quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte III – As Ruínas, em ponto menor

O francês Constantin François Chassebœuf de La Giraudais (1757-1820), conde de Volney (nome pelo qual se tornou mais conhecido e que é a origem, ainda que em geral desconhecida, de todo indivíduo que se chame Volney, desde então), além de filósofo e político (uma contradição em nossos dias!), foi um orientalista e historiador de renome. Seu livro mais influente é, sem dúvida, As Ruínas, ou meditações sobre as revoluções dos impérios, publicado em 1791, depois de uma visita à antiga cidade romana de Palmira, localizada no território da atual Síria. Ali, pôde aquele autor observar as ruinosas condições de uma cidade outrora grande e influente, um verdadeiro símbolo do Império Romano em sua máxima extensão. E refletindo sobre Palmira, concluiu que os impérios, apesar de seus colossos que parecem lhes prometer uma vida eterna, acabam por perecer, vítimas que são de uma lei natural. Esta contemplação das ruínas e dos tempos passados, a partir da qual se pode tirar uma lição, é um tema quase tão velho quanto o mundo. Mas no agonizante Antigo Regime, no século XVIII, ele eclode em sua plenitude. Basta lembrarmos das estampas de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), das pinturas de Hubert Robert (1733-1808) e no rigor arqueológico dos prédios de John Soane (1753-1837), cuja planta (num “corte transversal”, se assim podemos nos referir àquela imagem) de sua mais importante obra, o Banco de Londres, foi desenhada como se aquele novíssimo prédio estivesse já em ruínas. Em suma, todos se davam conta de que um velho mundo estava em colapso.
O âmbito atingido por Volney naquele seu livro foi considerável – encontrei em Ouro Preto uma edição francesa de 1822, mesmo ano em que era traduzido em Portugal por Pedro Cyriaco da Silva, versão esta publicada até 1911, no Rio de Janeiro, pela Livraria Garnier, como atesta o exemplar que possuo. Tem-se também, como quase definitivamente acertado, que ele seria um precursor do Romantismo – e as imagens dos poemas homônimos Ozymandias (1818), tanto o de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), quanto o de Horace Smith (1779-1849), na minha opinião, são provas disto. E há até quem diga que suas ideias chegaram aos conjurados baianos de 1798.
Uma prova eloquente do efeito simbólico das ruínas, porém atualizado, pode ser observada em Salvador, no monumento erigido ao príncipe herdeiro de um potentado baiano de notoriedade nacional falecido há poucos anos. Naquela cidade, próxima ao aeroporto, está uma estátua do (não tão) jovem sucessor do defunto dignitário, sobre o seu pedestal, em meio a uma praça cuidadosamente ajardinada. Diante de sua figura de bronze, encontra-se uma suntuosa fonte, que noutros tempos lançava jatos d’água coloridas artificialmente pela luz de holofotes, e jatos dançantes, em determinados horários, espetáculo este embalado pelos acordes musicais do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Bahia. Porém, desde que a morte depôs aquele neocoronel, tais mimos, com ares de praça do interior ou de número do Circo Orlando Orfei, já não mais são celebrados. Os canteiros ainda são muito bem cuidados e uma coroa de flores é depositada diariamente aos pés do enaltecido. Mas há pelo menos um guarda, dia e noite, zelando pelo conjunto da estátua, coroa de flores e fonte aos seus pés, num claríssimo sinal de que tal monumento conta com detratores. E todo esse zelo enfrenta severas críticas locais. Em suma: se tudo aquilo fosse uma unamidade, não era necessário um guarda para cuidar da traquitana. É, pois, uma ruína já: quanto aos fins e quanto ao uso.
Outros exemplos não faltam, pois as ruínas, físicas e morais, se suscedem e se amontoam por toda Salvador. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, por exemplo, anda-se na ponta dos pés, reprimem-se os espirros, evitam-se os gestos expansivos, tal o medo de que tudo desmorone. E o que dizer, então, da veneranda igreja da Celestial Ordem da Santíssima Trindade, próxima ao porto, diante da qual estarrecemos de medo: um simples olhar mais aplicado pareceu-nos motivo bastante para causar o seu colapso. Quem observa a favela Ocupação das Malvinas, que data daquela guerra entre Argentina e Reino Unido (e desta já lá se vão trinta anos), é incapaz de acreditar que tudo aquilo não caia, não desbarranque morro abaixo, com o simples soar de um bater de palmas. Sem falar na situação e no indizível nome de outra favela: Planeta dos Macacos, uma manifestação de racismo tão ignóbil que, até onde me conheço por gente, nunca vi igual. E tudo isto na “Capital da Alegria”. Penso que é mais “Capital da Tristeza”, isto sim!
A tristeza de Salvador, e da Bahia, faz lembrar a do planeta Marte, tal como idealizado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920) em seu livro Crônicas Marcianas (EUA, 1950) – obra que é uma vaga referência para esta série de escritos. Tal melancolia, por assim dizer, provém justamente do acúmulo de magníficas ruínas, quer as soteropolitanas da realidade, quer as marcianas da ficção, cujas funções originais vão sendo esquecidas ao longo do tempo, convertendo-se, muitas delas, num sutil registro de algo um tanto vago que pertenceu a um passado já dado como morto. Os fastos de um povo cujos descendentes tornaram-se invíveis: porque muitos deles, bem como sua cultura, pereceram, e porque outros tantos, os conquistadores, não querem vê-los, preferindo ignorar a situação em que vivem. Por outro lado, o novo, sem história nem tradição, que não comove nem envolve, qual as barracas do meio-oeste americano plantadas em Marte, da já citada obra, erguem-se, enraizam-se, espraiam-se por Salvador. Um exemplo? Durante minha estada ali, precisei cortar o cabelo. Pensei, imediatamente, num velho salão de barbeiro, onde escutaria os boatos de uma cidade inteira. Qual o quê! Não houve voz que praticamente não me obrigasse a fazê-lo num shopping center. Neste local, aliás, um funcionário jurou de pés juntos que eu encontraria o melhor acarajé – da Bahia, é claro – ali mesmo! O que não desminto, mas aqui entraríamos já num assunto que dá muito pano para pouca manga de camisa...
Retornando a Volney, por mais aparentemente negativista que fosse sua visão do mundo e das civilizações que o engendraram, foi ele capaz de uma interessante síntese do que poderia trazer paz à Terra, e possivelmente evitar a queda dos futuros impérios. Tratava-se da tolerância religiosa, o quê, noutros termos, poderia ser lido de uma única e singular maneira: a não condenação, por parte de um credo, de outras experiências religiosas. Mas, neste ponto, parece que os baianos seguiram a lição do francês. Ou, pelo menos, a melhor parte dela, como veremos, noutra ocasião. E vivas ao Bom Jesus, a São João Batista, a Apolo e Dioniso, e aos Orixás, com seu magnífico cortejo!

P.S. (Este completamente fora do assunto ora tratado): Na próxima semana, entre os dias 23 e 25/11, ocorre, no saguão do prédio das Faculdades de História e Geografia, da USP, na Cidade Universitária (Butantã, São Paulo), mais uma edição da Festa do Livro. Dezenas de grandes e pequenas editoras oferecem livros de seus catálogos com preços a partir de 50% (o mínimo para participarem) de desconto. Trata-se de uma ótima ocasião para quem gosta de ler — e se queixa que os livros são caros — de renovar suas leituras, formar seus acervos. É a demolição do álibi de muitos que não leem por preguiça, mas que, publicamente, culpam os altos custos dos livros por sua inércia enquanto não-leitores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de novembro de 2011].

P.P.S. A feira foi cancelada entre a publicação do texto acima e esta aqui no blog. Ela ocorrerá agora no prédio da Poli entre os dias 14 a 16 de dezembro. O puxão de orelhas original permanece inalterado.

As Crônicas Baianas: Parte II – Seguindo alguns rastros literários, na falta de outros

Um dos maiores desserviços prestados pelos professores de Literatura manifesta-se quando tratam daquela meia dúzia de páginas, pouco mais ou pouco menos, da Carta de Pero Vaz de Caminha, classificada, segundo vários deles, como “certidão de batismo da terra brasileira”, ou, ainda pior, como a primeira obra literária de nosso povo. A Carta, mero relato burocrático que o foi, em seu tempo, mofou durante séculos em arquivos, por razão de sigilo de Estado, e sem que ninguém o lesse, até 1817, pelo menos. Sua relevância, digamos, literária, é menos que nada. Ninguém pensou o Brasil, durante trezentos e tantos anos, a partir daquela carta. Um único verso ou página sequer de nossa história, neste período, foi baseado em sua leitura. Todavia, pensando nela, e no registro dos primeiros habitantes deste país, é chocante verificar que em Salvador não se observa qualquer indício da presença indígena. É como se eles não existissem, no passado ou no presente. Tudo parece ser vinculado apenas e tão somente à ocupação lusitana ou à mescla afrobrasileira, com predominância da africana sobre a brasileira. Para que se tenha uma ideia, segue aqui um exemplo. Uma amiga, percussionista, encomendou-me um maracá, autêntico instrumento indígena, posteriormente incorporado a certas religiões afrodescendentes que sofreram influências, aqui, daquelas culturas autóctones. Encontrei-o, é claro, sem muita dificuldade. Dificultoso foi, no entanto, ter que ouvir do vendedor o quanto aquele objeto era de origem africana, relacionado a não sei mais qual orixá, etc, etc, etc.
Também de Castro Alves, que nomeia uma praça e um teatro e, quiçá, uma rua ou avenida, não permanecem quaisquer indícios, seja de sua pessoa ou de sua obra. E isto é, de certa maneira, até justo em relação à sua memória, ainda que tal prodígio se dê por ínvios caminhos. Pois choraria de dor o mulato poeta d’O Navio Negreiro e Vozes d’África ao ver que os negros ainda se encontram na base da pirâmide social e, quanto mais escuros, mais próximos daquela base, mais escorchados, mais infelizes e mais miseráveis.
Não se veem mais em Salvador, também, os personagens de Jorge Amado. Nem com muito esforço de imaginação enxerga-se nos raquíticos meninos viciados em crack, que nos abordam, uma pálida sombra dos “capitães da areia”. O Elevador Lacerda parece uma Galeria Prestes Maia melhorada. Não há mais coronéis, doutores e rábulas de terno branco. As baianas de turbante restringem-se às agentes de restaurantes, caçando fregueses na rua, e a uma ou outra vendedora de Acarajé, no circuito turístico. Os padres não trazem mais batinas, nem os monges, hábitos. E não avistei um único bêbado boquirroto vagando pelas ruas. Tudo é passado na obra daquele escritor, cuja casa, segundo me informaram, está à beira do desmoronamento: seus ricos herdeiros esperam verbas públicas para a restauração da mesma...
Por outro lado, Vieira e Gregório de Matos parecem nos acompanhar em cada passo, do Pelourinho à Barra, da Cidade Baixa ao Bonfim, e pelo Comércio, e para qualquer lado que se vá. De Vieira, há até resquícios, podemos dizer, físicos. Lá está ainda, ou assim é apontada, a cela onde viveu, num anexo da Catedral Metropolitana. Ou melhor, em parte do que era o antigo Colégio dos Jesuítas, por que o grosso dele se transformou na Faculdade de Medicina – que, hoje em dia, frise-se, não funciona mais ali. E a própria Catedral, que era a igreja dos Jesuítas, a esta posição só foi elevada depois que a primeira foi demolida, em 1933 (como disse anteriormente, pensa-se todo o tempo em algo ao mesmo tempo mais e menos do que uma árvore...). Mas, como dizia, indica-se, lá, a cela onde teria vivido o Padre Vieira em seus últimos anos em Salvador. Lá está um púlpito do qual, supostamente, ele teria pregado (não nos é informado de que local ele foi retirado) e a sua cadeira (de cujo uso, se particular ou público, também não há registro). Mas a força de seus sermões parece repercutir em nossa memória, seus libelos quanto à ganância, contra a opulência criminosa, contra a frieza do coração dos poderosos frente aos negros explorados, parecem nos acompanhar a cada passo.
Ao se contemplar os suntuosos prédios do Corredor da Vitória, ou do Campo Grande, frente às tétricas e miseráveis moradas da não tão distante Ladeira da Preguiça (cujo nome deveria ser Ladeira do Desconsolo), não há como não lembrar dos versos do Boca do Inferno: “Estupendas usuras nos mercados,/todos, os que não furtam, muito pobres,/ e eis aqui a cidade da Bahia”. Da mesma maneira, se alguém se quiser alijar da forçada alegria que se cobra em toda praça, e se pretender uma visão séria e crítica do todo, lá vem os versos: “Quem cá se quer meter a ser sisudo/ Nunca Ihe falta um Gil, que o persiga,/E é mais aperreado que um cornudo”. E por aí vai. Mas a presença física, por assim dizer, do poeta, não há. Existe uma rua Gregório de Matos, mas que ele tenha morado ali, ou que o prédio ainda se conserve, é quase impossível saber.
E por falar num Gil, lembrei de um outro mais recente, e de sua trupe, e de seus contemporâneos ou precursores. Pois é, anda-se pelas ruas de Salvador e não se escutam ecos, nem entramos no clima, das músicas de Gil, Gal, Bethânia, da família Caymmi, de João Gilberto ou dos Novos Baianos. Aquela Bahia brejeira, da meiguice e da malemolência, é coisa definitivamente do passado. Por toda a parte, é só axé e suas musas – de uma delas, aliás, aquela tão onipresente na mídia quanto um ditador comunista de outrora (vejam a crônica de 11 de junho de 2011), não há motorista de táxi que se não lhe aponte o prédio onde ela mora, como, presumo, só se faça o mesmo com a casa dos chefes de Estado. No mais, escuta-se a batucada do Olodum, ou de suas franquias, ou legiões ou coortes, que embora muito bem executada, nada tem de alegre. Pois, convenhamos, é muito mais marcial do que dobrado de banda de música e ressoa a marcha militar. A única exceção audível em tal cenário é Caetano, pelo menos aquela canção que fala que “o Haiti é aqui”. Como tema de fundo, ela é quase onipresente, sobretudo no Pelourinho e nas partes menos afortunadas...
Voltando aos assuntos sérios, no que diz respeito às belas artes, que o visitante percorra suas igrejas e museus em busca do nome do artista por trás de uma pintura, de uma escultura, do arquiteto responsável por uma grande obra do passado. Quando encontrar uma sucinta ficha catalográfica, comemore, exulte, solte rojões. Mas que não ouse sair em busca de livros a respeito, pois os que existem há muito estão fora de catálogo, remontando aos anos 1960. Não há novos estudos. Não há nada.
Os historiadores dos anos 1940 e 1950 diziam que, no tocante aos acervos documentais do período colonial lusitano, a África era um verdadeiro “cemitério de papéis”. Pois bem, neste ponto, certamente, Salvador revela-se, sem sombra de dúvida, uma fidelíssima seguidora das tradições africanas que tanto apregoa, um lugar de rica memória oral e quase nenhuma escrita, a ponto de seus antigos monumentos chegarem, pouco a pouco, a desaparecerem ante nossos olhos sem que deles se conserve, sequer, o nome.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de novembro de 2011].

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].