Na semana passada, prometi mais algumas histórias curiosas de sebos. São muitas, mas uma, até hoje, conservo com uma espécie de carinho. Descobri-a através de alguns livros que comprei, os quais tenho até hoje, nos quais se encontra toda a crônica do final de um relacionamento amoroso.
Os antigos donos – um jovem casal universitário – tinham o curioso hábito de fazer longas anotações na folha de rosto e nas páginas em branco do final dos volumes, às vezes avançando mesmo pela parte interna da contracapa. Nunca escreviam juntos na mesma obra, e os registros dela eram mais longos e mais frequentes. Somente ela assinava: Ana Maria. E chamavam um ao outro, brejeiramente, de Patolina e Patolino, ou os Patolinos.
As notas iniciavam-se com um breve comentário acerca da leitura, se tinham gostado ou não e o porquê. Depois, seguiam-se curtos relatos sobre as condições da leitura.
Para que tenham uma idéia, seleciono alguns trechos.
Na folha de guarda de um livro (A Micro-história e outros ensaios, de Carlo Guinzburg), está escrito, de próprio punho:
“Quencão amado: 194 semanas de nossa parceria...”. Fala então da visita de uma amiga, do que fizeram nas férias, etc., etc., e termina: “E o que mais falar de nossa parceria? Já nos dissemos e escrevemos tantas coisas, mas é um sentimento, o amor, que se renova sempre, pois compartilhamos a vida um com o outro. Amo muito você.... Sempre, Feliz dia: a Patolina: Ana Maria: 09/10 fevereiro. 92. 22:35 segunda. Patolândia Encantada. Obs. Hoje foi a volta ao cativeiro. A sua foi adiada para 4ª feira. Sortudo!”.
No mesmo volume, na última folha em branco, vinha o seguinte.
“Este livro acabou de ser originalmente lido às 16:36 hs do dia 20 de Agosto de 1992, uma quinta-feira fria, no laboratório da Teresinha, enquanto ele vota para presidente e vice desta muvuca industrial cabocla. Espero a Teresa”. E, logo abaixo: “Quenco amado, logo sairá do ninho rumo ao cativeiro” “E, à noite, ou no começo da madrugada, será minha vez de retornar ao ninho, para o Patolino querido. A vida...”.
O tom de pieguice, concordemos, é bastante forte, chega a ser mesmo cômico. Mas até o mais endurecido dos leitores há de concordar que estas linhas, quase infantis em sua singeleza, palpitam de pura vida. Sabemos que dividem, há três anos e meio (194 semanas) o mesmo teto, o qual chamam de ninho e Patolândia Encantada, em contraponto ás aulas na faculdade, o cativeiro. Que ele tem três apelidos que de certo obedecem a graus diferentes de tratamento: ele é o Patolino, mas, para ela, também, Quenco e Quencão. Que eles se amam e estão felizes num período que vai das já referidas semanas até seis meses depois (de 9 ou 10 de fevereiro até 20 de agosto). Podemos inferir, também, que ao menos um deles, senão ambos, perdeu ao menos um semestre universitário (todos os livros onde escrevem suas cartas são de História – um curso de quatro anos, como é sabido – e constam da ementa dos dois últimos semestres), já que estão junto há quatro anos e não se formaram. Sabemos também que estudam em turnos diferentes (ele pela manhã, com alguma disciplina optativa às 17 horas, e ela à noite). E que ele é ativo politicamente – vota no Centro Acadêmico ou nalguma associação classista, que ela chama de “muvuca industrial cabocla”.
Dos demais livros que pertenceram ao casal, dois tem a letra dele, quase ilegível, da qual pode-se ler, com clareza, somente que a ama, etc., etc. Muito menos enfático do que ela. Outros quatro pertencem à Patolina. Num deles, há um registro de inícios de novembro do mesmo ano, em que ela descreve uma tarde de amor (“fizemos quém-quém a tarde toda”). Noutro, de fins do mesmo mês, descreve, com os mesmos termos, os mesmos prazeres, mas que, queixa-se, “não era mais como antes: Patolino anda distante, frio”. No terceiro, de meados de dezembro, ela começa a se questionar quanto à relação: “ele está mudado, meu Patolino já não parece pensar em mim”. O último registro é de fins de dezembro. Ela se lastima pelo andar das coisas, mas afirma que há de sobreviver. E indica já estar pensando noutra pessoa: “pode haver outros patolinos na lagoa, se ele não quiser enxergar”.
Como disse no início, não sei quem são eles e é quase impossível saber. Três dos livros comprei em São Paulo. Um deles em Santos (o único que traz a indicação de lugar, Santos, onde presumo que moraram e estudaram), dois em Campinas e o último, acreditem, em Belo Horizonte. Talvez existam outros mais, detalhando aquela relação, espalhados por outros sebos, ou com novos donos. É possível. Mas não me canso de pensar que, sem o saberem, escreveram indiretamente uma pequena novela epistolar, com momentos de alegria e de tristeza, esperança, desencontros. Uma novela que, além deles, somente eu pude conhecer. Não sei se estão juntos – acredito que não, do contrário conservariam os livros. E não sei como terminaram sua relação. Tristes? Furiosos? Com desdém? De comum acordo? Houve morte? Violência? Lágrimas, certamente. E nunca poderei saber ao certo que fim tiveram. Nem os leitores, que agora compartilham comigo esta história.
E de tudo isto tive ciência por simples obra do acaso, freqüentando sebos, comprando aleatoriamente livros que me interessavam e que, decerto, interessaram também a outras pessoas, daí sua dispersão por tantas cidades. Livros que me trouxeram, como uma espécie de brinde inesperado, uma curta novela epistolar, que não é alta literatura, certamente, mas que é tão cheia de vida, vida real, que chega a comover mais do que muitas grandes obras escritas com muito intelecto e nenhuma paixão.
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de junho de 2009].
Bolinhas feito pérolas
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