quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte III: Castas e raças na ficção científica

Já tratei, noutra ocasião, aqui, da dita ficção científica, embora eu considere que o termo mais apropriado seria fantasia futurística, ou mesmo ucronia. E, ainda assim, é de se ficar tentado ante a possibilidade de se utilizar a expressão romance – ou novelaapocalíptico contemporâneo.
Volto ao assunto porque acredito que o gênero revele muito mais curiosidades do que um leitor apressado é capaz de notar. Não falo das engenhocas futuristas com maior ou menor grau de verossimilhança ou possibilidade, nem das excêntricas teorias científicas que justificam o funcionamento das mesmas. Nem, tampouco, dos seus mundos implausíveis, das suas viagens no tempo e no espaço, das múltiplas coincidências necessárias para a sustentação das tramas. Muito menos, por fim, do fato de que seus personagens parecerem se comunicar num único e mesmo idioma com relativa facilidade, sejam ingleses ou marcianos, norte-americanos ou nativos da galáxia de Andrômeda, franceses ou seleníticos (uma forma elegante de dizer “habitantes da lua”, já que lunático é outra coisa). Não, o que tem chamado minha atenção, com maior espanto, é a freqüente polarização entre raças ou castas irreconciliáveis dentro das tramas, numa visão não só enviesada como maniqueísta.
Lembremos o romance A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells. Lá estão as duas raças, Elois e Morlocks. A primeira, bela e apática, morando na superfície. A segunda, monstruosa e operativa, escondendo-se nos subterrâneos. Uns descendentes da alta classe ociosa. Outros, dos trabalhadores braçais. E estes, alimentando-se, literalmente, daqueles. Quando ouvimos a justificativa do autor, então, ficamos estarrecidos. Tais naturezas foram criadas pela evolução da humanidade nos termos seguidos pelo século XX. Chocante! Quanto mais se pensarmos que Wells era um profundo conhecedor do marxismo e um influente socialista (fabiano) inglês.Em suma, para ele não haveria luta de classes e, sim, uma evolução genética derivada do trabalho e dos hábitos: menos Darwin e mais Lamarck. É, realmente, de cair o queixo.
Poderíamos proceder com o mesmo autor e a outras de suas obras. Nos romances A Guerra dos Mundos (1898), e O Primeiro Homem na Lua (1901), os vilões da vez serão marcianos irredutíveis e os homens-insetos implacáveis que habitam o nosso satélite. Nenhum diálogo com eles é possível. Nossos únicos argumentos perante eles são as armas, em resposta às suas iguais proposições.
Saltando alguns anos, temos o Admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, que não deixa de ser uma espécie de releitura de alguns trechos d’A Máquina do tempo, acrescida de drogas e de culto à juventude (criticado). O canibalismo está implícito, assim como uma evolução degenerativa, se podemos assim dizer. E as relações antagônicas são praticamente as mesmas.
A tradição deste diálogo irreconciliável, ou apriorística ausência de diálogo entre os diferentes não pertence somente a este gênero: utopias e ucronias, por vezes, trazem o mesmo traço. Basta pensarmos nos povos de Lillipute e Blefuscu, minúsculos e beligerantes personagens da novela Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift. Indo mais longe ainda, poderíamos ainda ecoar resquícios da Titanomaquia, a luta que opôs os belíssimos deuses olímpicos aos horrendos e disformes titãs numa antiguidade muito mais que remota.
A vertente inglesa – e, por extensão, norte-americana – não é difícil de compreender do quê procede. Filhos e netos dos cismas que dividiram a cristandade a partir do século XVI, e ardentes defensores de seus propósitos, para além da racionalidade que professavam seguir, muito cedo demonizaram todo o resto do mundo católico, o qual não deveria ser convertido, mas, sim, exterminado.
Já se pensarmos na escola francesa do gênero, em grande parte também moralista, o pano de fundo é outro e há bem mais tolerância entre os povos aparentemente rivais, já que seu modelo foi o contato com o Oriente e com as Américas. Basta lembrarmos, por exemplo, das novelas História cômica dos estados e impérios da Lua (1657) e História cômica dos estados e impérios do Sol (1662), de Cyrano de Bergerac (1619-1655). Sem falarmos em Micrômegas (1752) de Voltaire (1694-1778).
E da alta literatura às histórias em quadrinhos, a mesma relação frente ao outro se repete segundo aquelas mentalidades que as produziram. Basta comparar o alienígena em Buck Rogers (1928), de Anthony Rogers, ou Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, a Valérian, agente espaço-temporal (1967), de Pierre Chrsitin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé: é quase como confrontar o conquistador Hernán Cortés (1485-1547) ao nosso beato José de Anchieta (1534-1597).
Em suma, até a leitura da ficção mais desvairada é capaz de revelar muito do povo que a escreve. Fiquemos atentos ao que virá...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de julho de 2009].

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte II: Ateísmo e revolução em Vila Rica

Acredito que todos os leitores aprenderam na escola a seguinte lição: no Brasil colonial, não existiam manufaturas, de espécie alguma, porque a Coroa portuguesa proibia sua instalação na Colônia. Para quem duvidasse, citavam-se uns tantos decretos que reforçavam o fato, o último deles de 1785. E muitos historiadores de um passado nem tão remoto, presos a certas correntes ideológicas bem específicas, abraçavam esta teoria, justamente se baseando nas tais leis que impediam a criação de pequenas metalúrgicas, fábricas de pólvora e de pano grosso, e por aí adiante. Hoje, a interpretação é completamente outra e, à primeira vista, até óbvia: ora, se sucessivas leis eram promulgadas proibindo uma dada coisa, é porque, na realidade, as leis não eram cumpridas, sendo necessárias outras que as reafirmassem. Pois bem, parece tudo muito natural, não é? Mas levaram-se décadas para que a sua naturalidade fosse enxergada.
Outro mito corrente é de que no período chamado de Renascimento, os homens de letras e estudos voltaram suas costas para a Igreja, renegaram suas práticas como atos supersticiosos e por bem pouco não mergulharam num feroz ateísmo, ainda que disfarçado hipocritamente. As provas seriam a valorização do homem nas artes, uns tantos ou quantos livros escandalosos (uns, cheirando à heresia, outros tresandando ao que hoje chamaríamos de pornografia). Pois tal legenda também foi desmontada há muito tempo graças ao estudo da obra de um genial e desbocado escritor francês: François Rabelais (1483-1553). E por duas autoridades em suas áreas: o linguista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), no seu “Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de François Rabelais” (na sexta edição em 2008, e mais uma vez esgotado), e pelo historiador também francês Lucien Febvre (1878-1956), em “O Problema da incredulidade no século XVI: A Religião de Rabelais” (um clássico publicado em 1942 e só traduzido – inexplicavelmente – em nosso idioma neste ano). Ambos os autores demonstram muito bem como era impossível ser ateu naquele período, visto que o catolicismo se entranhara não só em todos os aspectos da sociedade como também em cada nervura dos indivíduos.
E for falar em ateísmo, há também aqueles que interpretam que se não se deu no Renascimento o seu berço, teria sido no século dezoito a sua crisma. E citam o iluminista Voltaire (1694-1778) a torto e a direito, quando nada há de concreto que ateste que o mesmo era ateu: um grande questionador de absolutamente todas as religiões, mas nunca um total incrédulo. Não importa: vendem-no como tal, e dão de brinde os seus leitores da época, que seriam, evidentemente, também ateuzinhos. Para não dizer revolucionários. Por conta disto, muita gente embarca na canoa furada que é propor que os inconfidentes de Minas Gerais, eram todos uns acerbos críticos da política e da sociedade de seu tempo, bafejados de incredulidade e, acima de tudo, anticlericais. E, desta vez, segundo estes marinheiros desavisados, a prova encontrar-se-ia nas bibliotecas dos envolvidos na conjura, apreendidas pelas autoridades. Porque lá estavam livros de Voltaire, as obras completas de Montesquieu (1689-1755), o proibido abade Raynal (1711-1796), mais uns, poucos, heréticos e, outros, vários, polêmicos, entende-se que aqueles mineiros eram todos ateus e, repitamos, revolucionários. O que se esquecem de dizer os partidários de tal teoria – que leram apressadamente O Diabo na livraria do Cônego, o pioneiro, e insuperável, estudo de Eduardo Frieiro (1889-1982) sobre as bibliotecas dos inconfidentes – é que Voltaire era também muito lido por suas qualidades poéticas (era reputado, então, como o maior poeta do século XVIII, o que era um evidente exagero). Como também não mencionam que, para cada polemista, havia mais de três ortodoxos, consagrados, conservadores. Os livros de temática sacra (Teologia é só uma das suas subdivisões) eram os que mais se contavam nos acervos dos inconfidentes. É esta, sim, uma prova do quanto a religião fazia parte de suas vidas e pensamentos.
Em suma, tal como o livro, que não se compra pela capa, que não se tome o homem apenas por um ou outro livro que tenha lido como tudo que leu e que o formou. Eles são indícios, muito bons, por meio dos quais podemos conhecer seus leitores enquanto homens de letras, mas daí a vislumbrar radicais de gabinete, ou de barricadas não passa de especulação. Forçada, aliás.

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de agosto de 2009).

Literatura e História — Parte I: Seguindo pistas

Há muito tempo, acredito que a melhor forma de se compreender a cultura de um povo ou país num determinado período de sua história seria bastante viável não pelo estudo das grandes obras que um e outro produziram então, mas pela análise do que subjazia e era compreendido, e consumido, pela população em geral.
Explicando melhor, quero dizer que se entende mais a sociedade romana, por exemplo, à leitura das peças muitas vezes vulgares de Plauto e Terêncio, e tendo próximo dos olhos os combates dos gladiadores entre si e contra feras, do que pela plácida contemplação dos textos de Virgílio, Sêneca e Marco Aurélio. Quer porque o povo não lia estes últimos, quer porque povo, elite e estamentos médios assistiam àquelas comédias e freqüentavam os circos e arenas.
Vá lá que os gregos norteassem suas vidas públicas e privadas por Homero. Mas não deixa de ser curioso que o número de comédias de Aristófanes (onze, remanescentes) supere o das tragédias de seu contemporâneo Sófocles (sete, conservadas).
Já foi dito, alhures, que se apreende muito mais a Inglaterra e a Itália medievais através dos Contos de Cantuária, de Chaucer, e do Decamerão, de Bocaccio, do que pelas crônicas oficiais ou oficialescas daqueles tempos. Mas os modernos fizeram vistas grossas a isto em sua época. Tudo o que viesse do povo, ou cheirasse à literatura barata, foi escorraçado do horizonte dos historiadores do século XVI ao XVIII. Os românticos até que tentaram, reabilitando os contos de fada e tentando compreender o período em que foram escritos, ou presumivelmente escritos. Todavia o fizeram mais como antiquários do que pesquisadores sérios, científicos, metódicos.
Já os norte-americanos foram bastante espertos quanto a esta percepção, muito antes mesmo da L'École des Annales e da Microstoria italiana. E o testemunho é de ninguém menos do que o de um seu ex-presidente. Abraham Lincoln, quando encontrou a escritora Harriet Beecher Stowe, no início da Guerra Civil, teria chegado a dizer: “Então esta é a pequena senhora (little lady) que causou esta grande guerra (big war)”, tal a repercussão de seu romance junto aos leitores. Em suma, naqueles tempos, o grande livro, para tal povo, foi A Cabana do Pai Tomás, e não Moby Dick, de Melville, ou A Casa das Sete Torres, de Hawthorne, ambos publicados em 1851, um ano antes daquele. E os dois últimos, que já nasceram clássicos, e modernos – pela visão de congraçamento racial do primeiro, e pelas pontuais inovações críticas às tradições fossilizadas, do segundo – parecem não ter feito qualquer eco na consciência de seus contemporâneos.
De modo que, acredito, compreende-se menos a França do século XIX por Balzac do que, por exemplo, por um Eugène Sue, ou um Alexandre Dumas, ou qualquer outro autor de folhetins. Ainda que não fossem repórteres de seu tempo, como o primeiro, e não escrevessem tão bem – é inegável este ponto – como o autor da Comédia Humana, eram eles muito mais lidos pelo público. Eram formadores de opinião, de desejos e esperanças. Nutridos por histórias cheias de reviravoltas, de tirar o fôlego, de ações providenciais de príncipes até então incógnitos, que disfarçavam sua real natureza até o grande lance em que desatavam os nós do destino, entende-se porque os franceses foram tão complacentes com a ascensão, folhetinesca, de Napoleão III.
No Reino Unido, cujo público leitor era muito mais amplo, chegando mesmo à ralé mais explorada, uma análise do apogeu do Império, creio, seria muito melhor realizada não à leitura de Dickens, ou Thackeray, mas sim à das sanguinolentas páginas dos Penny Dreadfuls (em tradução livre, mas apropriada: “horrores a um centavo”), com suas narrativas escandalosas, violentas, terríveis, muitas delas incluindo fantasmas, monstros e assassinos impiedosos. Em boa medida, as Dime Novels (valendo a regra anterior: “novelas a um centavo”), suas correspondentes norte-americanas, com crimes urbanos e facínoras do Oeste Selvagem, cumprem também o seu papel quanto a revelar aquela sociedade. Como, a seu tanto, a bibliothèque bleue, na França, e os cordéis, na Espanha, Portugal e Brasil.
Há poucos anos, foi publicado um livro bastante interessante que contém, em boa parte, uma série de fontes preciosas para o desenvolvimento desta questão. Trata-se de Páginas de Sensação, de Alessandra El Far. Nele, a autora não se detém sobre os integrantes do cânone literário, mas, sim, no que liam os populares – e nem tão populares assim, mas em segredo – entre fins do século XIX e começo do XX no Brasil. A lista de escritores e livros desconhecidos é grande e instigante. Muito mais porque, somos informados, contaram eles com um grande público então (lembrando-se, todavia, que, então, o analfabetismo grassava em grande número e por toda parte em nosso país).
Através dele podemos vislumbrar os gostos da população urbana brasileira de então, dos mais humildes aos mais proeminentes – ainda que secretamente lidos por estes. Uma pesquisa realizada em certos acervos pessoais de alguns notáveis talvez nos enchesse de espanto. Fica, aqui, portanto, uma proposta, neste sentido : vasculhar a baixa literatura nas bibliotecas dos homens de subida fama. É um bom projeto, e uma forma de melhor conhecê-los e ao seu tempo. Imaginem só : pornografia na bilioteca de Rui Barbosa ; romances policiais na de Joaquim Nabuco. Daria o que pensar. E muito...

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de agosto de 2009).