sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sebos e histórias – Parte I: Tesouros submersos

Muitos jovens de hoje não sabem que a palavra sebo nomeia as lojas de livros, revistas, discos, cds e vídeos, todos eles usados, não só de segunda mão, mas de terceira, quarta e, às vezes, incontáveis mãos. Tanta manipulação, aliás, está na origem de tal nome: os livros, passados por tantos leitores, acabariam ensebados — o que, hoje em dia, não é inteiramente verdade: sim, existem ainda algumas lojas que, em higiene e organização, mais lembram uma borracharia que um lugar para a venda de livros, mas há outras, a maioria hoje, que de tão organizadas e asseadas, parecem uma livraria comum. A palavra tinha mais sentido no século XIX, quando surgiram no Rio de Janeiro e em São Paulo, quando ainda se lia à luz de velas e os estudantes eram criativos o suficiente para inventarem gírias que atravessavam gerações, cruzavam o país, entravam nos dicionários e neles permaneciam.
Disse que algumas parecem até uma livraria comum. Mas isto não é exato. Muitas são muitíssimo mais agradáveis do que a maioria dos pontos de vendas de livros que vemos por aí, ainda que nelas, por vezes, impere um certo caos. Pois os sebos lembram um pouco as antigas livrarias de um dono só, onde tudo é pensado e planejado por ele, da escolha dos livros à sua disposição nas vitrines, sobre as mesas, nas prateleiras, o que é de fundamental importância, e fazia do proprietário mais do que um simples comerciante, mas um livreiro, um autêntico divulgador cultural, que oferecia algo totalmente diferente da mecânica organização que impera hoje em dia, ditada por grandes e impessoais redes de lojas. Um livreiro, claro, expunha nas vitrines os best-sellers, mas, também, livros de que ele próprio gostava, ou apostava como promissores, ou garantia como valiosos, imprescindíveis: como havia espaço, evidentemente, para o novo romance de Chico Buarque, havia-o, também, para uma nova tradução de um Sófocles, de um Ésquilo ou o livro de estreia de alguém que ele julgasse bom. E ele não só vendia o seu produto, como formava leitores. Os sebos, evidentemente, não têm tanto poder de escolha quanto aos títulos: compra o que lhe oferecem. Mas fazem toda a diferença quando privilegiam certos gostos em detrimento de outros, montam seções mais especializadas e bem abastecidas e, sobretudo, exibem com clareza os melhores e mais interessantes títulos ou autores, sejam fácil saída ou não – geralmente não.
Em São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, há sebos cujo forte é a Literatura. Outros, ótimos para quem busca livros de História. Outros ainda para a História da Arte, para a Crítica e Análise Literária, para raridades, para a Filosofia, para o Direito. Conheci um, no Rio de Janeiro, especialista em teatro. São lugares que transcendem o mero comércio, e se tornam pontos de irradiação de cultura. E com preços, na maioria das vezes, possíveis à maioria dos bolsos.
Sou frequentador de sebos desde os meus quatorze anos. A um deles eu ia tanto, que me ofereceram um emprego ali, graças, também, ao fato de ter trabalhado noutras livrarias – pequenas, de livreiros. Já no primeiro mês tinha me tornado gerente. E que festa eu fazia! Mas do meu salário, seguramente, eu retirava em mercadorias, para o meu próprio consumo, graças aos ótimos descontos que tinha por ser funcionário. Quantos clássicos e raridades só assim pude comprar, então! E havia também uma espécie de bônus. Pois sempre que um novo lote de livros chegava, qualquer coisa que viesse entre as páginas, esquecida pelo antigo dono, passava a pertencer a quem o achasse (no caso nós, que ali trabalhávamos). E como se encontravam curiosidades!
Fotografias e postais antigos eram comuns. Encontrei, em duas ocasiões diferentes, um retrato autografado da cantora argentina Libertad Lamarque (1908-2000), e outro do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), feito em Paris, nos anos 1950, por um conhecido fotógrafo daquele tempo. Anotações de leitura. Cartas dos mais variados tipos. E até dinheiro. Ficaram célebres, à época, no meio, o caso de dois funcionários de sebo que encontraram, um, quinhentos dólares americanos, cinco notas de cem, esquecidas num livro, e, o outro, uma carta autografada de Monteiro Lobato a um leitor. Cartões de visitas eram também comuns, convites de posse na Academia Brasileira de Letras, e coisas assim. Como cédulas já saídas de circulação. Eu mesmo encontrei uma nota de quinhentos cruzeiros – aquela com os rostos e o mapa do Brasil – que me encheu de pena. Estava novinha em folha, ou seja, nunca mais fora utilizada e, à época de sua emissão, 1972, valera bastante. Fiquei pensando se o seu esquecimento não pusera o antigo dono em dificuldades reais, palpáveis, terríveis, visto que o valor correspondia a dois salários mínimos de então.
Eram as cartas de amor, entretanto, as que mais punham a imaginação a dar voltas. Pensar se aqueles amores foram correspondidos, ou não, se terminaram bem, ou mal, se jamais terminaram. Aquilo realmente mexia com o coração de quem lia, tantos anos depois e sem mais nada conhecer da história. Mas isto fica para uma próxima vez.

[A versão original desta crônica foi publicada no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 13 de junho de 2009.]

Um comentário:

  1. É meu amigo.. o mundo virtual vem destruindo com muitas coisas.. mas a experiência.. essa não pode ser destruída.. quem sabe.. silenciada... mas destruida.. Nunca!
    Abraço
    Paulo

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