Judas perdeu as botas], mas, neste momento temos por primazia celebrar os mortos [gente branca, rosada, bonita e rica, como a gente gostaria de sermos (sic)]”.
Em vista disto, e já que está na moda falar do “11 de setembro”, pois bem, darei meu depoimento. Eu estava dormindo quando a coisa começou. Logo que acordei, abri a janela de meu quarto e deparei-me com um jardineiro – não me lembro de seu nome – que realizava alguns serviços no quintal. Mal ele me cumprimentou, perguntou-me se eu achava que o que estava acontecendo nos Estados Unidos poderia ocorrer também no Brasil. Não tinha ideia do que ele estava falando, mas arrisquei uma negativa: “não, isto é lá um problema deles”, disse, então. E, em grande parte, foi mesmo. Mas decidi que era melhor ligar a televisão e ver do que se tratava. E a surpresa e o susto me assaltaram: nem bem me interava do ocorrido e pude assistir ao segundo avião projetando-se contra a torre que ainda não sofrera ataques. Passada menos de meia hora, um confrade, emérito gozador, me telefonou e disse: “Osama bin Laden é o maior jogador de xadrez de todos os tempos – tombou duas torres com apenas dois lances!”.
Este é o meu testemunho do que vi e ouvi na ocasião. E, risos à parte, é claro que nos apiedamos de todas aquelas vítimas, e dos heróis que perderam suas vidas no episódio. Mas o seu “efeito profundo”, como muitos hoje apregoam, não se vislumbrara, então.
Ora, o que afetou, de fato, a vida dos brasileiros depois do fatídico ataque? Praticamente nada. Com exceção de certas mudanças quanto aos objetos com que podemos embarcar num vôo doméstico ou internacional, tudo permanece como antes.
É verdade que tais diretrizes de segurança aérea provocam certos desconfortos. Houve o caso de um nosso Ministro das Relações Exteriores que foi obrigado a tirar os sapatos para entrar nos EUA (pois se “o grande pai branco” manda, o “pele-vermelha” obedece, porque tem juízo). E, de minha parte, tive que descartar, numa lixeira, no Aeroporto de Viracopos, um alicate de unhas que levava em minha bagagem pessoal, e, por pouco, quase que me vai também uma régua metálica – esta causadora de duas vistorias (uma radiográfica e outra física) em minha pasta.
Ah, que momento, fugidio de glória maléfica e poder de destruição senti naquele momento! Era como se eu fosse um demônio terrorista prestes a tomar o avião, munido de armas da mais alta precisão – porque um alicate de unhas e uma régua metálica têm um infinito poder letal, como sabemos, sobretudo manuseadas por um exímio praticante das artes marciais como eu (faixa azul em Judô, em 1981, pelo menos dez quilos acima do peso, hoje, com 2,5 graus de miopia e vítima em potencial da “síndrome da classe econômica”). Com tais credenciais, não tinha eu motivos para sentir-me um perfeito sabotador? Por instantes imaginei-me tomando a aeronave, com aquele meu eficiente aparato bélico, talvez lá pelas alturas de Oliveira ou Carmo da Mata, e desviando o vôo, que rumava para Belo Horizonte, e cujo combustível, provavelmente, só daria até lá, em direção à estátua do Jeromão, em Barretos, ou contra o Borba Gato, da Avenida Santo Amaro, em São Paulo. Seria o meu próprio 11 de setembro em junho. Mas, felizmente, não tenho propensões homicidas ou suicidas. E assim não tomei de assalto – com minha perícia e audácia já demonstradas, além de meu poderoso arsenal – nenhuma aeronave em trânsito para Minas. Nem destruí aquelas aberrações estatuárias gigantescas: que o peso de sua estrutura e feiúra recaiam nos ombros de quem as encomendou e pagou por elas!
Em suma, devemos, acredito, e defendo, prantear as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Morrer de morte morrida (seja natural, seja por meio de calamidades, desastres, epidemias, etc.), é uma coisa. Morrer de morte matada é outra bem diferente. E injustificável, salvo em caso de real legítima defesa. Não a hipotética “defesa do Islã” frente aos ataques da Cristandade capitalista, nem a “defesa das Escrituras” frente à “licenciosidade do mundo”: pois saibam os leitores que muitas igrejas evangélicas norte-americanas, de uma certa maneira, ratificaram os atentados terroristas, em termos quase idênticos aos fanáticos muçulmanos que perpetraram tal ato. Disseram aquelas congregações neopentecostais que tal horror se deu, naquela cidade, porque ela estava imersa em crimes e pecados. Porque ela teria merecido.
Homens de bem, dentre os quais eu procuro me incluir a cada dia de minha vida – algo natural pelo meu temperamento e formação, e que, todavia, parece mais difícil, frente aos “exemplos de sucesso do momento”, que ignoram tais valores – devemos repudiar tais atos e, na mesma medida, os discursos que proclamam uma certa legitimidade dos mesmos, sobretudo se provindos de orientação religiosa. Pois, lembremos, “religião” é “acesso”: “re-ligare”, nunca exclusão. Assim como o pensamento laico honesto: o “outro” nunca é um “estranho”.
Deixo minhas lágrimas pelas vítimas do “11 de setembro” de 2011, e minha censura àqueles que se promovem por conta disto, àqueles que ordenaram tais atos e àqueles que desta horror ainda colhem frutos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de setembro de 2011].

São João del Rei à vol d’oiseau

São João del Rei, que visito pela quarta vez (mas, desta, com calma), é uma cidade com aspectos muito curiosos. Como eles gostam de dizer por aqui, este é o lugar onde o “barroco encontra o moderno”, e coisas que tais. De fato, da janela do hotel onde me hospedo, vejo, quase alinhados, uma ponte de pedras de 1797, um casarão colonial do mesmo período. Este, ladeado por um prédio dos anos 1920 e outro dos 1930. À esquerda do primeiro, um outro dos anos 1950, e, logo por detrás dele, as torres – neoclássicas, pombalinas – da Matriz do Pilar. A um quarteirão de onde estou, há um sobrado colonial dos mais típicos que há, com balcões de ferro e hastes de lampiões de intrincados arabescos: e quase defronte a ele, um moderno mini-shopping center. É de espantar. Acho que, em termos brasileiros, somente no Rio de Janeiro se vai de um extremo ao outro tão rapidamente: penso na Praça XV de novembro, com o Arco do Teles, o chafariz de Mestre Valentim e o Paço dos Governadores (todos do século XVIII), a Estação das Barcas (do XIX para o XX) e as torres modernas de escritórios (anos 1970 ou 80).
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].