Já tratei, noutra ocasião, aqui, da dita ficção científica, embora eu considere que o termo mais apropriado seria fantasia futurística, ou mesmo ucronia. E, ainda assim, é de se ficar tentado ante a possibilidade de se utilizar a expressão romance – ou novela – apocalíptico contemporâneo.
Volto ao assunto porque acredito que o gênero revele muito mais curiosidades do que um leitor apressado é capaz de notar. Não falo das engenhocas futuristas com maior ou menor grau de verossimilhança ou possibilidade, nem das excêntricas teorias científicas que justificam o funcionamento das mesmas. Nem, tampouco, dos seus mundos implausíveis, das suas viagens no tempo e no espaço, das múltiplas coincidências necessárias para a sustentação das tramas. Muito menos, por fim, do fato de que seus personagens parecerem se comunicar num único e mesmo idioma com relativa facilidade, sejam ingleses ou marcianos, norte-americanos ou nativos da galáxia de Andrômeda, franceses ou seleníticos (uma forma elegante de dizer “habitantes da lua”, já que lunático é outra coisa). Não, o que tem chamado minha atenção, com maior espanto, é a freqüente polarização entre raças ou castas irreconciliáveis dentro das tramas, numa visão não só enviesada como maniqueísta.
Lembremos o romance A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells. Lá estão as duas raças, Elois e Morlocks. A primeira, bela e apática, morando na superfície. A segunda, monstruosa e operativa, escondendo-se nos subterrâneos. Uns descendentes da alta classe ociosa. Outros, dos trabalhadores braçais. E estes, alimentando-se, literalmente, daqueles. Quando ouvimos a justificativa do autor, então, ficamos estarrecidos. Tais naturezas foram criadas pela evolução da humanidade nos termos seguidos pelo século XX. Chocante! Quanto mais se pensarmos que Wells era um profundo conhecedor do marxismo e um influente socialista (fabiano) inglês.Em suma, para ele não haveria luta de classes e, sim, uma evolução genética derivada do trabalho e dos hábitos: menos Darwin e mais Lamarck. É, realmente, de cair o queixo.
Poderíamos proceder com o mesmo autor e a outras de suas obras. Nos romances A Guerra dos Mundos (1898), e O Primeiro Homem na Lua (1901), os vilões da vez serão marcianos irredutíveis e os homens-insetos implacáveis que habitam o nosso satélite. Nenhum diálogo com eles é possível. Nossos únicos argumentos perante eles são as armas, em resposta às suas iguais proposições.
Saltando alguns anos, temos o Admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, que não deixa de ser uma espécie de releitura de alguns trechos d’A Máquina do tempo, acrescida de drogas e de culto à juventude (criticado). O canibalismo está implícito, assim como uma evolução degenerativa, se podemos assim dizer. E as relações antagônicas são praticamente as mesmas.
A tradição deste diálogo irreconciliável, ou apriorística ausência de diálogo entre os diferentes não pertence somente a este gênero: utopias e ucronias, por vezes, trazem o mesmo traço. Basta pensarmos nos povos de Lillipute e Blefuscu, minúsculos e beligerantes personagens da novela Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift. Indo mais longe ainda, poderíamos ainda ecoar resquícios da Titanomaquia, a luta que opôs os belíssimos deuses olímpicos aos horrendos e disformes titãs numa antiguidade muito mais que remota.
A vertente inglesa – e, por extensão, norte-americana – não é difícil de compreender do quê procede. Filhos e netos dos cismas que dividiram a cristandade a partir do século XVI, e ardentes defensores de seus propósitos, para além da racionalidade que professavam seguir, muito cedo demonizaram todo o resto do mundo católico, o qual não deveria ser convertido, mas, sim, exterminado.
Já se pensarmos na escola francesa do gênero, em grande parte também moralista, o pano de fundo é outro e há bem mais tolerância entre os povos aparentemente rivais, já que seu modelo foi o contato com o Oriente e com as Américas. Basta lembrarmos, por exemplo, das novelas História cômica dos estados e impérios da Lua (1657) e História cômica dos estados e impérios do Sol (1662), de Cyrano de Bergerac (1619-1655). Sem falarmos em Micrômegas (1752) de Voltaire (1694-1778).
E da alta literatura às histórias em quadrinhos, a mesma relação frente ao outro se repete segundo aquelas mentalidades que as produziram. Basta comparar o alienígena em Buck Rogers (1928), de Anthony Rogers, ou Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, a Valérian, agente espaço-temporal (1967), de Pierre Chrsitin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé: é quase como confrontar o conquistador Hernán Cortés (1485-1547) ao nosso beato José de Anchieta (1534-1597).
Em suma, até a leitura da ficção mais desvairada é capaz de revelar muito do povo que a escreve. Fiquemos atentos ao que virá...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de julho de 2009].
Bolinhas feito pérolas
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