quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sebos e histórias – Parte II: uma curta novela epistolar e manuscrita

Na semana passada, prometi mais algumas histórias curiosas de sebos. São muitas, mas uma, até hoje, conservo com uma espécie de carinho. Descobri-a através de alguns livros que comprei, os quais tenho até hoje, nos quais se encontra toda a crônica do final de um relacionamento amoroso.
Os antigos donos – um jovem casal universitário – tinham o curioso hábito de fazer longas anotações na folha de rosto e nas páginas em branco do final dos volumes, às vezes avançando mesmo pela parte interna da contracapa. Nunca escreviam juntos na mesma obra, e os registros dela eram mais longos e mais frequentes. Somente ela assinava: Ana Maria. E chamavam um ao outro, brejeiramente, de Patolina e Patolino, ou os Patolinos.
As notas iniciavam-se com um breve comentário acerca da leitura, se tinham gostado ou não e o porquê. Depois, seguiam-se curtos relatos sobre as condições da leitura.
Para que tenham uma idéia, seleciono alguns trechos.
Na folha de guarda de um livro (A Micro-história e outros ensaios, de Carlo Guinzburg), está escrito, de próprio punho:
“Quencão amado: 194 semanas de nossa parceria...”. Fala então da visita de uma amiga, do que fizeram nas férias, etc., etc., e termina: “E o que mais falar de nossa parceria? Já nos dissemos e escrevemos tantas coisas, mas é um sentimento, o amor, que se renova sempre, pois compartilhamos a vida um com o outro. Amo muito você.... Sempre, Feliz dia: a Patolina: Ana Maria: 09/10 fevereiro. 92. 22:35 segunda. Patolândia Encantada. Obs. Hoje foi a volta ao cativeiro. A sua foi adiada para 4ª feira. Sortudo!”.
No mesmo volume, na última folha em branco, vinha o seguinte.
“Este livro acabou de ser originalmente lido às 16:36 hs do dia 20 de Agosto de 1992, uma quinta-feira fria, no laboratório da Teresinha, enquanto ele vota para presidente e vice desta muvuca industrial cabocla. Espero a Teresa”. E, logo abaixo: “Quenco amado, logo sairá do ninho rumo ao cativeiro” “E, à noite, ou no começo da madrugada, será minha vez de retornar ao ninho, para o Patolino querido. A vida...”.
O tom de pieguice, concordemos, é bastante forte, chega a ser mesmo cômico. Mas até o mais endurecido dos leitores há de concordar que estas linhas, quase infantis em sua singeleza, palpitam de pura vida. Sabemos que dividem, há três anos e meio (194 semanas) o mesmo teto, o qual chamam de ninho e Patolândia Encantada, em contraponto ás aulas na faculdade, o cativeiro. Que ele tem três apelidos que de certo obedecem a graus diferentes de tratamento: ele é o Patolino, mas, para ela, também, Quenco e Quencão. Que eles se amam e estão felizes num período que vai das já referidas semanas até seis meses depois (de 9 ou 10 de fevereiro até 20 de agosto). Podemos inferir, também, que ao menos um deles, senão ambos, perdeu ao menos um semestre universitário (todos os livros onde escrevem suas cartas são de História – um curso de quatro anos, como é sabido – e constam da ementa dos dois últimos semestres), já que estão junto há quatro anos e não se formaram. Sabemos também que estudam em turnos diferentes (ele pela manhã, com alguma disciplina optativa às 17 horas, e ela à noite). E que ele é ativo politicamente – vota no Centro Acadêmico ou nalguma associação classista, que ela chama de “muvuca industrial cabocla”.
Dos demais livros que pertenceram ao casal, dois tem a letra dele, quase ilegível, da qual pode-se ler, com clareza, somente que a ama, etc., etc. Muito menos enfático do que ela. Outros quatro pertencem à Patolina. Num deles, há um registro de inícios de novembro do mesmo ano, em que ela descreve uma tarde de amor (“fizemos quém-quém a tarde toda”). Noutro, de fins do mesmo mês, descreve, com os mesmos termos, os mesmos prazeres, mas que, queixa-se, “não era mais como antes: Patolino anda distante, frio”. No terceiro, de meados de dezembro, ela começa a se questionar quanto à relação: “ele está mudado, meu Patolino já não parece pensar em mim”. O último registro é de fins de dezembro. Ela se lastima pelo andar das coisas, mas afirma que há de sobreviver. E indica já estar pensando noutra pessoa: “pode haver outros patolinos na lagoa, se ele não quiser enxergar”.
Como disse no início, não sei quem são eles e é quase impossível saber. Três dos livros comprei em São Paulo. Um deles em Santos (o único que traz a indicação de lugar, Santos, onde presumo que moraram e estudaram), dois em Campinas e o último, acreditem, em Belo Horizonte. Talvez existam outros mais, detalhando aquela relação, espalhados por outros sebos, ou com novos donos. É possível. Mas não me canso de pensar que, sem o saberem, escreveram indiretamente uma pequena novela epistolar, com momentos de alegria e de tristeza, esperança, desencontros. Uma novela que, além deles, somente eu pude conhecer. Não sei se estão juntos – acredito que não, do contrário conservariam os livros. E não sei como terminaram sua relação. Tristes? Furiosos? Com desdém? De comum acordo? Houve morte? Violência? Lágrimas, certamente. E nunca poderei saber ao certo que fim tiveram. Nem os leitores, que agora compartilham comigo esta história.
E de tudo isto tive ciência por simples obra do acaso, freqüentando sebos, comprando aleatoriamente livros que me interessavam e que, decerto, interessaram também a outras pessoas, daí sua dispersão por tantas cidades. Livros que me trouxeram, como uma espécie de brinde inesperado, uma curta novela epistolar, que não é alta literatura, certamente, mas que é tão cheia de vida, vida real, que chega a comover mais do que muitas grandes obras escritas com muito intelecto e nenhuma paixão.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de junho de 2009].

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sebos e histórias – Parte I: Tesouros submersos

Muitos jovens de hoje não sabem que a palavra sebo nomeia as lojas de livros, revistas, discos, cds e vídeos, todos eles usados, não só de segunda mão, mas de terceira, quarta e, às vezes, incontáveis mãos. Tanta manipulação, aliás, está na origem de tal nome: os livros, passados por tantos leitores, acabariam ensebados — o que, hoje em dia, não é inteiramente verdade: sim, existem ainda algumas lojas que, em higiene e organização, mais lembram uma borracharia que um lugar para a venda de livros, mas há outras, a maioria hoje, que de tão organizadas e asseadas, parecem uma livraria comum. A palavra tinha mais sentido no século XIX, quando surgiram no Rio de Janeiro e em São Paulo, quando ainda se lia à luz de velas e os estudantes eram criativos o suficiente para inventarem gírias que atravessavam gerações, cruzavam o país, entravam nos dicionários e neles permaneciam.
Disse que algumas parecem até uma livraria comum. Mas isto não é exato. Muitas são muitíssimo mais agradáveis do que a maioria dos pontos de vendas de livros que vemos por aí, ainda que nelas, por vezes, impere um certo caos. Pois os sebos lembram um pouco as antigas livrarias de um dono só, onde tudo é pensado e planejado por ele, da escolha dos livros à sua disposição nas vitrines, sobre as mesas, nas prateleiras, o que é de fundamental importância, e fazia do proprietário mais do que um simples comerciante, mas um livreiro, um autêntico divulgador cultural, que oferecia algo totalmente diferente da mecânica organização que impera hoje em dia, ditada por grandes e impessoais redes de lojas. Um livreiro, claro, expunha nas vitrines os best-sellers, mas, também, livros de que ele próprio gostava, ou apostava como promissores, ou garantia como valiosos, imprescindíveis: como havia espaço, evidentemente, para o novo romance de Chico Buarque, havia-o, também, para uma nova tradução de um Sófocles, de um Ésquilo ou o livro de estreia de alguém que ele julgasse bom. E ele não só vendia o seu produto, como formava leitores. Os sebos, evidentemente, não têm tanto poder de escolha quanto aos títulos: compra o que lhe oferecem. Mas fazem toda a diferença quando privilegiam certos gostos em detrimento de outros, montam seções mais especializadas e bem abastecidas e, sobretudo, exibem com clareza os melhores e mais interessantes títulos ou autores, sejam fácil saída ou não – geralmente não.
Em São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, há sebos cujo forte é a Literatura. Outros, ótimos para quem busca livros de História. Outros ainda para a História da Arte, para a Crítica e Análise Literária, para raridades, para a Filosofia, para o Direito. Conheci um, no Rio de Janeiro, especialista em teatro. São lugares que transcendem o mero comércio, e se tornam pontos de irradiação de cultura. E com preços, na maioria das vezes, possíveis à maioria dos bolsos.
Sou frequentador de sebos desde os meus quatorze anos. A um deles eu ia tanto, que me ofereceram um emprego ali, graças, também, ao fato de ter trabalhado noutras livrarias – pequenas, de livreiros. Já no primeiro mês tinha me tornado gerente. E que festa eu fazia! Mas do meu salário, seguramente, eu retirava em mercadorias, para o meu próprio consumo, graças aos ótimos descontos que tinha por ser funcionário. Quantos clássicos e raridades só assim pude comprar, então! E havia também uma espécie de bônus. Pois sempre que um novo lote de livros chegava, qualquer coisa que viesse entre as páginas, esquecida pelo antigo dono, passava a pertencer a quem o achasse (no caso nós, que ali trabalhávamos). E como se encontravam curiosidades!
Fotografias e postais antigos eram comuns. Encontrei, em duas ocasiões diferentes, um retrato autografado da cantora argentina Libertad Lamarque (1908-2000), e outro do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), feito em Paris, nos anos 1950, por um conhecido fotógrafo daquele tempo. Anotações de leitura. Cartas dos mais variados tipos. E até dinheiro. Ficaram célebres, à época, no meio, o caso de dois funcionários de sebo que encontraram, um, quinhentos dólares americanos, cinco notas de cem, esquecidas num livro, e, o outro, uma carta autografada de Monteiro Lobato a um leitor. Cartões de visitas eram também comuns, convites de posse na Academia Brasileira de Letras, e coisas assim. Como cédulas já saídas de circulação. Eu mesmo encontrei uma nota de quinhentos cruzeiros – aquela com os rostos e o mapa do Brasil – que me encheu de pena. Estava novinha em folha, ou seja, nunca mais fora utilizada e, à época de sua emissão, 1972, valera bastante. Fiquei pensando se o seu esquecimento não pusera o antigo dono em dificuldades reais, palpáveis, terríveis, visto que o valor correspondia a dois salários mínimos de então.
Eram as cartas de amor, entretanto, as que mais punham a imaginação a dar voltas. Pensar se aqueles amores foram correspondidos, ou não, se terminaram bem, ou mal, se jamais terminaram. Aquilo realmente mexia com o coração de quem lia, tantos anos depois e sem mais nada conhecer da história. Mas isto fica para uma próxima vez.

[A versão original desta crônica foi publicada no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 13 de junho de 2009.]

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Raios, trovões e falatório





África do Sul, Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, China, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Filipinas, França, Gâmbia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Islândia, Itália, Líbano, Marrocos, Noruega, Polônia, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça e Turquia. O que estas nações têm em comum? Seriam elas as participantes da Copa do Mundo de Futebol em 2010? Não, porque o número excederia o dos países que se classificarão para o evento, exatos trinta e um, e a lista acima enumera trinta e dois. Ou seria o quorum de uma importante votação numa assembléia da ONU? Não. O que fez com que ficassem lado a lado foi o recente desastre aéreo envolvendo o jato da Air France. Pertenciam às nações referidas acima as vítimas deste mais novo episódio. Isto sim é que é a globalização da morte!
E que relação! Desde o atentado às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, e da onda gigante que arrasou tantos locais banhados pelo Oceano Índico em 2004, não me lembro de algum episódio envolvendo pessoas de tão distintas origens. Claro que, nestes casos, morreram muito mais pessoas. Aliás, o tsunami nem deveria entrar aqui como comparação. Não se podem opor algumas dezenas, ou mesmo milhares, às quase duas centenas de milhares que pereceram no Índico.
Mais uma vez, solidarizo-me com os parentes e amigos das vítimas neste momento tão doloroso, etc., etc., etc... Mas, novamente, discordo quanto ao emprego do termo tragédia para este tipo de acontecimento, ainda que largamente empregado pela grande imprensa e pelos comentaristas mais afoitos e vulgares. Tragédia, para eles, parece ser apenas mais uma palavra pertencente a uma escala iniciada por acidente, seguida por desastre e catástrofe e concluída por ela, a tragédia, tornada uma espécie de superlativo de todos os males. O que não passa de uma bobagem, como não me canso se referir. Tragédias envolvem culpas a serem expiadas, transgressões que precisam ser punidas para a restauração da justiça, divina ou humana. Considerar um desastre aéreo como trágico só seria possível se, ao mesmo tempo, criticássemos nos homens seu desejo de voar e o uso de aviões, como provas de sua soberba, arrogância, como se tivessem desafiado os elementos e por tal merecessem ser punidos. O que, convenhamos, é uma grande tolice.
Um aspecto curioso a ser notado é que o interesse da população brasileira quanto ao caso já começa a diminuir. Até algumas piadas já estão circulando como aquela que se refere à tecnologia francesa não ser à prova d’água...
Porém o que mais chamou minha atenção em todo este caso foi a resistência que os peritos em aviação têm manifestado em responder uma simples pergunta: quer dizer, em suma, que se um raio atingir um avião, no meio de uma turbulência, ambos derrubam o aeronave? Por que não falam com todos os ff e rr? Medo de que embarquemos? Que fujamos de tão frágeis estruturas? Parece ser isso. Lembra aquela história, no fundo, de que os aviões e os besouros voam, é fato, mas não peçam para que a Física explique, que ela não tem respostas. E já decidi que só levarei a sério o especialista que disser, para todo mundo ouvir: voar com mau tempo é, sim, perigoso; raios e turbulências, de fato, podem derrubar um avião. Chega de meios termos, num momento destes!

[A versão original desta crônica foi publicada no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de junho de 2009.]